É uma enorme raridade e uma coincidência que não se via desde finais de 2021. Na mesma semana, todos os quatro mais poderosos bancos centrais do mundo tiveram as suas reuniões de política monetária – num momento em que todos eles, subitamente, viram a guerra no Irão abalar a relativa tranquilidade que estavam a viver. A exceção é o líder da Fed, que há muitos meses tem visto a sua tranquilidade perturbada pelos insultos de Trump. Mas até esse responsável, Jay Powell, admitiu que a “incerteza” é tanta que, se pudesse ser dispensado de fazer as habituais previsões económicas numa reunião da Fed, teria sido precisamente nesta.
A guerra no Médio Oriente, que não tem fim à vista, está a desestabilizar os mercados energéticos e, por consequência, os mercados acionistas. Desde a sexta-feira véspera do início do conflito, dia 27 de fevereiro, o índice de ações europeias Stoxx 600 derrapou quase 8% – e só não caiu mais porque o sub-índice das “gigantes” petrolíferas (Oil & Gas) saltou 13% à boleia da forte subida dos preços do petróleo e do gás natural.
Como é comum em momentos de tensão nos mercados financeiros, os olhos estão a virar-se para os bancos centrais, por serem eles que controlam a decisiva alavanca monetária – são, por isso, aqueles cuja ação pode ter um impacto mais direto no atenuar das consequências de “grandes choques” (expressão usada por Christine Lagarde) como aquele que estamos a viver.
Os bancos centrais têm, por outro lado, a responsabilidade de evitar que a sua intervenção alimente desequilíbrios que podem agravar ainda mais o problema – como, por exemplo, alimentar (ou não atacar a tempo) espirais inflacionistas que, quando se formam, acabam por ter de ser combatidas, mais tarde, com medidas mais duras para todos.

Um de cada vez, os principais bancos centrais do mundo – a Reserva Federal dos EUA (Fed), o Banco do Japão, o Banco de Inglaterra e o Banco Central Europeu (BCE) – vieram a público revelar aquilo que podem sobre a sua estratégia para lidar com este “grande choque” económico que pode estar a formar-se.
As abordagens foram diferentes, porque o grau de exposição de cada economia também é diferente – mas todos deixaram no ar, de forma mais ou menos confessa, a ideia de que esta guerra no Médio Oriente está a deixá-los à nora.

Reserva Federal dos EUA. Powell, se pudesse, não teria feito previsões
Apesar de todos estes quatro bancos centrais terem um funcionamento semelhante, têm pequenas particularidades que os tornam diferentes uns dos outros.
No caso da Reserva Federal norte-americana (Fed), cada membro do conselho que decide sobre a política monetária tem de fazer (e publicar) um conjunto de previsões macroeconómicas – em áreas como a inflação e o crescimento – que, depois de serem compiladas durante a reunião, formam um gráfico com “bolinhas” que permite perceber qual é a sensibilidade geral sobre a direção para a qual caminha a economia.
Esse gráfico de “bolinhas” é conhecido por dot plot e é a imagem para a qual olham, imediatamente, os especialistas que querem obter pistas sobre as futuras decisões do banco central mais influente do mundo. O nome oficial é Summary of Economic Projections (SEP), por ser ali que estão plasmadas, de forma sumária, as projeções de cada membro do conselho – sendo que vários desses membros são representantes das divisões regionais da Fed, por isso têm um conhecimento detalhado sobre a dinâmica económica que existe em cada parte dos EUA.
Ora, na conferência de imprensa de Jerome (Jay) Powell foi o próprio presidente da Fed a reconhecer que “se houvesse hipótese de ‘saltar’ uma edição do SEP, esta teria sido uma boa ocasião para isso, porque simplesmente não sabemos” o que vai acontecer.
