(c) 2023 am|dev

(A) :: Factos e ficções entre as mulheres

Factos e ficções entre as mulheres

Sete mulheres e suas histórias, libertas de considerações e biografias abusivas e enviesadas. É este o mote de "Vénus em Chamas", de Pedro Vieira, com factos cruzados com ficção e talento na escrita.

João Pedro Vala
text

Ao oitavo livro, o escritor e ilustrador Pedro Vieira procurou inovar no formato, construindo em Vénus em Chamas um híbrido entre ficção, ensaio e livro de História, onde se recordam as vidas de sete mulheres, mais e menos conhecidas, procurando ora resgatar do esquecimento ora de adulterações que o autor considera abusivas e enviesadas biografias que espelham uma instrumentalização da mulher para que esta caiba e robusteça uma narrativa androcêntrica. Mulheres a que a História nem sempre terá reconhecido o merecido lugar. Assim, as vidas de, entre outras, Maria, Teodora e irmã Lúcia são aqui rescritas primeiro de um ponto de vista declaradamente ficcional e depois de uma perspetiva ensaística para que as possamos ler a nova luz.

O livro nasce do podcast As Amigas de Eleanor, que Pedro Vieira manteve com Raquel Vaz Pinto, sendo que essa origem talvez devesse ser explicitada algures para ajudar a compreender uma questão que, infelizmente, nunca vem endereçada no livro, apesar de surgir na cabeça de qualquer leitor: se, como o subtítulo sugere, Deus instrumentalizou a mulher e se, como o miolo desenvolve, por Deus devemos entender o homem (“Diz-se que a História é escrita pelos vencedores, mas o lugar-comum pode ser parafraseado: antes de tudo, a História é escrita pelos homens”), então importa explicar de que forma é que este movimento, em que um homem (Pedro Vieira) vem agora reformular e renovar a narrativa destas mulheres, em alguns casos rescrevendo as versões que as próprias legaram à posteridade das suas vidas, não será também parte do problema que se propõe a resolver.

Esta evidente estranheza tem outra possível resposta em dois momentos do livro, onde Pedro Vieira contrapõe as narrativas canónicas das mulheres em apreço ao trabalho de dois artistas plásticos que o autor evidentemente (e muito justificadamente) admira: Paula Rego e Caravaggio. Ao discutir um painel feminino e feminista feito pela pintora portuguesa para a National Gallery, onde Madalena surge por duas vezes, Pedro Vieira explica que “ao representar Madalena em duas situações distintas, Paula Rego acaba por enfatizar a complexidade dos papéis femininos nas narrativas religiosas e históricas (…), recusa-se a confinar Madalena a uma única identidade — pecadora ou santa (…). Confere-lhe densidade. E, de alguma forma, poder”. Mais à frente, no último parágrafo do livro, a propósito de A Morte da Virgem, conta que Caravaggio “apropria-se da figura de Maria”: “Molda-a de acordo com os seus desígnios, mas com uma diferença. Nas suas mãos, Maria é profundamente humana. Estaria dado o primeiro passo para ser uma mulher de corpo inteiro, capaz de dizer de sua justiça”.

Parece ser isto a que Pedro Vieira também se propõe. Qual cavalo de Troia, imiscui-se num jogo que sugere repetir-se desde o pecado original para, beneficiando do seu estatuto de homem, reconfigurar uma narrativa destas mulheres que lhes confira densidade e poder, apesar de, para isso, em pelo menos três ocasiões (Joana d’Arc, Harriet Tubman e Lúcia Lúcia de Jesus) se veja forçado a infirmar as narrativas autobiográficas que as próprias nos legaram, atribuindo a origem destas histórias à falta de instrução das protagonistas, a manipulações várias da Igreja Católica e, num dos casos, a uma fratura no crânio.

