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A Cerveja já sabia Circular

Antes de a embalagem metálica ou a sustentabilidade se tornarem temas centrais já existiam setores que operavam segundo princípios que hoje associamos à economia circular.

Carlota Burnay
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Na História tudo é cíclico; o que muda é a forma. E, de facto, a inovação raramente é uma linha reta. É mais uma espiral: regressamos a soluções antigas, mas com novas ferramentas, nova escala e novas necessidades. Chamamos-lhe hoje versão 2.0, 3.0 ou até 4.0, mas o princípio original continua lá.

Basta olhar para um fenómeno curioso entre os mais jovens. Numa era dominada por smartphones e câmaras digitais de altíssima resolução, há quem tenha voltado a revelar rolos de fotografia analógica. Não é nostalgia. É uma procura por imagens mais autênticas, menos filtradas, mais próximas do momento real. O digital não desapareceu, claro. Mas o analógico voltou a ter lugar. E talvez a economia circular esteja a viver algo semelhante.

No Dia Global da Reciclagem fala-se, naturalmente, de metas ambientais, de separação de resíduos e de novas soluções tecnológicas para tornar os sistemas de gestão de embalagens mais eficientes. Em Portugal, a implementação nacional do Sistema de Depósito e Retorno (SDR) representa um passo importante nesse caminho, com o objetivo de valorizar cerca de 90% das embalagens PET e latas de bebidas.

Este sistema esteve durante alguns anos em fase piloto no país e os seus resultados indicam que o próximo dia 10 de abril poderá tornar-se um novo marco na valorização de parte dos resíduos de embalagens. É um passo que merece reconhecimento. Cumprir metas europeias e mudar comportamentos em relação às embalagens é hoje uma prioridade ambiental e económica.

Entre essas embalagens encontram-se as latas metálicas, profundamente ligadas a vários setores de bebidas e que começam também a ganhar escala no setor cervejeiro. Embora representem ainda cerca de 11% da cerveja embalada em Portugal, o seu crescimento aproxima-se dos 30% ao ano, impulsionado pelo turismo, por novos contextos de consumo e pela evolução tecnológica que garante a preservação da qualidade da cerveja, ajudando a quebrar antigos preconceitos associados a este material.

Mas antes de a embalagem metálica ou a sustentabilidade se tornarem temas centrais das políticas públicas, já existiam setores que operavam segundo princípios que hoje associamos à economia circular. O setor cervejeiro é um desses exemplos.

Desde há décadas, sobretudo no canal da restauração, as garrafas de cerveja são recolhidas, lavadas e colocadas novamente em circulação. A chamada tara retornável que ainda faz parte da normalidade do mercado, ainda que de uma forma mais distante, é um sistema simples e eficiente, muito antes de a economia circular ganhar nome. Nos anos 80 e 90, esta prática era generalizada e representava muito mais do que uma solução logística: fazia parte da economia do setor, da fidelização de clientes e da própria organização da cadeia de valor.

Hoje o contexto mudou, mas parte dessa lógica mantém-se. Em Portugal são colocadas no mercado cerca de mil milhões de garrafas de vidro por ano, sendo o setor cervejeiro responsável por uma parcela relevante desse volume, que inclui garrafas retornáveis e de uso único. O vidro tem vantagens claras: além da preservação da qualidade das bebidas, pode ser reciclado infinitamente sem perda de qualidade.

Antes de se pensar em reciclar, o mais importante é pensar em reutilizar. Estudos europeus mostram que reutilizar uma garrafa de vidro apenas cinco vezes pode reduzir significativamente o impacto ambiental face a uma garrafa de utilização única, precisamente porque o impacto da produção inicial se distribui por várias utilizações.

Dados recentes indicam que cerca de 51,3% do volume total de cerveja colocado no mercado nacional utiliza embalagens retornáveis, sendo as garrafas de vidro responsáveis por 23,5% desse total. Nos sistemas de reutilização atualmente em funcionamento, cada embalagem realiza em média quatro a cinco rotações por ano, prolongando o seu ciclo de vida e reduzindo a necessidade de matérias-primas virgens. Este modelo continua particularmente robusto nos formatos tradicionais – garrafas de vidro e barris metálicos – e no canal Horeca, onde a lógica de retorno às empresas do setor está mais consolidada.

Naturalmente, estes sistemas não funcionam apenas por boa vontade. Exigem logística eficiente, redes de recolha, infraestruturas de lavagem e cooperação entre produtores, distribuidores, Horeca, retalho e consumidores. Exigem também inovação, desde soluções digitais que facilitem o retorno das embalagens até modelos logísticos adaptados aos hábitos atuais.

Não precisamos, aliás, de reinventar a roda. Modelos de sucesso noutros países, como o sistema Pfand na Alemanha, demonstram a eficácia e a aceitação pública de mecanismos de retorno que promovem a circularidade das embalagens, gerindo tanto as reutilizáveis como as de uso único. Com taxas de recolha elevadíssimas, estes exemplos provam que, com o enquadramento regulatório adequado, infraestruturas eficientes e um sistema de incentivos claro, a reutilização e a reciclagem em larga escala são não só possíveis, como altamente bem-sucedidas. Em Portugal, já dispomos de sistemas robustos de retorno de embalagens reutilizáveis no setor cervejeiro, e a implementação do SDR surge para complementar esta abordagem, focando-se nas embalagens de uso único.

Portugal tem experiência industrial, conhecimento logístico e uma cadeia de valor instalada para participar nesta nova fase da economia circular. Talvez, afinal, a transição ecológica tenha também algo de redescoberta.

Tal como acontece com a fotografia analógica que voltou às mãos de uma nova geração, algumas ideias do passado revelam-se surpreendentemente modernas quando olhadas à luz dos desafios atuais.

Porque, por vezes, inovar não significa inventar algo completamente novo. Significa simplesmente dar várias vidas a uma boa ideia.