O homem que Trump escolheu para liderar o principal serviço de contraterrorismo com elogios, em 2025, é também o homem que bateu com a porta levando comentadores conservadores a duvidar da saúde do movimento MAGA. “Não posso, em boa consciência, apoiar a guerra em curso no Irão”, disse o republicano na terça-feira ao sair do cargo. Dois dias depois, esta quinta-feira, chegou a notícia de que está a ser investigado pelo FBI.
A demissão de Joe Kent, até agora diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo dos Estados Unidos, marca um dos momentos mais delicados da Casa Branca. Não apenas por ser a primeira saída de um funcionário de alto nível em rutura direta com a guerra em curso no Médio Oriente, mas também porque revela tensões dentro do universo político que ajudou a eleger Donald Trump como Presidente dos Estados Unidos.
Durante os últimos tempos, Joe Kent foi tudo o que Trump procurou para um alto responsável de segurança: um veterano de combate moldado pela guerra e uma figura influente no movimento America First (e consequentemente no MAGA). A sua nomeação, em julho de 2025, para liderar o Centro Contraterrorismo do país parecia iniciar um ciclo. O militar que passou por algumas das frentes mais duras do pós-11 de Setembro e que perdeu a mulher no combate ao Estado Islâmico, encontrou na política uma continuação da sua missão. Porém, menos de oito meses depois de assumir um cargo tão importante na administração Trump, abandonou-o. Resta saber se continuará na política.
A carta de demissão que Kent tornou pública esta terça-feira foi entendida como uma acusação direta ao Presidente norte-americano, à estratégia militar dos Estados Unidos e, implicitamente, a uma parte significativa do aparelho político e de segurança de Washington. “O Irão não representava qualquer ameaça iminente à nossa nação, e é evidente que iniciámos esta guerra devido à pressão de Israel e do seu poderoso lobby norte-americano”, pode ler-se no documento, partilhado na rede social X.
https://twitter.com/joekent16jan19/status/2033897242986209689
Já depois da sua demissão, numa entrevista na quarta-feira à noite ao famoso comentador conservador Tucker Carlson, Kent afirmou que vários responsáveis com dúvidas sobre os ataques dos Estados Unidos contra o Irão não tiveram oportunidade de expor as suas preocupações a Trump. “Uma boa parte dos principais decisores não teve autorização para expressar a sua opinião ao Presidente”, afirmou, sublinhando que “não houve um debate robusto”.
Os ataques realizados por Washington e Telavive visaram alvos iranianos num contexto de crescente tensão no Médio Oriente. No entanto, segundo Kent, não existiam informações que indicassem uma ameaça iminente por parte do Irão. “Não havia qualquer informação dos serviços que dissesse: ‘No dia X, os iranianos vão lançar um grande ataque surpresa — vão fazer algo como um 11 de Setembro ou Pearl Harbor’. Não havia nada disso”.
Por isso, Kent explicou a Carlson que decidiu demitir-se depois de perceber que as suas preocupações não seriam consideradas: “Sei que este caminho em que estamos não resulta. Não posso fazer parte disto de consciência tranquila”.
Mas, quem é Joe Kent e como chegou a chefe máximo do Centro Nacional de Contraterrorismo norte-americano?
Do Iraque ao contraterrorismo: o salto do ranger e green beret para o trumpismo
Natural do estado do Oregon, Joseph Kent nasceu em 1980, é o mais velho de cinco irmãos e iniciou a sua carreira militar ainda jovem, alistando-se no Exército dos EUA aos 18 anos. Ao longo de duas décadas de serviço, integrou várias unidades de elite, incluindo os Rangers e as Forças Especiais, conhecidas como Green Berets, refere a revista The Atlantic,
Durante esse período, participou em 11 missões de combate, sobretudo no Iraque, no contexto das operações militares norte-americanas no Médio Oriente após os ataques do 11 de setembro de 2001. Pelo seu serviço, recebeu várias condecorações, incluindo seis Bronze Stars, e construiu uma reputação de disponibilidade total para o combate. Num dos seus relatos, dizia ter-se “voluntariado sempre que havia oportunidade de ir para o terreno”.

Após deixar o Exército em 2018, Kent integrou a CIA como oficial paramilitar no Centro de Atividades Especiais, mantendo-se ligado a operações de contraterrorismo. Depois, entrou na esfera política, num percurso que coincidiu com a ascensão de Donald Trump, de quem se tornou aliado.
