Ruth Asawa tinha 16 anos quando a família deixou a casa a cerca de 30 quilómetros de Los Angeles e foi forçada a deslocar-se para um campo de concentração para americanos de ascendência japonesa no deserto californiano, durante a II Guerra Mundial.
Foi apenas um dos muitos obstáculos que marcaram o percurso artístico da artista norte-americana Ruth Asawa (1926-2013). Adulta, dividiria o tempo entre a criação artística e a maternidade de seis filhos, numa América em que ser mulher e filha de imigrantes continuava a limitar oportunidades, inclusive no acesso ao ensino universitário. Ainda assim, persistiu. Entre exigências domésticas, preconceitos e invisibilidade institucional, construiu uma obra original, delicada e rigorosa, que durante décadas permaneceu à margem do reconhecimento dominante — suspensa, como as esculturas pelas quais é mais conhecida. Hoje é vista como uma das vozes mais inventivas da escultura do século XX: uma criadora de formas etéreas, tecidas contra a adversidade.


Asawa, que morreu em 2013 aos 87 anos, é o centro de uma grande retrospetiva no museu Guggenheim Bilbao, no País Basco, que inaugura esta quinta-feira e ali fica patente até 13 de setembro. Ruth Asawa: Retrospective reposiciona a artista como uma das figuras mais singulares da arte do pós-guerra. Ignorada pelo establishment artístico durante grande parte da sua vida, Asawa alcança o reconhecimento à altura da sua obra impulsionado por uma revisão crítica da história da arte que nos últimos anos tem feito por corrigir as omissões.
“Um artista não é especial. Um artista é uma pessoa comum capaz de transformar coisas comuns em algo especial.” A frase que Asawa terá dito um dia abre o catálogo que acompanha a exposição e resume a essência do trabalho de Ruth Asawa. Nas fotografias, vemo-la quase sempre na sala de estar da sua casa, no bairro de Noe Valley, em São Francisco, para onde se mudou em 1949. Está sentada no chão, de pernas cruzadas, com bobines de arame industrial barato por perto. A partir desse elemento banal, adquirido em lojas de ferragens comuns, construía, pacientemente, estruturas ondulantes, quase orgânicas, que suspendia no espaço. As formas translúcidas e contornos em espiral parecem hipnotizar quem percorre as várias salas do museu basco. Depois de se mostrar no MoMA de Nova Iorque e no Museu de Arte de São Francisco (SFMOMA) — coorganizadores juntamente com o Guggenheim — a mostra seguirá para a Fundação Beyeler, em Basileia, Suíça.


Mas a história de Asawa começa longe dos museus que agora ocupa. Nascida em 1926, na Califórnia, filha de imigrantes japoneses, a artista viu a sua adolescência brutalmente interrompida com a ida para o campo de detenção com os pais. Paradoxalmente, foi também durante esse período que teve contacto com aulas de arte, organizadas dentro dos próprios campos — três animadores da Disney, entre eles um cartoonista e um pintor de cenários, também detidos, deram-lhe aulas. “Comecei a desenhar a partir da realidade pela primeira vez. Proporções, mãos, pés, etc… Foi a primeira vez na minha vida que a arte não era algo extra para fazer, mas o principal objeto”, recorda a artista, citada no catálogo. “Desenhar com artistas profissionais livrou-me da amargura que permeava o campo.”
Esse episódio, profundamente traumático, nunca foi totalmente verbalizado na sua obra, mas permanece como uma presença latente. “A minha avó veio de uma casa de um só compartimento numa quinta no sul da Califórnia e foi encarcerada aos 16 anos por causa da sua ascendência japonesa”, sublinha o neto, Henry Weverka, 37 anos, numa conversa com alguns jornalistas portugueses. “Durante anos, foi desvalorizada por ser mulher e uma artista não branca.”
Uma linguagem feita de coisas simples
Após a guerra, Asawa ingressou na Black Mountain College, um caso excecional na história da criação artística, que promoveu o ensino experimental e a vida em comunidade numa geografia isolada na Carolina do Norte. Estudou dança, gravura, pintura, design e serigrafia. Foi aluna de Merce Cunningham e de Joseph Albers, seu mentor, que lhe ensinou “a ver”. Devido ao racismo antijaponês, foi-lhe negado um diploma universitário para lecionar arte. Mas ali consolidou uma ideia que marcaria toda a sua prática: a de que qualquer material, por mais banal que fosse, podia tornar-se extraordinário.
Essa filosofia encontra a sua expressão mais icónica nas esculturas de arame. Transformava rolos de arame industrial em formas suspensas de uma leveza inesperada. Laço após laço, construía volumes translúcidos que parecem crescer organicamente no espaço, como organismos vivos, como sementes em expansão. Uma imagem com os filhos (seis) mostra como todos trabalham o material, juntos. Para a curadora Geannine Gutiérrez-Guimarães, do Guggenheim de Bilbau, que colabora na curadoria da exposição com Janet Bishop, do SFMOMA, e Cara Manes, do MoMA, esta relação com o material é central: “Vemos como ela trabalha com materiais disponíveis, elementos naturais, industriais, comuns, algo que atravessa toda a sua carreira.”

