Uma plataforma digital de mobiliário vintage vai marcar presença na Milan Design Week — e, por acaso, é portuguesa. Chama-se Curiouz, foi fundada em março de 2025, e nasceu da vontade de responder à crescente procura por peças únicas e de autor no mercado do design de interiores. No fundo, a plataforma liga vendedores de mobiliário vintage a colecionadores e designers de interiores espalhados por todo o mundo, oferecendo, num único espaço, curadoria, verificação e soluções logísticas que tornam o processo de compra mais simples. Em pouco mais de um ano, a Curiouz já reuniu centenas de vendedores espalhados pela Europa, conta com 65 mil utilizadores registados e disponibiliza mais de cinco mil peças para compra.
Depois de mais de uma década a trabalhar no setor do design de interiores e do mobiliário de luxo, tornou-se claro para a fundadora da Curiouz, Bárbara Neto, que “a indústria precisava de mudanças”. Para além de ter sido responsável pelo mercado britânico de uma empresa de mobiliário, também criou o seu próprio estúdio de decoração, o Luvangi, especializado em projetos personalizados na Europa, no Reino Unido e no Médio Oriente. Ao longo do seu percurso na área, começou a identificar uma procura crescente por peças únicas — quer a nível de customização, da escolha de tecidos ou até de obras de artistas contemporâneos. Paralelamente, verificou um interesse cada vez maior pelo mobiliário vintage, não apenas artigos de segunda mão, mas peças de autor, que vão desde objetos dos anos 20 e do estilo Art Deco até ao mid-century dos anos 50 e ao design das décadas de 60 e 70. “Existe uma enorme sede por identidade e expressão, quer seja através da roupa que vestimos, dos lugares que frequentamos e da casa que habitamos”, contou ao Observador. Foi esta constatação que esteve na origem da Curiouz, que reúne numa única plataforma uma seleção de peças raras, vintage e contemporâneas, com valores que vão dos 200 euros e que podem ultrapassar os 150 mil.

Bárbara Neto explica que um problema para os designers de interiores que querem colocar alguma essência seus projetos é encontrar uma fonte fidedigna. “Existem muitos marketplaces online e plataformas de e-commerce que vendem estes produtos, mas que não dão realmente suporte em termos de curadoria, garantia da qualidade e autenticidade do produto e toda a pretensão operacional de conseguir uma peça”, disse. “A nossa contribuição para a indústria passa muito por uma vertente operacional e pela resolução de um problema que muita gente, ou a maioria dos grandes players, ignora”.
As peças disponíveis na Curiouz não pertencem à plataforma, mas sim a vendedores profissionais com empresas registadas cuja maior parte tinha, até agora, pouca visibilidade no mercado. “Uma das nossas missões com a Curiouz é contar as histórias deles, colocá-los na frente, e permitir que sejam eles próprios a falar sobre os produtos. Acho que é por isso que fomos tão bem aceites por eles em tão pouco tempo”, afirmou a fundadora. Neste momento, existem mais de 300 pequenos e grandes armazéns espalhados pela Europa de profissionais que escolheram vender pela Curiouz. “Um dos nossos fornecedores que tem mais de 40 mil peças num só armazém“, disse Bárbara.
“Entre os compradores está Trip Haenisch, decorador de algumas das maiores celebridades em Los Angeles, como Jeff Bezos”
A maioria das vendas da Curiouz é feita para o mercado norte-americano, onde a Curiouz tem estabelecido parcerias estratégicas com nomes de referência na área. “Entre os compradores está Trip Haenisch , decorador de algumas das maiores celebridades em Los Angeles, como Jeff Bezos, e estamos em conversas com Kelly Wurstler, a maior interior designer do mundo”, revelou Bárbara Neto. Como resultado, várias peças da plataforma portuguesa já marcaram presença em projetos de renome, incluindo para o escritório do CEO da GAP e um espaço das Kardashians. “Vários designers, como o Trip, já utilizavam peças vintage, mas acabavam por reduzir o uso devido a questões de logística, qualidade e autenticidade. Quando nos descobriram, quiseram testar a plataforma e acabaram por ter boas experiência. São relações que queremos manter e crescer nos próximos anos”.

