(c) 2023 am|dev

(A) :: Internet cortada e chamadas caras. Como é que a diáspora iraniana fala com a família no Irão em plena guerra

Internet cortada e chamadas caras. Como é que a diáspora iraniana fala com a família no Irão em plena guerra

Para iranianos na diáspora, manter contacto com a família no Irão tem sido "angustiante". Só com dinheiro, know-how e acesso ao mercado negro é que os iranianos se conseguem ligar ao resto do mundo.

José Carlos Duarte
text

Sempre que há um ataque numa região onde os familiares vivem, há stress, medo e ansiedade. “Tem sido extremamente angustiante. As pessoas procuram nas redes sociais por fotos ou vídeos dentro do Irão para ver se os bairros foram atingidos. Às vezes, a única forma de saber se a família está em risco passa por examinar imagens aleatórias online e tentar estimar a proximidade de uma explosão”, relata ao Observador Tirdad Kia, um cidadão do Irão que vive em Chicago e que gere várias associações cívicas da diáspora iraniana nos Estados Unidos da América (EUA).

Desde que começou a operação militar dos Estados Unidos e de Israel “Fúria Épica”, a 28 de fevereiro, milhões de iranianos que vivem fora do país-natal ficaram “extremamente ansiosos”. A República Islâmica bloqueou quase totalmente o acesso à internet e limitou as chamadas telefónicas para o estrangeiro, numa altura em que o país está a ser bombardeado. Muitos desesperam por receber notícias e não conseguem facilmente contactar com a família e amigos.

O regime do Irão já tinha feito o mesmo no início de janeiro, quando milhões de iranianos saíram às ruas para protestar contra a República Islâmica. Através da internet, a população tinha acesso a notícias, a redes sociais e podia convocar livremente manifestações. Perante estes riscos para a sua sobrevivência, o Governo iraniano colocou o país num apagão informativo, de forma também a que não fossem publicados vídeos e imagens dos protestos e da violência com que os suprimiu. Durante o conflito contra Israel e Estados Unidos, o Governo iraniano voltou a desconectar o país da internet.

“Desde que começou a intervenção militar, o acesso à internet pela população iraniana foi novamente cortado”, corrobora, em declarações ao Observador, Tahireh Panahi, advogada iraniana e professora na Universidade de Kassel, na Alemanha. “Para as pessoas que têm família e amigos no Irão, manter contacto é extremamente difícil. Não só a internet está bloqueada, como também as chamadas telefónicas são muito caras”, constata.

Chamadas telefónicas do Irão. Como a diáspora iraniana contacta com os familiares

Entre a diáspora iraniana, são bastantes as dificuldades, agravadas pela imprevisibilidade do regime. Em Portugal, Ashkan Seifi, que vive em território nacional há 40 anos, conta ao Observador que tem conseguido falar ao telefone com a mãe frequentemente, apesar de não poder ligar-lhe quando quiser. “O que eu consigo é a minha mãe telefonar-me desde o Irão. Eu não estou a conseguir contactar ninguém, é difícil contactar as pessoas no Irão”, refere. As chamadas têm também de ser “a correr”: “O preço das chamadas é bastante elevado e tem aumentado de forma substancial”.

Os iranianos em Portugal estão, de uma forma generalizada, na mesma situação do que Ashkan Seifi: apenas se receberem uma chamada do Irão conseguem falar com os familiares. “Estou em contacto com alguns grupos de ativistas no Porto e alguns em Lisboa. A situação é a mesma: não conseguem telefonar, só recebem chamadas e não há acesso à internet. Em relação à internet, já não há acesso, já perdi a conta há quanto tempo não há acesso, isso deixou de ser uma solução”, continua.

"O que eu consigo é a minha mãe telefonar-me desde o Irão. Eu não estou a conseguir contactar ninguém, é difícil contactar as pessoas no Irão."
Ashkan Seifi, iraniano que vive em território nacional há 40 anos

Na mesma senda, Tirdad Kia dá conta de que as “chamadas telefónicas são tecnicamente possíveis” nos Estados Unidos, mas são “caras e não são confiáveis”. Tal como acontece em Portugal, “é uma via de sentido único”, o que significa que podem apenas receber telefonemas nos EUA desde o Irão. Mesmo assim, a rede nem sempre funciona e “as chamadas caem muitas vezes”.

