(c) 2023 am|dev

(A) :: Em junho ou até mais cedo, em abril. BCE admite voltar às subidas de juros por causa da guerra no Irão

Em junho ou até mais cedo, em abril. BCE admite voltar às subidas de juros por causa da guerra no Irão

Mercados estão a prever duas subidas até ao final do ano, para 2,5%. BCE dá a entender que, no cenário-base, talvez não seja preciso subir. Mas em cenários mais adversos inflação pode ultrapassar 4%.

Edgar Caetano
text

O BCE poderá voltar às subidas da taxa de juro em junho para evitar uma repetição da história vivida em 2022, quando a invasão russa da Ucrânia alimentou o pior surto inflacionista da história da zona euro. Após a conferência de imprensa de Christine Lagarde, nesta quinta-feira, várias fontes do Conselho do BCE disseram a agências como a Reuters e a Bloomberg que, se a guerra no Médio Oriente continuar a agitar os mercados energéticos, será inevitável que a política monetária tenha de ser “apertada”, com juros mais elevados. E esse cenário pode começar a ser preparado já nas próximas semanas.

A presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, manteve as cartas próximas do peito quando foi desafiada pelos jornalistas a explicar, na conferência de imprensa, o que levaria a autoridade monetária a tomar uma decisão que, ainda há poucas semanas, parecia bem mais longínqua: uma subida das taxas de juro. Essas fontes (anónimas) de dentro do BCE disseram que talvez abril seja “demasiado cedo” para uma subida, mas “junho é uma hipótese mais provável” – embora “o debate sobre a subida dos juros, mesmo que ela só seja decidida em junho, tenha de começar já” na próxima reunião do BCE, marcada para 30 de abril.

Com a inflação próxima dos 2%, expectativas futuras sob controlo e uma taxa de juro que estava (e está), ela própria, nos 2%, o BCE passou os últimos meses num “bom lugar” – expressão de Lagarde. Parecia, aliás, um tempo tão sereno que até saíram notícias de que aquela era a altura ideal para Lagarde anunciar uma saída prematura do cargo, para assegurar que ainda seria Emmanuel Macron a influenciar a escolha de um novo presidente para o banco central.

Bastou, porém, as bombas começarem a cair no Médio Oriente para silenciar esses rumores e acabar com o “bom lugar” em que o BCE dizia estar. Nesta quinta-feira, a autoridade monetária da zona euro decidiu manter a taxa de juro de referência inalterada em 2% – decisão tomada de forma “unânime” numa reunião de política monetária durante a qual outro banco central, o britânico, indicou estar “pronto para agir”, subindo os juros “quanto for necessário” para combater as pressões inflacionistas geradas pela guerra no Médio Oriente.

A agressividade dos comentários do Banco de Inglaterra fez com que, antes da conferência de imprensa de Lagarde, os mercados financeiros tenham estado, por contágio, a prever que o BCE poderia subir as taxas de juro três vezes até ao final do ano. Essa expectativa alterou-se, porém, quando a francesa começou a falar – os mercados de futuros de taxas de juro voltaram ao cenário que estavam a prever nos últimos dias: duas subidas, num total de meio ponto percentual, até ao final de 2026.

Esse é, aliás, o enquadramento que tem levado, nos últimos dias, as taxas Euribor – os indexantes usados para calcular as prestações da maioria dos portugueses com empréstimos à habitação – a subirem para os níveis mais elevados em cerca de um ano. Nesta fase, “o mercado está a prever, pelo menos, uma subida até julho e outra até dezembro, o que faz com que tenhamos a Euribor a 12 meses acima de 2,5%”, aponta Filipe Garcia, economista do IMF – Informação de Mercados Financeiros.

Recessão e inflação de 4,4%? O “cenário-base” e os outros dois

Esta reunião do BCE contou com a publicação de novas projeções da equipa de economistas do banco central, feitas a partir de dados económicos que existiam até 11 de março, a quarta-feira da semana passada. Habitualmente, as previsões do BCE usam uma data de cut off [data limite] mais distante do dia em que são divulgadas, ou seja, desta vez os economistas fizeram um esforço por esperar mais alguns dias do que o habitual, para incluírem dados mais atualizados, reduzindo o tempo disponível para trabalhar sobre esses mesmos dados.

Lagarde reconheceu e agradeceu esse esforço “excecional”, que obrigou os economistas a trabalharem aos fins de semana e até altas horas da noite. Porém, mesmo com esse esforço, as fontes do BCE disseram à Bloomberg e à Reuters que os números do chamado “cenário-base” já estão “desatualizados”, tendo em conta que os preços da energia, por exemplo, continuaram a disparar nos últimos dias.

Nesse “cenário-base”, a inflação geral deverá atingir uma média de 2,6% em 2026, 2,0% em 2027 e 2,1% em 2028, o que já representa uma revisão em alta em comparação com as projeções de dezembro, especialmente para 2026, “devido ao aumento dos preços da energia em resultado da guerra no Médio Oriente”, afirmou o BCE. Porém, nesse cenário, ficou implícito nas palavras de Lagarde que talvez o BCE pudesse passar sem subir os juros – tendo em conta que a inflação não subiria demasiado em 2026 (ficando-se pelos 2,6%) e voltaria aos 2% logo em 2027.

