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(A) :: Guerra no Médio Oriente pode causar nova crise migratória e ressuscitar o "pior pesadelo" da Europa — e ação da UE pode não ser suficiente

Guerra no Médio Oriente pode causar nova crise migratória e ressuscitar o "pior pesadelo" da Europa — e ação da UE pode não ser suficiente

Mais de 4 milhões de pessoas já estão deslocadas no Irão e no Líbano. Crise migratória como a de 2015 pode nunca chegar à Europa, mas melhor prevenção seria ajuda no terreno, alertam especialistas.

Madalena Moreira
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Ao longo do ano de 2015, mais de um milhão de pessoas deu entrada na Europa, em fuga de guerras e conflitos. Cerca de metade desse número eram refugiados da Síria, país mergulhado numa guerra civil. Ao longo dos anos seguintes, a chamada “crise dos refugiados” funcionou como combustível para alimentar profundas mudanças políticas na Europa e na União Europeia (UE). Mais de uma década depois, o Médio Oriente está mergulhado numa guerra regional e a ameaça de uma nova crise volta a pairar sobre o continente.

O alerta foi deixado pela Agência da União Europeia para o Asilo: “Com uma população de aproximadamente 90 milhões, apenas uma desestabilização parcial [do Irão] pode gerar movimentos de refugiados de uma magnitude sem precedentes”, lê-se no documento publicado no dia 3 de março de 2026. Numa comparação simplificada, a guerra civil na Síria obrigou seis milhões de pessoas, de uma população total de 21 milhões, a fugir do país — se a mesma proporção se verificar no Irão, isso representa 26 milhões de refugiados internacionais.

Contudo, os movimentos migratórios são mais complexos do que uma regra de três simples: é preciso considerar a duração temporal e a extensão geográfica dos conflitos, a situação humanitária e a reação política não só dos atores envolvidos, mas de toda a comunidade global. Tendo estas variáveis em consideração, os especialistas ouvidos pelo Observador argumentam que é “improvável” que a Europa venha a enfrentar em breve uma crise nos mesmos moldes. “Isso era basicamente o pior pesadelo da Europa em termos de cenários”, argumenta Kelly Petillo, analista do programa do Médio Oriente no think tank europeu European Council for Foreign Relations (ECFR), ao Observador.

Ainda assim, o cenário de “incerteza” levou a Europa a agir. Dois dias depois de a guerra começar, o comissário europeu para as migrações, Magnus Brunner, falou ao telefone com o ministro dos Negócios Estrangeiros da Turquia, Hakan Fidan. A chamada serviu principalmente para antecipar cenários, mas não foram traçados planos concretos para responder a possíveis crises, avançou o New York Times, que cita responsáveis europeus e turcos com conhecimento da conversa.

"É um erro assumir que não há uma crise a não ser que vejamos um aumento das chegadas irregulares à Europa. Isso é muito míope."
Alberto‑Horst Neidhardt, diretor do programa de migração e diversidade do think tank EPC

A atenção dispensada por Bruxelas ao conflito desde a primeira hora é um reflexo das lições retiradas dos últimos dez anos e das políticas que têm vindo a ser implementadas dentro do espaço dos 27. Mas os analistas temem que o olhar atento não tenha sido convertido em mecanismos eficazes para lidar com o pior cenário possível. “É um erro assumir que não há uma crise a não ser que vejamos um aumento das chegadas irregulares à Europa. Isso é muito míope”, considera Alberto‑Horst Neidhardt, diretor do programa de migração e diversidade do think tank European Policy Center (EPC).

Uma crise por enquanto regional, que é “improvável” que chegue à Europa

Ao fim de uma semana de guerra, Fariba abandonou o Irão com o filho e rumou à Turquia. A fronteira entre os dois países em Kapıköy, onde passou, tornou-se um ponto de fuga da guerra para milhares de iranianos. Ainda assim, Fariba relata à Associated Press que os que fogem para o estrangeiro são uma minoria, com capacidade financeira para encetar a viagem. E espera que a saída seja apenas temporária, exprimindo o desejo de regressar.