Essa ligação fê-lo concorrer, por duas vezes, ao Congresso pelo estado de Washington, em 2022 e 2024, sempre com o apoio de Trump. Acabou derrotado nas duas eleições pela democrata Marie Gluesenkamp Perez. Ambas as campanhas ficaram marcadas por forte exposição mediática e por várias controvérsias relacionadas com posições políticas e ligações a figuras da extrema-direita, incluindo contactos com Nick Fuentes e a contratação de um membro do grupo Proud Boys (considerado islamofóbico, misógino e anti-imigração) como consultor. Construiu, também, relações próximas com ativistas ligados a movimentos nacionalistas, tendo posteriormente afirmado rejeitar o racismo e o extremismo.
Durante este período, segundo a CNN, Kent assumiu posições alinhadas com o universo político do movimento MAGA, defendendo ideias consideradas polémicas, como a de que as eleições presidenciais de 2020, nas quais Joe Biden derrotou Trump, foram fraudulentas.
Classificou, também, os envolvidos no ataque ao Capitólio de 6 de janeiro de 2021 como “presos políticos”, sugerindo que agências federais pudessem ter um papel na investigação do ataque, e afirmou que a vacina contra a Covid-19 era uma “terapia genética experimental”.
Em 2025, Kent foi nomeado por Donald Trump para liderar o Centro Nacional de Contraterrorismo, depois de ter desempenhado funções como chefe de gabinete da diretora dos Serviços de Informações, Tulsi Gabbard. A escolha foi aprovada no Senado por 52 votos a favor e 44 contra, com oposição total dos democratas, que apontaram preocupações quanto ao seu historial político e às suas declarações públicas.
https://twitter.com/joekent16jan19/status/1886586312863498270
A nomeação para liderar o Centro Nacional de Contraterrorismo foi vista como um sinal da confiança política de Donald Trump. Aliás, o Presidente norte-americano publicou na altura na sua rede social Truth Social uma mensagem em que elogiava o seu percurso. Este Centro pertence ao Gabinete de Serviços Secretos Nacionais dos Estados Unidos e foi criado após os atentados de 11 de Setembro de 2001 para regular informações sobre terrorismo internacional.
As polémicas: pressão sobre agências, envolvimento no Signalgate e sermão do FBI
Antes e durante o período em funções no Governo norte-americano, Joe Kent esteve envolvido em vários episódios que suscitaram escrutínio político e mediático. Entre eles, destacam-se as alegações do New York Times de que Kent terá pressionado analistas para alterarem relatórios sobre as ligações entre o Governo venezuelano e o grupo de crime organizado Tren de Aragua, de forma a alinhá-las com posições políticas da administração.
https://observador.pt/2025/03/19/tren-de-aragua-tem-origem-sindical-foi-alimentado-pelo-exodo-venezuelano-e-esta-agora-no-centro-das-deportacoes-nos-eua-que-gangue-e-este/
A alegada interferência de Kent levantou preocupações acerca da pressão política sobre agências de informações, pois isso compromete a credibilidade, a independência e a fiabilidade das avaliações de segurança nacional. A situação gerou debates internos sobre a ética do trabalho das agências e a proteção dos analistas frente às interferências externas.
O seu nome foi também associado ao Signalgate, um episódio que envolvia a aplicação Signal onde membros da equipa de Segurança Nacional — e que por engano incluiu o diretor da revista The Atlantic — discutiram os detalhes das operações militares no Iémen em março de 2025, nomeadamente os ataques aéreos contra os rebeldes houthis.
https://observador.pt/2025/03/26/consequencias-podiam-ter-sido-catastroficas-the-atlantic-revela-todas-as-mensagens-de-altos-responsaveis-da-casa-branca-em-chat-de-guerra/
O caso gerou críticas e tornou-se embaraçoso para o Governo norte-americano. Ainda assim, altos responsáveis da administração Trump negaram que tenham sido revelados dados confidenciais.
No ano passado, foi alvo de uma reprimenda do diretor do FBI, Kash Patel, e de outros funcionários de Departamento de Justiça após tentar aceder ao sistema para investigar o homicídio de Charlie Kirk, alegando que existiam indícios de envolvimento de outros países no crime.