"Eu concordo que, no cenário base, eles provavelmente não iriam subir as taxas de juro. Eles já estão a reconhecer que o cenário base já está desatualizado e, portanto, agora estão a olhar para o cenário adverso ou o severo (ou algo entre estes dois), o que faz com que seja provável que venha, mesmo, a haver subidas da taxa de juro."
Andrew Kenningham, economista-chefe para a Europa do Capital Economics

O problema é que esse cenário-base apontado a 11 de março, o tal dia do cut off dos dados utilizados pelos economistas, já não tem grande validade. E, por isso, ganharam mais importância os outros dois cenários mais gravosos que foram simulados pelos economistas do BCE, pressupondo uma continuação do conflito armado e a instabilidade nos mercados financeiros e energéticos – exatamente aquilo que está a acontecer.

Além do cenário-base, o BCE simulou um “cenário adverso” e um “cenário severo“: no primeiro, a taxa de inflação pode atingir os 3,5% este ano (e não baixar, tão rapidamente, no próximo ano) e no segundo, o pior de todos, ela pode atingir os 4,4% – ao mesmo tempo que a economia da zona euro entra em recessão técnica no verão.

“Eu concordo que, no cenário-base, eles provavelmente não iriam subir as taxas de juro”, afirma Andrew Kenningham, economista-chefe para a Europa da Capital Economics, em perguntas enviadas pelo Observador. Porém, diz o especialista, “eles já estão a reconhecer que o cenário-base está desatualizado e, portanto, agora estão a olhar para o cenário adverso ou o severo (ou algo entre estes dois), o que faz com que seja provável que venha, mesmo, a haver subidas dos juros“.

Estes cenários – mais ou menos gravosos – vão tornar-se mais realistas à medida que o conflito se arrasta e os preços do petróleo e do gás continuam em valores anormalmente elevados.

Por isso, diz Andrew Kenningham, “um aumento das tarifas em abril, ou mais provavelmente em junho, é muito provável se os preços da energia se mantiverem nos níveis atuais ou acima destes – o que também parece bastante provável”. A este respeito, Vincent Mortier, responsável de investimentos da Amundi, uma das maiores gestoras de fundos do mundo, salientou nesta quinta-feira que aquilo que os mercados financeiros estão a prever, nesta fase, é que o conflito possa arrastar-se por vários meses.

A conferência mais curta do que o habitual (Lagarde tinha de ir apanhar o avião)

Lagarde, que fez uma conferência de imprensa mais curta do que o habitual, porque tinha de apanhar um avião para Bruxelas, não foi confrontada pelos jornalistas com estes números porque só foram divulgados depois. Mas o próprio BCE reconhece que, nesses enquadramentos mais gravosos, “especialmente no cenário severo, as subidas na inflação já seriam parcialmente limitadas por uma política monetária mais apertada”.

Ou seja, a possibilidade de aumento da taxa de juro é mesmo real – e, embora Lagarde tenha evitado dizê-lo em viva voz, isso está escrito, preto no branco, no documento que o BCE divulgou minutos depois do fim da conferência de imprensa.

Filipe Garcia, do IMF, diz que a francesa “tentou ancorar as expectativas de inflação, dando a entender que a subida de preços será temporária e não se transmitirá significativamente dos preços da energia para o resto da economia”. No entanto, diz o especialista, Lagarde “não conseguiu disfarçar a excecionalidade do momento, o que se notou no tom de voz e na urgência com que foi necessário refazer os cenários de previsão”.

“Ou seja, não foi uma conferência de imprensa como as outras, sentiu-se a preocupação e a incerteza“, afirma Filipe Garcia, acrescentando que “o BCE sabe que se trata de um fator exógeno, mas também que recai sobre si a responsabilidade de não permitir a subida da inflação”. Foi isso que aconteceu em 2022: a autoridade monetária foi lenta a reconhecer a forma como a subida dos preços da energia era capaz de contagiar as expectativas de inflação em toda a economia.

https://observador.pt/especiais/juros-novamente-a-subir-guerra-no-medio-oriente-pode-elevar-inflacao-para-os-3-e-deixar-o-bce-num-dilema/

Agora, a própria Christine Lagarde sublinha que a situação é diferente. Bem antes da guerra na Ucrânia, já era facilmente discernível um ímpeto inflacionista nas economias desenvolvidas, à conta dos níveis baixos da taxa de juro que havia na altura (-0,5% na zona euro, um valor negativo) e das perturbações que existiram à saída da pandemia de Covid-19, em parte relacionadas com os estímulos lançados pelos Estados.

Desta vez, é diferente. As taxas de juro estão num nível mais “neutro” e não existe tanta pressão dos estímulos públicos – porém, há um outro fator que, reconheceu Lagarde, pode funcionar em sentido contrário: a “memória fresca” do recente surto inflacionista poderá contribuir para que as expectativas de inflação se alastrem e se enraizem mais rapidamente entre os agentes económicos.