Além disso, o iraniano que vive em Chicago expõe um motivo que faz muitos iranianos terem um pé atrás no que toca aos telefonemas: “Muitas pessoas preocupam-se com o facto de que as conversas possam ser monitorizadas. Muitas pessoas têm medo de falar abertamente. Por causa dessas preocupações, as pessoas são cuidadosas sobre aquilo que contam durante as chamadas telefónicas”. O regime dispõe de meios para monitorizar as conversas e “é muito fácil fazê-lo”, salienta Tirdad Kia.

Na Alemanha, Tahireh Panahi confirma que “muitos iranianos preocupam-se com a possibilidade de que as suas conversas possam ser monitorizadas”, principalmente durante a guerra. As informações obtidas através das chamadas telefónicas podem mais tarde ser usadas pelo regime para retaliar contra os iranianos dentro do país. “Podem sofrer pressões em virtude disso”, expõe a advogada.

Por sua vez, há quem não tenha medo das possíveis represálias resultantes dos conteúdos dos telefonemas. “Sempre houve isso. Estou em Portugal desde 1986 e, já nessa altura, o meu pai me dizia ‘não vamos falar sobre isso agora’. Isso sempre houve”, recorda Ashkan Seifi, contrapondo com o que acontece agora: “O que eu verifico é que cada vez mais o povo está a perder o medo. Já não temos nada a perder, não é? Depois de tantas milhares de pessoas terem perdido a vida [nos protestos contra o regime], sinceramente temos pouco a perder. E o povo já deixou de ter esse medo… Inclusive eu”.

Quando alguém não consegue contactar os familiares no Irão, entre a diáspora iraniana nos Estados Unidos, há um clima de entreajuda durante o vazio informativo que gera bastante ansiedade. “Muitas pessoas criaram grupos de chat” em plataformas de mensagens instantâneas “para coordenar informação”, começa por dizer Tirdad Kia. “Quando alguém recebe uma chamada telefónica do Irão, pergunta logo nos grupos se há quem não esteja a conseguir falar com a família. Esses números em falta são depois enviados para contactos dentro do Irão, para que alguém tente ligar e confirmar como está essa família”, explica.

A internet totalmente cortada — apenas com algumas exceções

Era o início de uma entrevista à distância do ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, ao canal de televisão NBC News. A jornalista que conduziu a conversa reparou que o chefe da diplomacia estava a usar a plataforma Zoom — uma empresa dos Estados Unidos que disponibiliza uma ferramenta para realizar chamadas de videoconferência.

https://twitter.com/nexta_tv/status/2033227978826744173

No programa Face The Nation do passado domingo, a jornalista Margaret Brennan perguntou diretamente a Abbas Araghchi: “Está a usar o Zoom. O povo iraniano não tem acesso livre à internet, mas você tem. Porquê?” Confrontado, o ministro apresentou-se como “a voz dos iranianos”. “Tenho de defender os seus direitos. É por isso que tenho acesso à internet, para que a nossa voz seja ouvida na comunidade internacional.”

Na mesma medida, Abbas Araghchi apresentou o principal motivo pelo qual a internet está praticamente cortada no Irão desde o final de fevereiro, lembrando a guerra que o país enfrenta. “Não se tem acesso à internet por razões de segurança. O país está sob ataque e temos de fazer tudo para proteger o nosso povo. Em todos os países, há medidas iguais tomadas para defender a lei nestes casos”, elaborou.

Para Ashkan Seifi, isto demonstra totalmente o “espírito do regime”, que beneficia e concede privilégios àqueles que o apoiam. Por seu turno, Tahireh Panahi confirma que os “dirigentes do regime também têm acesso à internet” e aclara que, dessa forma, se “posicionam como filtro das informações que saem do Irão”. Além da ofensiva militar, Teerão enfrenta uma desvantagem na guerra informativa que tem em curso: os métodos violentos e repressivos usados pelos braços armados do Governo contribuem para a má reputação internacional do regime.