Na verdade, como o próprio Powell recordou logo de seguida, houve, há poucos anos, uma reunião do banco central, durante a pandemia, em que, de facto, não houve divulgação de previsões económicas. Foi no encontro de 17-18 de março de 2020, que acabou por ser cancelada depois de a Fed ter feito uma reunião extraordinária a 15 de março. Tudo isso aconteceu no início dos confinamentos pandémicos, numa fase em que o grau de turbulência era, apesar de tudo, maior do que o momento atual.
https://observador.pt/2026/03/18/eua-reserva-federal-mantem-taxas-de-juro-inalteradas-entre-riscos-de-inflacao-e-mercado-de-trabalho-mais-fragil/
Em termos concretos, a Fed decidiu na quarta-feira, como se esperava, manter as taxas de juro inalteradas, numa fase em que a inflação ameaça subir (ainda mais) e o mercado de trabalho dá alguns sinais de fraqueza difíceis de interpretar.
No curto prazo, os preços da energia mais elevados irão empurrar para cima a inflação global. Mas é cedo demais para perceber a abrangência e a duração dos possíveis efeitos”, afirmou Jay Powell.
A taxa de juro de referência manteve-se no intervalo entre 3,50% e 3,75% e os analistas antecipam, apenas, uma descida dos juros até ao final do ano. Essa foi, também, a expectativa manifestada na quarta-feira pelo comité da Fed que decide sobre taxas de juro, o FOMC (Comité Federal de Operações no Mercado Aberto).
Porém, no dia após a reunião da Fed, os analistas ficaram um pouco divididos sobre se esse corte da taxa de juro (em 2026) irá mesmo acontecer – algo irónico porque é precisamente a guerra lançada por Donald Trump que poderá inviabilizar as descidas da taxa de juro que o Presidente dos EUA exige há vários meses.
Se os juros nos EUA vão ou não descer, ao longo deste ano, já não será, provavelmente, uma decisão que Jay Powell terá de tomar – porque irá ser substituído, em princípio em maio, pelo novo presidente da Fed que Donald Trump nomeou. Se essa nomeação for confirmada pelo Senado, o novo rosto do banco central mais poderoso do mundo será Kevin Warsh, alguém que, tal como Powell, é um republicano – mas que pensa pela própria cabeça.
https://observador.pt/especiais/reserva-federal-mesmo-escaldado-com-powell-trump-volta-a-nomear-um-republicano-que-pensa-pela-propria-cabeca-kevin-warsh/

Japão, muito dependente do Estreito de Ormuz, tenta “comprar tempo”
Poucas horas depois de terminar a conferência de imprensa de Jay Powell, foi a vez de ouvir Kazuo Ueda, o presidente do Banco do Japão. Tal como os outros bancos centrais, também no Japão se optou por não mexer nas taxas de juro para já – estas continuaram em 0,75% e só houve um membro do conselho que votou para um aumento da taxa para 1%.
A diferença é que, se os EUA são auto-suficientes em termos energéticos, o Japão depende em mais de 90% do Médio Oriente para o crude e é muito vulnerável a perturbações no Estreito de Ormuz, que tem estado praticamente bloqueado desde o início do conflito.
O governo nipónico tem procurado tomar medidas no sentido de diversificar as fontes de petróleo – e a visita da primeira-ministra, Sanae Takaichi, a Washington estará relacionada com a intenção, já confirmada pela responsável, de vir a armazenar petróleo norte-americano no país.
Essas são, porém, soluções que, mesmo que sejam produtivas, levam o seu tempo. E o Banco do Japão procurou, nesta reunião, “comprar” esse tempo, transmitindo uma mensagem de monitorização atenta mas sem arriscar uma ação concreta, para já.
No comunicado, o Banco do Japão não transformou o conflito no eixo central da decisão mas, na conferência de imprensa, Kazuo Ueda deixou claro que o banco está a acompanhar de perto o choque energético e a volatilidade de mercado. O receio manifestado pelo responsável é que, embora os preços da energia sejam uma variável exógena que não afeta (diretamente) o ritmo de subida de preços (a chamada inflação subjacente), poderão, no entanto, acabar por contagiar a economia como um todo.
“A prática comum [na política monetária] passa por ignorar impactos como estes, quando são choques temporários do lado da oferta”, afirmou o responsável. Porém, acautelou, “não é claro se [este] choque será temporário, o que torna difícil prever o impacto na inflação subjacente”.
Apesar do dissidente que votou pela subida dos juros, para conter esse possível risco de contágio à inflação subjacente, o conselho decidiu, por ampla maioria, esperar mais um pouco e adiar uma decisão para o próximo mês (abril), quando forem divulgadas projeções macroeconómicas atualizadas.