Apesar desta suspeita, tanto o Departamento de Justiça como o FBI recusaram autorizar qualquer investigação nesse sentido. As autoridades não permitiram que fossem exploradas possíveis ligações internacionais sobre a morte do ativista político.
https://observador.pt/especiais/duas-detencoes-a-confissao-ao-pai-e-a-denuncia-as-autoridades-as-33-horas-da-caca-ao-homem-do-fbi-que-levaram-a-detencao-de-tyler-robinson/
Agora é o FBI que está a investigar Joe Kent por uma possível fuga de informação confidencial antes de se demitir em rutura com a Casa Branca devido à guerra no Irão. Segundo fontes familiarizadas com o caso, citadas pela imprensa norte-americana, a investigação já estava em curso antes de o ex-diretor do Centro Contraterrorismo ter apresentado a demissão esta semana.
Esta investigação do FBI reabriu um debate antigo: o do uso de investigações federais com fins políticos. São vários os setores que acusam o Departamento de Justiça de perseguir eventuais opositores do Presidente.
Reviravolta: a morte da mulher às mãos do Estado Islâmico
Um dos elementos centrais para compreender o percurso e as posições de Kent sobre os conflitos armados é a morte da sua primeira mulher, Shannon Kent, em janeiro de 2019, na Síria, vítima de um atentado suicida do grupo Estado Islâmico (ISIS, na sigla inglesa).
Shannon Kent era criptóloga da Marinha norte-americana, fluente em várias línguas e com experiência em operações especiais. Morreu no atentado suicida que matou também outros militares e civis. O casal tinha dois filhos e, após este episódio, o republicano passou a expressar publicamente várias críticas à forma como os Estados Unidos fazem intervenções militares noutros países. Chegou mesmo a afirmar que a sua mulher morreu como consequência de decisões políticas erradas que prolongaram a presença militar norte-americana no terreno.
A guerra, que inicialmente surgiu como missão, passou, assim, a ser vista por Kent como erro estratégico. E, mais tarde, como manipulação política. Kent tornou-se um crítico do que descreve, segundo um perfil publicado pela Mother Jones, como uma elite em Washington que “mentiu consistentemente ao povo norte-americano” para manter conflitos no estrangeiro.
Ao longo dos últimos anos, Joe Kent afirmou repetidamente que as guerras no Iraque e no Afeganistão foram erros, questionando os benefícios desses conflitos para os Estados Unidos e defendendo uma política externa mais restritiva, centrada na defesa de interesses internos e na redução do envolvimento em operações militares prolongadas, posição que o aproximou de uma ala do Partido Republicano mais cética em relação a intervenções no estrangeiro.
Durante as audições no Senado, destacou, inclusive, a ameaça dos cartéis latino-americanos para os Estados Unidos, colocando menor ênfase nos conflitos no Médio Oriente.
A carta e as reações da Casa Branca à demissão do “fraco” Kent
Quando os Estados Unidos e Israel lançaram o primeiro ataque contra o Irão, a 28 de fevereiro, Kent viu materializar-se o cenário que sempre rejeitou. Desde o início, considerou que não existia uma ameaça iminente que justificasse a ofensiva militar. Porém, na sua carta de demissão, foi mais longe: recordou que Trump fez campanha com a plataforma America First, alegando que “as guerras no Médio Oriente eram uma armadilha que custou aos Estados Unidos vidas preciosas” dos seus soldados e “a prosperidade” do país.
O ex-diretor do Centro Nacional Contra o Terrorismo acusou também altos responsáveis israelitas de orquestrarem “uma campanha de desinformação” para justificar a ofensiva contra o Irão, “a mesma tática que os israelitas usaram” para arrastar os Estados Unidos para a “desastrosa guerra do Iraque”.

Na entrevista a Tucker Carlson, Kent alegou que a decisão dos Estados Unidos foi fortemente influenciada por Israel. “Foram os israelitas que impulsionaram a decisão de tomar esta ação”, disse, referindo-se ao Governo liderado por Benjamin Netanyahu. Segundo este veterano da guerra, as autoridades israelitas terão pressionado Washington com informações que, alegadamente, não coincidiam com os dados dos serviços de informações norte-americanos. “Sei como isto funciona. Oficiais israelitas dizem todo o tipo de coisas que sabemos, pelo nosso serviço de informações, simplesmente não serem verdadeiras”.