Este mesmo sentimento de ligação ao país natal também contribui para que muita gente escolha não sair do país imediatamente após o eclodir de um conflito, mesmo que sejam obrigados a sair de casa, ressalva Alberto‑Horst Neidhardt. Os números da agência das Nações Unidas para os refugiados (UNHCR) refletem isso mesmo. Desde o início do conflito, já se deslocaram dentro do Irão mais de três milhões de pessoas, tendo a maior parte fugido para o leste do país, junto à fronteira com o Afeganistão, onde os ataques têm sido menos intensos.

Esta mesma realidade também ajuda a explicar o facto de a crise migratória da última década só ter atingido a Europa quatro anos depois de a guerra civil na Síria ter começado. Não sendo o impacto da crise imediato, o impacto da atual crise no Médio Oriente não se deve fazer sentir em breve  e a “UE tem tempo para se preparar e para responder”, salienta Kelly Petillo. Além disso, no caso do conflito atual impõem-se outras características, que podem manter a Europa à margem das crises de imigração.

Por um lado, a administração norte-americana, responsável pelos primeiros ataques da guerra, tem reiterado ao longo das últimas três semanas que o conflito não irá escalar para uma guerra prolongada. Uma estimativa inicial da Casa Branca e do Pentágono apontava para uma ofensiva até seis semanas. Esta quinta-feira, o secretário da Defesa dos EUA, Pete Hegseth, recusou comprometer-se com um “prazo definitivo” para o fim dos ataques, mas declarou que a operação tem decorrido dentro dos prazos definidos internamente.

Por outro lado, a situação atual é, para muitos países do Médio Oriente “infelizmente mais do mesmo”, lamenta Alberto‑Horst Neidhardt. Ou seja, países como o Líbano, o Iraque, a Síria ou o Afeganistão (estes dois últimos não envolvidos na guerra mas a sentir a pressão migratória devido à proximidade geográfica) já passaram por guerras na última década e a instabilidade tornou-se o novo normal para muitas pessoas. Por outro lado, esta pressão constante também faz com que estes países tenham já largas comunidades de refugiados e deslocados internos.

O caso mais visível no Médio Oriente desta segunda realidade é a Turquia, o país com a maior comunidade de refugiados do mundo — são quase três milhões de sírios e 200 mil iranianos, iraquianos e afegãos. Por ser um destino frequente para refugiados da região, a Turquia olha com mais apreensão para a possibilidade de uma nova crise. Neste enquadramento e neste momento do conflito, os fluxos migratórios existentes são principalmente regionais. Mas a pressão já existente faz com que, num caso de evolução do conflito, esta possa extravasar mais rapidamente. Nessa evolução inclui-se um prolongamento da guerra, um alargar da guerra a ainda mais países ou uma mudança súbita no conflito, como o colapso da rede energética e dos serviços básicos de Teerão, o maior centro urbano do Irão, por exemplo.

As lições aprendidas com a Síria: o Pacto sobre Migração e Asilo e o perigo de “chantagem” de Ancara

Assinalaram-se, na passada quarta-feira, dez anos da assinatura do Acordo UE-Turquia, que tinha como objetivo travar o fluxo de imigrantes irregulares entre a Turquia e o bloco europeu. Precisamente uma década depois, o acordo enfrenta agora o seu maior teste. Não tanto na possibilidade de a crise migratória chegar à Europa, mas na cooperação entre os dois blocos.

"[O Presidente turco] Erdoğan já usou a carta dos refugiados para quase, se quisermos utilizar uma palavra extrema, chantagear os europeus. E isto é algo que também preocupa os europeus."
Kelly Petillo, analista do programa do Médio Oriente no think tank europeu ECFR

Ancara foi rápida a agir. Apesar de o telefonema entre o ministro dos Negócios Estrangeiros e comissário para as migrações não ter resultado em nenhum plano concreto, o Governo turco já tinha traçado várias hipóteses para fazer frente à crise humanitária na região e ao fluxo migratório, anunciados logo no início da guerra pelo ministro dos Negócios Estrangeiros. O primeiro plano passa por travar a migração dentro do território iraniano, não promovendo a saída para o estrangeiro; o segundo por criar zonas tampão ao longo dos quase 400 quilómetros de fronteira entre a Turquia e o Irão; o terceiro, utilizado apenas em último caso, prevê o acolhimento de 90 mil pessoas.

