“Hoje é dia do pai. O sonho do meu pai é o nosso sonho”, que a Sonae seja uma “long living company” como Belmiro de Azevedo gostava de dizer. Uma empresa de vida longa. Cláudia Azevedo, a filha que é presidente executiva da Sonae — depois de ter sucedido ao irmão Paulo Azevedo –, garante que o grupo está bem posicionado para enfrentar o futuro. Esse futuro, no curto prazo, está atravessado de incertezas por causa da situação geopolítica, “um contexto muito mais do que desafiante” até porque, diz Cláudia Azevedo, “influencia toda a gente e é-nos imposta”.
A situação do Médio Oriente fez disparar os preços do petróleo e, consequentemente, dos combustíveis, o que tem impacto “em toda a cadeia de valor”, podendo demorar a chegar a alguns pontos. Assumindo que “temos a base para um crescimento muito saudável em Portugal e fora de Portugal, com as empresas que temos há algum tempo e com as empresas novas”, Cláudia Azevedo não esconde o impacto forte do preço dos combustíveis. Mas não quantifica — “não vamos partilhar cenários”.
“Na distribuição alimentar, toda a cadeia é afetada pelo preço do petróleo, já vimos na Guerra Ucrânia, em que vivemos esse cenário e toda a cadeia teve de se adaptar”. Mas assume que “é diferente demorar mais uma semana ou mais”, mas o impacto “é forte”. O roteiro já está feito. Foi feito na Guerra da Ucrânia. Entre ajudas de Estado e a absorção pelos players de alguma margem, diz, acrescentando que tem de se “trabalhar numa solução em conjunto para que seja boa para os consumidores portugueses nas várias componentes. Todos os players da cadeia de valor têm de ter o seu papel. O Estado é um deles. Da última vez fê-lo de forma responsável”. Mas Cláudia Azevedo admite o que pensa sobre uma das medidas que tem sido pedida: “Gostamos muito do IVA zero” em bens alimentares.
Com a atual crise no Médio Oriente já se antecipam cenários de retorno a níveis de inflação elevados. Para já, no retalho alimentar, “é controlada e relativamente baixa”. “Os clientes ainda não estão a sentir a aceleração da inflação na globalidade dos produtos”, mas “não conseguimos antecipar o que vai acontecer no futuro. Se [o conflito] persistir, a pressão inflacionista pode subir. E começam a ver-se ecos de que isso pode acontecer”, salienta a Sonae, assumindo o compromisso de “tudo fazer para ter os preços mais baixos no mercado”. João Dolores diz que já foi assim no passado e “fizemos o nosso papel, baixámos as nossas margens” para amortecer o impacto.
No início deste ano a inflação no retalho estava em torno dos 3%, abaixo dos cerca de 4% sentidos em 2025. “É o que nos chega através da cadeia de abastecimento”, acrescenta. O negócio do retalho é de margem reduzida e de escala que permite custos fixos diluídos mesmo aumentando volume, explica a empresária. E por isso “tentamos ser eficientes nessa entrega de valor” e promete “preços competitivos no mercado para garantir que damos sempre resposta ao que os clientes procuram”.
Nos impactos, a Sonae não antecipa turbulência nas suas contas e balanço com eventual subida das taxas de juro, já que tem uma cobertura significativa na dívida. A exposição a oscilações no curto prazo não é grande. “Terão impacto mas não na dimensão da totalidade da dívida”. Em 2025, a dívida líquida caiu 100 milhões face a 2024, ficando abaixo dos 1,5 mil milhões, o que leva o administrador financeiro, João Dolores, a considerar que o rácio de endividamento é hoje “conservador e prudente”, o que dá “confiança para enfrentar o futuro e aproveitar oportunidades que apareçam”.
Temporais infligem prejuízo (já contabilizado) de 10 milhões. Seguros não cobrem todos os danos
A guerra do Irão segue-se a um início do ano que teve, em Portugal, uma crise climática, com temporais no final de janeiro e início de fevereiro. A Sonae diz estar ainda a avaliar os impactos das tempestades que perduram no tempo. Além dos danos nas lojas (uma continua fechada) há outros prejuízos como vendas perdidas. Cláudia Azevedo dá outro exemplo: com as cheias, um dos centros de abastecimento da Sonae, na Azambuja, ficou com acessos limitados. A rede ferroviária ficou cortada e algumas estradas também, o que implicou rotas alternativas, em percursos mais longos. O custo adicional está cifrado em 300/400 mil euros.