Neste momento, salientam os economistas do BPI, “o mercado está a descontar um aumento da taxa de juro na próxima reunião, em abril, e outro no último trimestre deste ano”. Ainda assim, vários analistas acreditam que pode haver um pequeno adiamento desse segundo aumento, para o início de 2027, acrescentam os economistas do banco português em nota de análise.

Banco de Inglaterra, o mais agressivo, só lhe faltou subir mesmo os juros
Sem paninhos quentes, o Banco de Inglaterra foi, de longe, o mais agressivo na reação pública às pressões inflacionistas que irão, inevitavelmente, surgir na economia britânica com o aumento dos preços da energia.
A reação foi tão intensa que até contagiou a perceção dos investidores sobre os outros bancos centrais: levou a que, por momentos, os mercados tenham passado a prever que o BCE podia subir os juros três vezes, não apenas duas, e que a Fed pudesse não descer os juros, de todo, este ano.
Todos os responsáveis do banco central “estão a postos para agir” caso seja necessário para conter a inflação, garantiu-se nesta quinta-feira, dia em que o Banco de Inglaterra manteve as taxas de juro inalteradas mas deixou muito claro que é provável que estas venham a ser aumentadas nos próximos meses.
“Aconteça aquilo que acontecer, a nossa missão é garantir que a inflação regressa aos 2%“, afirmou Andrew Bailey, presidente do Banco de Inglaterra, numa declaração que levou os mercados de taxas de juro a anteciparem, de forma bastante conclusiva, que as taxas de juro no Reino Unido, atualmente em 3,75%, irão subir 75 pontos-base até ao final do ano (isto é, provavelmente três subidas de 25 pontos-base), para os 4,50%.
Na conferência de imprensa, Andrew Bailey, o governador do Banco de Inglaterra, pediu aos mercados financeiros que “não se precipitem” ao anteciparem subidas iminentes nos juros. Para já, “a decisão correta a tomar é manter os juros inalterados“, mas ficou claro que Bailey não quer ser visto como complacente perante os riscos de a inflação acelerar para níveis superiores aos atuais 3%.
Tal como os outros principais bancos centrais, a meta da política monetária é uma taxa de inflação de 2% – e qualquer desvio superior a um ponto percentual (para baixo ou para cima) obriga o governador do Banco de Inglaterra a escrever uma carta formal ao ministro das Finanças a explicar porque é que isso está a acontecer e dizer o que planeia fazer para corrigir essa situação.
No Reino Unido, um fator que pode atenuar o impacto no curto prazo dos preços da energia sobre a inflação é o teto trimestral de preços do gás e da eletricidade para habitações (o chamado Ofgem price cap). No entanto, como sublinham os economistas do BPI, “a forma como essa política é implementada não mitigará os picos no médio prazo“.
No que diz respeito à atividade económica, “a declaração [do Banco de Inglaterra] destacou a fragilidade do mercado de trabalho e como o choque energético pode enfraquecê-lo ainda mais“. Contudo, acrescenta o BPI, mesmo nesse contexto o Banco de Inglaterra sublinhou que “os riscos para a taxa de juro do Banco da Inglaterra estão enviesados para cima” – ou seja, os juros podem subir até mais do que três vezes.

Banco Central Europeu chamou um especialista militar para dar “aula” aos governadores
Não há notícia de que, durante a pandemia de Covid-19, o Banco Central Europeu (BCE) tenha chamado epidemiologistas ou especialistas em saúde pública para dar uma “aula” aos membros do conselho que decide as taxas de juro na zona euro. Se isso aconteceu, não foi revelado.
Mas Christine Lagarde revelou, na quinta-feira, que o BCE contratou um “professor especialista em defesa e assuntos militares” para dar um briefing aos membros do conselho, tal é a importância para a política monetária da forma como este conflito pode ou não evoluir.
Essa “aula” foi dada na véspera de os membros do Conselho do BCE – que inclui os governadores dos bancos centrais nacionais, como o português Álvaro Santos Pereira – decidirem manter inalteradas as taxas de juro na zona euro em 2%. Na conferência de imprensa de Christine Lagarde, encurtada porque a francesa tinha de apanhar um avião para Bruxelas, a presidente do BCE esforçou-se por passar uma mensagem de grande unanimidade e serenidade no conselho.