"Não se tem acesso à internet por razões de segurança. O país está sob ataque e temos de fazer tudo para proteger o nosso povo. Em todos os países, há medidas iguais tomadas para defender a lei nestes casos."
Ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, sobre o apagão informativo

A solução? Cortar praticamente o acesso à internet, não permitindo que fotografias e vídeos sejam publicados nas redes sociais. Durante os protestos que irromperam em janeiro de 2026, o apagão informativo tornou impossível saber ao certo quantas pessoas foram mortas ou presas, existindo apenas algumas estimativas. Em tempo de guerra, o Governo iraniano segue a mesma lógica: controla rigidamente a circulação de informação e consegue esconder a real dimensão dos danos causados pelos ataques de Israel e dos Estados Unidos, tanto em infraestruturas militares como em vítimas civis.

“O acesso  à internet é muito inconstante. Algumas pessoas conseguem conectar-se brevemente, mas é muito instável”, sinaliza Tirdad Kia, dizendo que deixou de ser uma alternativa para contactar os familiares no Irão. Em declarações ao Observador, Amir Rashidi, membro da organização Mian Group e especialista em cibersegurança no Irão, corrobora e enfatiza que a internet está mesmo praticamente cortada. “Não há forma de ter acesso à internet dentro do país ou desde fora, a não ser que se seja um especialista em tecnologia ou um engenheiro informático.”

Amir Rashidi sublinha que esta “não é a primeira vez” que o regime corta o acesso à internet, elucidando como é que o Irão faz. “Criaram uma espécie de rede informática local. Chamam‑lhe Rede Nacional de Informação e os iranianos chamam-lhe internet nacional, que é basicamente uma intranet à escala nacional”, conta, esclarecendo o seu funcionamento: “Imagine que está no escritório e que todo o escritório tem a sua própria rede local, mas também com acesso à internet. Quem gere a infraestrutura do seu escritório pode desligar essa porta de acesso. Basicamente, é isso que o Governo iraniano está a fazer”.

Quando havia internet, à semelhança do que fez a China (com as aplicações WeChat ou a AliPay), o regime do Irão também desenvolveu e promoveu apps de comunicação domésticas para os iranianos usarem. No entanto, isso coloca conversas confidenciais tidas nesses chats diretamente nas mãos do regime iraniano. “Há aplicações como a Bally ou a Eitaa. Se se usa essa aplicação, certamente a conversa está a ser monitorizada pelo Governo”, garante Amir Rashidi.

Entre os iranianos, a desconfiança em relação a essas apps prevalece. “O Governo tem promovido essas aplicações de mensagens de produção doméstica para substituir o WhatsApp. Mas muitos utilizadores continuam a desconfiar dessas aplicações, precisamente porque tem havido relatos de que as autoridades conseguem monitorizar as comunicações”, afirma Tirdad Kia.

Aplicações como o Whatsapp ou o Signal evitam que as conversas “sejam monitorizadas” pelo Governo iraniano, aponta Amir Rashidi. Contudo, o regime iraniano já bloqueou essas apps no passado, tendo levantado no final de 2024 a proibição que vigorava, na altura, há pelo menos dois anos. O acesso continuava, ainda assim, instável e sujeito a vários filtros, o que fazia com que muitos iranianos também mantivessem algumas reservas.

"O Governo tem promovido essas aplicações de mensagens de produção doméstica para substituir o WhatsApp. Mas muitos utilizadores continuam a desconfiar dessas aplicações, precisamente porque tem havido relatos de que as autoridades conseguem monitorizar as comunicações."
Tirdad Kia, um cidadão do Irão que vive em Chicago

Starlink e antenas parabólicas. Como os iranianos tentam contactar os familiares através da internet

Para os iranianos de classe média, que têm um salário médio de cerca de 200 euros, é praticamente impossível ter acesso à internet para contactar os familiares no estrangeiro. Porém, há quem o consiga clandestinamente e fuja da apertada malha do regime. Para isso, são precisas três coisas: dinheiro, know-how e acesso ao mercado negro. “É preciso saber como manobrar a tecnologia. Se não se recorrer a esses métodos, é praticamente impossível”, diz Amir Rashidi.