Kent defendeu, ainda, que os interesses estratégicos dos dois países nem sempre coincidem. “A maioria das pessoas no Pentágono e nas agências de informações diria que nós e os israelitas temos objetivos diferentes”, afirmou, sublinhando que “os israelitas não querem apenas uma mudança de regime. Querem derrubar completamente o Governo atual [do Irão]”.
Carta de demissão de Joe Kent
Depois de refletir muito, decidi demitir-me do cargo de Diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo, com efeito a partir de hoje.
Não posso, em boa consciência, apoiar a guerra em curso no Irão. O Irão não representava qualquer ameaça iminente à nossa nação, e é evidente que iniciámos esta guerra devido à pressão de Israel e do seu poderoso lobby norte-americano.
Apoio os valores e as políticas externas com que [Trump] fez campanha em 2016, 2020 e 2024, e que implementou no seu primeiro mandato. Até junho de 2025, [Trump] compreendeu que as guerras no Médio Oriente eram uma armadilha que roubava à América as preciosas vidas dos nossos patriotas e esgotava a riqueza e a prosperidade da nossa nação.
No seu primeiro mandato, compreendeu melhor do que qualquer Presidente moderno como aplicar de forma decisiva o poder militar sem nos envolver em guerras intermináveis. Demonstrou isso ao matar Qasam Solamani e ao derrotar o ISIS.
No início deste mandato, altos funcionários israelitas e membros influentes da comunicação social norte-americana lançaram uma campanha de desinformação que minou totalmente a sua plataforma America First e semeou sentimentos pró-guerra para encorajar uma guerra com o Irão. Esta câmara de eco foi usada para o enganar, levando-o a acreditar que o Irão representava uma ameaça iminente para os Estados Unidos e que, caso atacasse agora, haveria um caminho claro para uma vitória rápida.
Isto era uma mentira e é a mesma tática que os israelitas utilizaram para nos arrastar para a desastrosa guerra do Iraque, que custou à nossa nação a vida de milhares dos nossos melhores homens e mulheres. Não podemos cometer este erro novamente.
Como veterano que foi destacado para o combate 11 vezes e como marido Gold Star que perdeu a sua amada mulher Shannon numa guerra fabricada por Israel, não posso apoiar o envio da próxima geração para lutar e morrer numa guerra que não traz qualquer benefício ao povo norte-americano nem justifica o custo de vidas americanas.
Rezo para que reflita sobre o que estamos a fazer no Irão e para quem estamos a fazê-lo. O momento para agir com coragem é agora. Pode mudar o rumo e traçar um novo caminho para a nossa nação ou pode permitir que deslizemos ainda mais para o declínio e o caos. As cartas estão nas suas mãos.
Foi uma honra servir na sua administração e servir a nossa grande nação.
Joseph Kent
Diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo
O Presidente dos Estados Unidos, que há um ano enaltecia a sua carreira, reagiu à demissão de Joe Kent, dizendo que este é “uma pessoa decente”, mas que sempre o considerou “fraco em matéria de segurança”. Como a CNN sublinha, Trump desmentiu o seu antigo diretor ao referir-se à República Islâmica como “uma ameaça”.
Trump adiantou, também, que é “uma coisa boa ele ter saído, se diz que o Irão não é uma ameaça”, porque a sua administração não quer funcionários que não encarem o Irão como tal. “Não queremos essas pessoas“, sublinhou.
Por seu turno, o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, afirmou esta quarta-feira que o líder norte-americano não deseja uma guerra prolongada com o Irão e apoiou-o nas considerações que fez sobre a demissão do diretor nacional de Contraterrorismo.
“Ninguém gosta de guerra, certo? Garanto que o Presidente [Trump] não está interessado em colocar-nos nos atoleiros de longa duração que temos visto nos últimos anos”, afirmou JD Vance numa visita ao estado de Michigan.
“Independentemente da sua opinião, quando o Presidente dos Estados Unidos toma uma decisão, o seu trabalho é ajudar a torná-la o mais eficaz e bem-sucedida possível”, comentou o vice-presidente, que se tem afirmado cético em relação a guerras prolongadas mas favorável ao uso das armas em casos pontuais em que interesses vitais dos EUA estejam em causa.