São, pois, várias contas a ter de ser tidas em consideração. “Até à data [a contabilidade vai em] mais 10 milhões de impacto em termos de valor”, especificou João Dolores, garantindo que há alguns danos patrimoniais cobertos por seguros “mas não em todos os casos”. As apólices foram acionadas e a Sonae espera para ver o que conseguirá de ressarcimento.
Em relação ao apagão, o grupo da Maia garantiu, na conferência de imprensa, que não fez qualquer pedido de indemnização às elétricas.
Mercadona? “Desafia-nos a fazer mais e melhor”
Como vê a Sonae o papel da Mercadona em Portugal, que continua a aumentar o número de lojas e que diz pagar mais que os concorrentes aos seus trabalhadores? Cláudia Azevedo responde: “Vemos bem. A Mercadona é o maior player espanhol. É alguém que nos desafia a fazer mais e melhor”, assumindo que os únicos operadores a aumentar quota foram o Continente e a Mercadona.
A Sonae tinha no final de 2025 cerca de 57 mil trabalhadores. O grupo da Maia recusa comentar “políticas salariais ou remunerações de outros players“, mas acredita ter “uma política justa, em termos de salários e conjunto de benefícios. As pessoas são o nosso principal ativo”.
Cláudia Azevedo, a propósito da reforma da legislação laboral, aponta às mudanças que têm acontecido. E com isso em mente diz: “O risco é não mudar. Olho-o como tema não partidário e ideológico. Seria bom chegarmos a um entendimento e estamos num momento ótimo, de pleno emprego. Se houvesse uma crise, era muito mais difícil chegar a acordo”, considerando, assim, ser uma “oportunidade única” que se deve “aproveitar para discutir os empregos do futuro e as necessidades e como as partes se podem entender. Espero que se entendam porque ganha toda a gente com isso”, conclui a empresária a propósito das negociações para a legislação laboral.
Valor da empresa nos 5 mil milhões. “Há muito potencial de valorização da ação”
A Sonae traçou, em conferência de imprensa após a apresentação de resultados de 2025, uma ambição de crescimento, continuando a investir. Apresentou a sua carteira de negócios, reformulada nos últimos anos e que assenta em várias áreas de negócio:
- MC – que tem o retalho alimentar (Continente, Modelo, Bom Dia e Meu Super), lojas de saúde e bem estar (Wells, em Portugal, Arenal e Druni em Espanha), as unidades Note (livraria e papelaria) e Bagga (cafetaria); Sonae tem 75,01%;
- Worten, lojas de eletrónica. Sonae detém 100%;
- Sierra, de imobiliário, detida a 100% pela Sonae. João Dolores diz que a Sonae está “bastante otimista” para esta área, estando com vários projetos em desenvolvimento, nomeadamente construir para arrendar. Em relação aos preços do imobiliário assume que “na ibéria continua a ser um setor bastante atrativo”.
- Musti, de cuidados para animais. Sonae detém 80,65%;
- BrightPixel, gestão de participações na área de tecnologia. Sonae tem 90%. O valor patrimonial desta empresa atinge os 318 milhões.
- 37,4% da Nos;
- 100% da Sparkfood, que é uma empresa para investimentos em empresas “inovadoras” na área da comida saudável. A Sonae já investiu em 13 empresas, num total de 313 milhões de euros.
- 50% do Universo, no qual tem uma parceria com o Bankinter;
- 100% da Salsa Jeans. A Sonae, na conferência de imprensa, diz que não se podem traçar paralelos entre a Salsa e a Mo e a Zippy, entidades que foram vendidas aos gestores. A Salsa é “para continuar a crescer”, assumiu João Dolores.
A Sonae diz ter um portefólio equilibrado, em termos de negócios e geografias. Em cinco anos investiu seis mil milhões de euros, tendo no ano investido 1,1 mil milhões em termos agregados. O valor do portefólio, segundo a Sonae, está contabilizado em 5 mil milhões de euros, assumindo, assim, que com base neste montante “há muito potencial de valorização da ação” em bolsa. “Elevámos o valor do grupo para um novo patamar histórico”, assume João Dolores.
Cláudia Azevedo definiu o ano de 2024 como “memorável” e o ano de 2025 como “extraordinário”. Para 2026 não se atreve a prever um adjetivo. “Gostava de dizer coisas parecidas para o ano”, disse apenas a CEO que termina o mandato no final deste ano. Questionada sobre o futuro declarou apenas: “Estou muito feliz como CEO da Sonae”.