Porém, poucos minutos depois de Christine Lagarde virar costas aos jornalistas, outras “fontes” de dentro do conselho deram as habituais informações anónimas às principais agências noticiosas da área financeira, como a Bloomberg e a Reuters. Essas inconfidências revelaram que o debate não terá sido tão unânime como Lagarde deu a entender.
Essas fontes de dentro do BCE disseram que talvez abril seja “demasiado cedo” para uma subida, mas “junho é uma hipótese mais provável” – embora “o debate sobre a subida dos juros, mesmo que ela só seja decidida em junho, tenha de começar já” na próxima reunião do BCE, marcada para 30 de abril.
https://observador.pt/especiais/em-junho-ou-ate-mais-cedo-em-abril-bce-admite-voltar-as-subidas-de-juros-por-causa-da-guerra-no-irao/
Mais: Christine Lagarde desdobrou-se em agradecimentos à vasta equipa de economistas ao serviço do BCE, por terem trabalhado ao fim de semana para garantir que os membros do Conselho poderiam ter acesso a relatórios feitos com a informação mais atualizada possível – a data de cut off na recolha de dados foi 11 de março. Porém, apesar desse esforço, as “fontes” da Reuters e Bloomberg foram muito claras: qualquer cenário elaborado a partir de dados de 11 de março está “desatualizado”.
Foi por isso que o BCE elaborou dois cenários mais negativos, um mais gravoso do que o outro, onde se estimou o impacto do prolongar da guerra e da tensão nos mercados energéticos. A autoridade monetária simulou um “cenário adverso” e um “cenário severo“: no primeiro, a taxa de inflação pode atingir os 3,5% este ano (e não baixar, tão rapidamente, no próximo ano) e no segundo, o pior de todos, ela pode atingir os 4,4% – ao mesmo tempo que a economia da zona euro entra em recessão técnica no verão.
Lagarde também já estava a caminho do aeroporto de Frankfurt quando estes números foram divulgados publicamente – o que pode ser um sinal de que a francesa preferiu não ser confrontada com a crueza dos valores previstos nesses cenários adversos que, caso fossem conhecidos de antemão, provavelmente iriam monopolizar toda a atenção dos jornalistas.
A presidente do BCE reconheceu, apenas, que o “bom lugar” em que a própria dizia que a autoridade monetária estava, nos últimos meses, deixou de existir. Agora, a mensagem principal de Lagarde é que o BCE está “bem posicionado” e “bem equipado” para reagir a eventuais pressões inflacionistas, precavendo uma repetição do que aconteceu em 2022 com a guerra na Ucrânia.
Nas entrelinhas, Lagarde tentou atenuar os receios de um novo surto inflacionista, sublinhando que o BCE aprendeu muito com a experiência recente – e salientou que a situação é, na verdade, bem diferente. Bem antes da guerra na Ucrânia, já se notava um ímpeto inflacionista nas economias desenvolvidas, alimentado pelos níveis baixos da taxa de juro que havia na altura (-0,5% na zona euro, um valor negativo) e das perturbações que houve à saída da pandemia de Covid-19, em parte relacionadas com os estímulos lançados pelos Estados.
Agora, as taxas de juro estão num nível mais “neutro” e não existe tanta pressão dos estímulos públicos. Porém, há um outro fator que, reconheceu Lagarde, pode funcionar em sentido contrário: a “memória fresca” do recente surto inflacionista poderá contribuir para que as expectativas de inflação se alastrem e se enraízem mais rapidamente entre os agentes económicos.
Embora tenha tentado transmitir uma imagem de tranquilidade, tanto quanto é humanamente possível, Christine Lagarde reconheceu que estamos perante um “grande choque” cuja gravidade dependerá, muito, da duração e da gravidade do conflito. Mas, sobre isso, como Lagarde saiu abruptamente da conferência de imprensa, não houve tempo para algum jornalista lhe perguntar qual foi, então, o palpite que foi transmitido ao conselho pelo “professor especialista em defesa e assuntos militares”.