Da parte de Bruxelas, a resposta a uma possível mudança nos fluxos migratórios assenta nas lições aprendidas e aplicadas nos últimos dez anos. A mais visível dessas mudanças é o Pacto sobre Migração e Asilo, aprovado em 2024, mas que só entrará em vigor oficialmente a partir do dia 12 de junho de 2026 — e que, tal como o acordo UE-Turquia, enfrenta agora o seu maior teste. O Pacto prevê uma redistribuição por todo o bloco das entradas em cada país, procurando retirar a pressão migratória de Estados fronteiriços como o Chipre, a Grécia, Itália ou Espanha.

“A UE está a preparar-se, ao adotar o pacto sobre asilo da UE, ao insistir na segurança na fronteira e na externalização”, reconhece a analista Kelly Petillo. “Mas estas ferramentas não garantem uma cobertura completa” das crises, alerta. Os analistas apontam repetidamente que as medidas que a Europa tem vindo a aplicar estão focadas em dar resposta às pressões e consequências internas das crises e não em como travar essas pressões antes de sequer chegarem à fronteira. Nesse aspeto, Kelly Petillo admite que Bruxelas “pode ter posto a cabeça na areia e esperado que não chegasse ao ponto de o Irão ser atacado”.

Neste cenário, a cooperação com a Turquia, um aliado de muitos Estados europeus através da NATO e o vizinho mais próximo do Médio Oriente, torna-se ainda mais relevante. Mas outra lição retirada de 2016 é que a coordenação entre Bruxelas e Ancara tem de ser feita com conta, peso e medida, pois a confiança pode criar “dependência”. “[O Presidente turco] Erdoğan já usou a carta dos refugiados para quase, se quisermos utilizar uma palavra extrema, chantagear os europeus. E isto é algo que também preocupa os europeus”, argumenta a especialista do ECFR.

Uma década depois, “estamos a falar de uma Europa completamente diferente”

Dresden, 31 de agosto de 2015. Numa conferência de imprensa depois de uma visita a um campo de refugiados na cidade alemã, a chanceler Angela Merkel diz três palavras que se tornam um lema ao longo do ano seguinte: “Wir schaffen das” (“Nós conseguimos”, em tradução livre). A frase tornou-se o mote para Europa acolher dentro das suas fronteiras mais de um milhão de refugiados em apenas um ano.

Porém, dez anos depois, o objetivo da Europa é evitar ao máximo ter de tentar sequer aplicar estas mesmas políticas. “Não queremos outro cenário como na Síria. Temos um grande interesse em evitar novos fluxos de refugiados na região”, declarou o atual chanceler alemão, Friedrich Merz, em declarações no início deste mês. O desejo de a Europa se manter afastada do conflito não se reflete apenas na recusas repetidas de integrar os planos de Donald Trump, quer para uma ofensiva, quer para a criação de uma escolta para reabrir o Estreito de Ormuz, um tema que tomou conta da terceira semana de guerra — o afastamento europeu também se pode refletir na retração da sua ação internacional.

Ao longo de mais de dez anos de guerra civil na Síria, a UE assumiu-se como o maior doador de assistência humanitária e ao desenvolvimento com uma contribuição de mais de 38 mil milhões de euros. “Isso não será o caso desta vez”, acredita Kelly Petillo. A assistência europeia continua a existir e a ser entregue — no dia 10 de março, a UE anunciou um pacote de assistência humanitária, a ser entregue pelo Programa Alimentar Mundial e pela UNICEF no Líbano —, mas a dimensão é bem menor — este pacote totalizou 100 milhões de euros.

Os especialistas encontram a justificação para esta retração europeia nas mudanças sistémicas a que o bloco assistiu na última década. Depois da “crise de refugiados”, os 27 enfrentaram a ascensão de novos modelos políticos populistas. Depois seguiu-se uma pandemia e ainda uma guerra às portas da UE e a ameaça militar da Rússia. Tudo isto mudou a forma de olhar para as migrações, que passaram a ser uma questão securitária, considera Kelly Petillo.