Quando havia acesso à internet, as pessoas dentro do Irão “usavam múltiplos VPNs” — mecanismos que criam uma ligação encriptada através da qual se simula que se está noutro país —, e isso contornava a censura, “apesar de ser caro e tecnicamente complicado para muitos”, refere Tirdad Kia. Quando se usava estas ferramentas, era obviamente à margem da lei, continua o iraniano que vive em Chicago: “Dependia-se frequentemente de serviços adquiridos no mercado negro. Mas também havia a preocupação generalizada de que alguns VPNs pudessem ser controlados ou monitorizados pelas autoridades”.

Atualmente, uma das últimas alternativas dentro do Irão para aceder à internet livre é através do Starlink, a rede de satélites da empresa aeroespacial SpaceX (fundada por Elon Musk) que fornece internet em praticamente todo o mundo. É preciso ter um dispositivo — um terminal de satélite — para se poder conectar. Para o regime iraniano, o Starlink é um grande desafio, e Teerão faz de tudo para evitar que mais pessoas obtenham esta tecnologia.

“Um pequeno número de pessoas usa Starlink, mas o número de dispositivos dentro do Irão é limitado”, assinala Tirdad Kia, esclarecendo que usar o Starlink é “ilegal e comporta riscos significativos”: “Se as autoridades descobrem que uma pessoa está a usá-lo, essa pessoa pode ser acusada de espionagem e de estar a agir contra a segurança nacional. Tem havido relatos de detenções relacionadas com o uso do Starlink”.

Estima-se que cerca de 50 mil terminais do Starlink estejam atualmente em território iraniano, se bem que o regime tenha proibido o uso desses equipamentos em 2025 e tente punir por lei a sua utilização. Ainda assim, estes dispositivos não eram propriamente um grande problema para o Governo antes dos protestos — eram mais ou menos tolerados, tal como o uso de VPNs. Desde os protestos de janeiro, o regime tem convertido a destruição dos terminais numa das suas principais missões.

Muitos iranianos têm acesso aos terminais Starlink através de redes clandestinas que passam por países como os Emirados Árabes Unidos, o Iraque, a Arménia e o Afeganistão antes de chegarem ao Irão. “Têm de ser comprados no mercado negro”, destaca Amir Rashidi. O especialista em cibersegurança frisa que o preço de obter um terminal aumentou substancialmente com o início do conflito. “Antes da guerra, custava cerca de dois mil dólares [cerca de 1.750 euros]. Agora custa cerca de cinco mil euros [cerca de 4.350 euros].”

Contactar as famílias no estrangeiro é indiscutivelmente uma prioridade para muitos iranianos. Ao mesmo tempo, muitos procuram aceder a informação livre que não dependa dos meios de comunicação alinhados com o regime. O panorama mediático no país é fortemente controlado pelo Governo — e praticamente só chegam ao público as notícias que servem os interesses das autoridades, principalmente durante o conflito. Neste contexto, torna‑se praticamente impossível acompanhar de forma independente o que se passa na guerra.

Há algumas alternativas para não ter apenas acesso à “propaganda da televisão estatal”. Alguns iranianos mais corajosos “colocam antenas parabólicas” nos telhados, aponta Tirdad Kia. No entanto, é proibido por lei. “As antenas parabólicas são uma opção, mas representam um grande perigo. Dão nas vistas e quem tem antena parabólica é detido e a antena é destruída”, relata Ashkan Seifi.

Sem acesso a informações independentes e com os canais de comunicação com o exterior cortados — à exceção das chamadas telefónicas —, o Governo do Irão está a isolar os iranianos do mundo. “Normalmente, quando eles querem fazer algo de mal e querem que o mundo não veja, os meios para as pessoas se comunicarem são logo cortados”, lamenta Ashkan Seifi. Agora, no meio de uma guerra, contornar a censura converteu-se numa missão ainda mais difícil.