Ao contrário de muitos artistas da sua geração, Asawa nunca separou radicalmente a vida doméstica da prática artística. Após a revogação das leis que proibiam os casamentos inter-raciais nos Estados Unidos, casou-se com Albert Lanier, um arquiteto que conhecera na Black Mountain, com quem teve seis filhos. Da casa fez sempre um espaço de criação contínua e, para o neto, essa convivência era natural: “Muitas destas esculturas estavam penduradas acima da minha cabeça quando eu era criança. Eram parte do ambiente”. Essa fusão entre arte e quotidiano estendia-se também à comunidade. Asawa trabalhou com escolas, desenvolveu projetos educativos e envolveu crianças e vizinhos nos seus processos criativos — desde impressões com batatas até moldes em gesso feitos à mesa da cozinha. Um precioso vídeo de 10 minutos no qual Asawa interage com crianças pode ser visto à entrada da exposição.
“Ela podia olhar para alguém e dizer: ‘Tens um rosto interessante, posso fazer um molde?’”, recorda Weverka. “E ali mesmo, na cozinha, transformava isso em arte.” Apesar da originalidade da sua obra, o reconhecimento institucional foi irregular e, muitas vezes, inexistente. “Ela não foi muito bem-sucedida comercialmente durante a vida”, admite o neto. Em certos momentos, galerias recusaram mesmo expor o seu trabalho bidimensional, reduzindo-a à categoria de escultora — ou pior, descartando-a como “dona de casa” ou “dona de casa oriental”, explicita. Isso fez com que durante anos fosse desconhecido o seu corpo de trabalho de desenhos e litografias, que agora se revela em todo o seu esplendor.


Aliás, terá sido essa rejeição, esse afastamento forçado do circuito comercial, que levou a artista a dedicar-se mais à educação artística e ao trabalho comunitário. Segundo a curadora, este apagamento não é excecional: “Isto aplica-se a muitas mulheres artistas. Durante décadas, a narrativa da história da arte foi centrada em homens e numa perspetiva eurocêntrica.” Para os curadores, este reconhecimento tardio faz parte de um movimento mais amplo de revisão da história da arte — que procura integrar artistas que ficaram à margem por razões de género, origem ou contexto social.
A retrospetiva em Bilbau reúne cerca de 250 obras, cobrindo o período entre 1947 e 2006. Mais do que uma sucessão cronológica, propõe uma leitura abrangente de uma prática multifacetada: escultura, desenho, pintura, gravura, obra pública e projetos educativos. “É uma grande viagem pela produção da artista”, explica Gutiérrez-Guimarães. “E permite perceber como ela liga arte, comunidade e educação.”
Entre as peças mais emblemáticas estão, claro, as esculturas suspensas em arame — formas ondulantes que exploram ideias de repetição, transparência, luz e sombra. Mas o percurso das galerias revela também uma produção menos conhecida: desenhos florais minuciosos, trabalhos em papel, experiências com materiais orgânicos. Muitos desses desenhos só foram descobertos tardiamente, quando os filhos começaram a organizar o espólio da artista, já nos anos 2000.

Mais do que uma obra, Asawa deixou uma forma de olhar o mundo. “Acho que o maior legado dela é ter-me ensinado”, diz Henry Weverka. “A ver o mundo, a tratar as pessoas.”
Weverka, que também é presidente da Ruth Asawa Lanier, dedica-se a gerir o património da avó. Não esconde o sorriso quando revela que comprou a antiga casa da família e cuida do jardim que inspirou muitos dos desenhos que vemos nas paredes. Ao observar essas flores — as mesmas que a avó desenhava com rigor e paciência —, reconhece nelas o mesmo princípio que orientou toda a vida da artista: o de que a criação é um processo contínuo e profundamente ligado ao quotidiano.

“Quando olho para os desenhos de flores, vejo o amor e o cuidado que estavam por trás deles”, conta. “O meu avô cultivava as flores, oferecia-as à minha avó, e ela desenhava-as e devolvia-lhas. Era um ciclo.” Nesse gesto simples revela-se uma ética de atenção e reciprocidade, que atravessa toda a sua obra. “Sinto-me a pessoa mais sortuda do mundo”, acrescenta. “Ela, de certa forma, moldou a forma como vejo o mundo.”
Mas essa herança não é apenas afetiva. É também política. Num momento em que os Estados Unidos voltam a endurecer o discurso e as políticas em relação a imigrantes, a história de Asawa ressoa com a atualidade. Filha de imigrantes, detida no país onde nasceu, a sua vida lembra até que ponto o medo pode ser institucionalizado. “Certamente, tendo em conta o passado da minha avó, que foi presa devido à sua etnia e discriminada de tantas formas durante tanto tempo, é triste ver isso a acontecer outra vez”, diz o neto. “Espero que as pessoas que conhecem a história da minha avó consigam [reconhecer esses padrões].”

Rejeitada por ser “dona de casa”, por ser mulher, por não encaixar nos modelos dominantes, pôde experimentar sem constrangimentos, acredita, cruzando técnicas, materiais e escalas. Enquanto criava esculturas monumentais feitas de milhares de laços de arame, também imprimia padrões com batatas ao lado dos filhos, moldava mãos e rostos de familiares, transformava a mesa da cozinha num espaço de experimentação artística. Essa dimensão comunitária, quase radical na sua simplicidade, é hoje uma das chaves para compreender a sua obra.
Talvez por isso o seu trabalho fale tão diretamente ao presente. Mais do que uma artista redescoberta, Ruth Asawa surge como uma figura necessária. Alguém que, a partir de materiais frágeis e de uma vida atravessada por exclusão, construiu uma linguagem de resistência. Uma linguagem que, como os seus desenhos de flores, continua a florescer.
O Observador viajou a Bilbau a convite do Museu Guggenheim Bilbao