“A cooperação é baseada em modelos económicos, em industrialização, em cooperação para a energia em vez de [cooperação] para o desenvolvimento”, elabora. Afinal, não foi só o chanceler alemão que mudou. “Estamos a falar de uma Europa completamente diferente”, remata a analista.

Ainda assim, a aposta na assistência humanitária e na cooperação com organizações das Nações Unidas, como a UNHCR ou a Organização Internacional para as Migrações (IOM), pode continuar a ser a melhor aposta para proteger o continente europeu, argumenta Alberto‑Horst Neidhardt. A “lógica”, explica, está em resolver o problema na origem e mitigar as consequências humanitárias da guerra diretamente no terreno, prevenindo uma escalada do conflito que venha a afetar outras zonas do globo. “Há uma diferença entre não querer estar envolvido no conflito e ter uma posição clara sobre o que precisa de acontecer no Médio Oriente e acho que estamos a ver muito da primeira opção, mas não o suficiente da segunda”, conclui.

A ascensão da extrema-direita e o aprofundar de divisões internas: os dilemas internos da UE

“A situação no Médio Oriente pode desencadear uma nova onda de migração e uma crise securitária para a qual a Europa não está preparada adequadamente”. O alerta foi deixado esta quinta-feira pelos Patriotas pela Europa, o grupo do Parlamento Europeu que reúne alguns dos principais partidos de extrema-direita da UE. O grupo só foi fundado em 2024 e muitos dos partidos que pertencem a esta família protagonizaram um crescimento notável durante a última década.

A ascensão deste espectro político dentro da Europa é explicada, em parte, pela vaga de imigração no continente, que os partidos utilizaram como “arma”, aplicada a discursos e propostas políticas populistas. No racional dos restantes espectros partidos pesa também a hipótese de uma nova crise migratória alimentar um crescimento ainda maior de uma porção já considerável destas forças políticas no continente. “Isto seria uma ótima ferramenta para os partidos de extrema-direita mostrarem que os migrantes são um problema e que a UE não está pronta”, analisa Kelly Petillo. “Eles poderiam fazer campanhas dizendo ‘se eu estiver no governo, eu posso impedir estes migrantes de entrar'”, acrescenta.

"Não interessa se é porque não querem que estas pessoas cheguem à Europa de forma irregular ou se querem garantir assistência humanitária [e prevenir a extrema-direita de instrumentalizar o que está a acontecer]. De qualquer modo, faz sentido apoiar estas pessoas onde elas estão."
Alberto‑Horst Neidhardt, diretor do programa de migração e diversidade do think tank EPC

Com esta possibilidade em cima da mesa, a divisão já existente dentro da União Europeia ameaça aprofundar-se. A especialista dá o exemplo de dois países em pontas opostas do espectro. De um lado está Itália, onde o Governo de Giorgia Meloni aplicou uma das leis restritivas à entrada ou à regularização da situação de imigrantes sem documentos no país — medidas que incluem, desde o mês passado, a aplicação de um bloqueio naval para travar navios migrantes em casos “excecionais”.

Do outro está Espanha, cuja políticas de integração — num contraciclo cada vez mais frequente com os 26 parceiros europeus — resultaram, no final de janeiro, na atribuição de permissões de residência a meio milhão de imigrantes que viviam de forma irregular no país. A enorme disparidade entre as posições de Roma e Madrid revela as possíveis dificuldades que a UE terá de enfrentar para encontrar e aplicar uma posição comum na eventualidade de a crise migratória chegar ao continente

Contudo, Alberto‑Horst Neidhardt tem uma leitura diferente: “Em cada crise, torna-se mais claro que os Estados-membros se saem muito melhor quando a UE fala a uma só voz. O problema está aí. Ainda não há uma forma de traduzir esta consciência numa realidade”, pondera. O analista do EPC insiste que a voz única para esta questão está na resposta humanitária. “Não interessa se é porque não querem que estas pessoas cheguem à Europa de forma irregular ou se querem garantir assistência humanitária [e prevenir a extrema-direita de instrumentalizar o que está a acontecer]. De qualquer modo, faz sentido apoiar estas pessoas onde elas estão”, remata.