Vénus em Chamas constitui, como decerto já se terá compreendido (bastaria atentarmos no subtítulo), uma crítica com certeza feroz, ainda que polvilhada de adversativas (leia-se, por exemplo, o que Vieira escreve sobre São Paulo), ao Cristianismo, mas, sobretudo, à Igreja Católica. A pertinência de ser esse o alvo num livro que vise denunciar o papel a que tantas vezes as mulheres foram remetidas é apresentada também no epílogo, onde nos é dito que “no que diz respeito à História, a religião — em particular a cristã — tem saído vencedora (…), valendo-se do transcendental para legitimar o terreno. E desde o início a mulher teve um papel diminuído, servindo apenas como instrumento para ilustrar algo”. Também por isso — ainda que o ataque mais forte à Igreja surja no capítulo sobre a irmã Lúcia e que Fillide nos mostre um bom contraponto ao tom geral, por ter esta cortesã que serviria de modelo a Caravaggio uma autonomia e poder consideravelmente maior do que as suas companheiras de livro — é no capítulo de Joana d’Arc (curiosamente central na estrutura de Vénus em Chamas) que este modelo tríptico proposto pelo autor de aproveitamento, exaltação e descarte mais perfeitamente vem delineado.

Como não poderia deixar de ser, por motivos que já muitas feministas antes argumentaram, o discurso feminista de Vénus em Chamas é, antes de tudo, um discurso anticapitalista, pelo que não será irrelevante que todas as personagens, além de serem mulheres, partilhem origens remediadas ou pobres, sendo certo que, tal como se torna claro no capítulo dedicado a Harriet Tubman (cujas agruras derivam mais da sua condição de negra do que da sua condição de mulher), o que aqui se diz sobre mulheres poderia, sem grandes variações, ser também dito sobre “questões de classe, de estatuto, de contexto político, de raça”, o que justifica que a páginas tantas o tratamento dado “ao homem que acaba por perfilhar o Messias” leve o autor a afirmar que haveria “algo de feminino em José”.

Numa entrevista recente a Nuno Artur Silva, em A Escuta do Mundo, Pedro Vieira explicava que, mais do que um livro de História, Vénus em Chamas seria um livro de histórias. Percebe-se bem o ponto. No entanto, é em muitos momentos por demais evidente o rigoroso e aturado trabalho de investigação que aqui subjaz (o que é raro neste formato). O livro espelha uma admirável robustez intelectual, uma demorada investigação teológica, um talento literário muito considerável e, sobretudo, um enorme rasgo na forma como Pedro Vieira articula a discussão artística e teológica, sendo notória a forma como o seu trabalho de ilustrador informa a escrita. A esse respeito, veja-se, na página 22, a discussão sobre um missal quinhentista criado para o arcebispo de Salzburgo ou, já na página 158, o argumento sobre o dedo aleijado da modelo cortesã Fillide em Marta e Maria Madalena, de Caravaggio.

Ao lume desta proposta de leitura de Vénus em Chamas como um livro de histórias, entende-se facilmente a opção pela ausência de notas de rodapé ou remissões bibliográficas, num livro que se pretenderia não académico. Aceita-se que isto se deva a um exercício de humildade por parte do autor, que não se verá como historiador nem ao seu livro como um exercício de divulgação científica. Tudo certo. Contudo, a ausência destas notas deixa os leitores que se interessem a fundo pelo livro ligeiramente descalços, na medida em que não lhes será possível saber de onde vieram as abundantes informações que vão sendo connosco partilhadas, para que se possam interessar ainda mais sobre o assunto, distinguir argumentos do autor de argumentos de outros investigadores, ou procurar aferir a validade das informações aí prestadas.

Por fim, importa acrescentar que Vénus em Chamas é também um exercício ficcional onde se fantasiam breves cenas centrais da vida das suas personagens. E talvez seja nessas páginas que se torna mais evidente o talento literário de Pedro Vieira, sobretudo logo nas iniciais, onde se reinventa a Anunciação de Gabriel a Maria, num tom que não pode deixar de nos trazer à memória o Evangelho Segundo Jesus Cristo, onde, curiosamente, logo nas sublimes páginas iniciais, o discurso sobre religião se funde também com um discurso sobre arte, no caso em apreço a propósito d’A Crucificação de Cristo, de Dürer.