Já a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, apoiou as declarações do líder norte-americano, afirmando, na rede social X, que a carta de Kent contém “muitas alegações falsas” e contestando o argumento de que o Irão não representava uma ameaça iminente, sendo “a mesma alegação falsa que os democratas e alguns meios de comunicação liberais têm vindo a repetir incessantemente”.
https://twitter.com/PressSec/status/2033932810709315865
“Tal como o Presidente Trump afirmou de forma clara e explícita, ele dispunha de provas sólidas e convincentes de que o Irão iria atacar os Estados Unidos primeiro. Estas provas foram compiladas a partir de várias fontes. O Presidente Trump nunca tomaria a decisão de mobilizar recursos militares contra um adversário estrangeiro sem ter uma base sólida” para atuar, afirmou, apesar de, nos primeiros dias da guerra, os serviços secretos terem admitido a alguns membros do Congresso de que não disponham de provas que sustentassem a ideia de que o Irão iria atacar. E Tulsi Gabbard, a diretora dos Serviços de Informação disse esta semana na comissão de inquérito que está a decorrer no Congresso que o Irão não retomou o programa nuclear.
https://observador.pt/2026/03/18/servicos-de-informacoes-dos-eua-dizem-que-irao-nao-retomou-programa-nuclear/
Leavitt caracterizou, ainda, a alegação de que Trump agiu contra o Irão sob a influência de Israel como uma ideia “tão insultuosa quanto ridícula”.
Além da porta-voz da Casa Branca, também o presidente republicano da Câmara dos Representantes, Mike Johnson, discordou publicamente de Joe Kent. “Recebi todos os relatórios. Todos compreendemos que havia claramente uma ameaça iminente, que o Irão estava muito perto de alcançar a capacidade de enriquecimento nuclear e que estava a construir mísseis a um ritmo que ninguém na região conseguia acompanhar”, afirmou em conferência de imprensa, citado pela Associated Press.
A demissão de Kent pode mudar/ influenciar as decisões de Trump em relação ao Irão?
Apesar deste cerrar de fileiras em torno do apoio à guerra com o Irão, permanecem dúvidas quanto à estabilidade da administração Trump nesta matéria, visto que JD Vance — que se viu obrigado a reforçar o seu apoio a este conflito — e Tulsi Gabbard — que tem sido cautelosa nas suas afirmações — são céticos em relação a compromissos militares no estrangeiro, defendendo frequentemente uma política externa mais moderada, noticiou o NYT.
Prova disso é que Joe Kent, sendo um veterano de combate das forças especiais e tendo ligações a extremistas de direita, era considerado o mais leal que Trump poderia ter no cargo mais alto do Governo em matéria de contraterrorismo.
De acordo com Paul Quirk, professor de Ciência Política na University of British Columbia, a saída de Kent evidencia como as decisões de Trump podem contrariar os conselhos de especialistas militares, serviços de informações e diplomatas dentro do próprio Governo.
Ainda assim, Quirk mostra-se cético quanto à influência direta desta demissão nas decisões do Presidente dos Estados Unidos. “Normalmente, uma demissão de alto nível, juntamente com uma contradição explícita da justificação do Presidente para uma decisão importante, seria um grande golpe para o Presidente e para a sua administração”, disse Quirk à Al Jazeera.
No entanto, neste caso, a demissão surge num contexto de críticas já intensas à atuação dos EUA no Irão. Para Quirk, a posição de Kent vem reforçar um vasto conjunto de dúvidas sobre os motivos que levaram à intervenção militar.
“A demissão de Kent é apenas mais um elemento substancial para juntar à montanha de provas de que a justificação de Trump para atacar o Irão era fictícia e que a guerra foi lançada de forma imprudente, sem planeamento”, explicou o académico.
Apesar disso, o especialista em Ciência Política admite que a demissão poderá vir a ter um impacto relevante, funcionando como “a gota de água” que pode enfraquecer o apoio político à estratégia de Trump.
Se, publicamente, o partido Republicano se mostra coeso quanto à guerra no Irão, o mesmo não se pode dizer de alguns comentadores da órbita America First, nota o The Independent. Para além de Tucson, Candace Owens, Tim Dillon ou Shawn Ryan sublinharam a coragem de Kent e alguns frisaram a fratura que o Irão abriu dentro do movimento MAGA.