Para além dos Estados Unidos, a marca também tem muitos clientes espalhados pela Europa e no Reino Unido. Em Portugal, existem poucos. “Nós nunca tivemos como objetivo inicial termos realmente clientes ou fornecedores em Portugal e neste momento ainda não temos clientes profissionais no país, o que é uma pena para nós”, confessou a fundadora. “Através de uma rede de vários transportes combinados garantimos que as peças chegam no tempo certo e com o custo mais baixo possível. É por aí que estamos a mudar o jogo, e por isso temos tido um crescimento muito rápido”.
Até ao momento, a Curiouz já recebeu mais de 330 mil euros em investimento. Um dos principais financiadores do projeto é a Angels Way, o primeiro fundo português a apostar na plataforma digital de mobiliário vintage. Anabela Ferreira, uma das mentes por detrás da Intraplas, também consta na lista de investidores. “Contamos ainda com o apoio da Atomico, e de um fundo belga que decidiu investir na nossa presença internacional. Estamos com uma ronda aberta, que esperamos fechar ainda este mês de abril”, acrescentou Bárbara Neto.
“Não existe nada mais sustentável que o luxo”
Desde o início, que um dos grandes focos da Curiouz tem sido a sustentabilidade. A startup portuguesa nunca quis apresentar a mensagem como “ajuda ao planeta”, mas sim mostrar que esta abordagem pode ser entendida através da ideia de luxo. “Não há nada mais sustentável que o luxo, porque isto garante que o tempo de vida das peças vai para além do tempo de vida dos seres humanos que as compram. Então, para nós, a missão ao utilizar vintage é precisamente essa”, explicou a fundadora. “Se designers de interiores, arquitetos e pessoas que compram e decoram propriedades utilizassem apenas 10% de peças vintage, o impacto já seria enorme. A indústria do mobiliário é responsável por cerca de 30% do consumo mundial de madeira e pela deflorestação”.

Bárbara Neto considera que a responsabilidade de uma plataforma como a Curiouz é enorme, especialmente ao ensinar os compradores sobre a durabilidade de uma peça de luxo, capaz de passar de geração em geração, apesar de ser mais cara. “Se vendermos a ideia de que se trata de uma peça única, de excelente qualidade e de autor, provavelmente haveria mais pessoas a consumir luxo de forma consciente, o que podia gerar um impacto maior para o planeta do que as empresas que recorrem a greenwashing”.
“É agora ou nunca que podemos marcar a nossa presença e entrar na cabeça das pessoas”
A startup de mobiliário portuguesa fará a sua estreia física na Milan Design Week, a mais importante feira de design do mundo, que vai decorrer entre 20 a 26 de abril de 2026. Para Bárbara Neto, para além da dimensão digital, a presença “ao vivo e a cores” também assume um papel fundamental para o projeto. “Quando um cliente pode ver as peças ao vivo, confirmar a sua qualidade e autenticidade, e conhecer quem está por detrás do projeto, ganha mais confiança e sente-se mais seguro para comprar”.
A Curiouz vai integrar o Fuorisalone, o conjunto de exposições e eventos independentes espalhados por Milão que dão vida à cidade durante a Design Week. A plataforma vai instalar uma pop-up gallery própria na Viale Abruzzi 16, em Porta Venezia, onde, ao longo da semana, será possível conhecer uma seleção de peças de mobiliário e iluminação de designers europeus e encontrar alguns dos parceiros e convidados da plataforma. “Vai ser um espaço bastante intimista para conseguir dar a mostrar e entender quem é a Curiouz e quem são as pessoas por detrás dela”, conta Bárbara. Os visitantes são convidados a sentar-se e tocar nas peças, e a notar a diferença entre um objeto desenhado para ser contemplado e um desenhado para ser vivido, que é, precisamente, o tema central da exposição da startup.
Ao ocupar este espaço, a Curiouz pretende colocar o design vintage no centro da conversa da Milan Design Week, e não na sua periferia. “Foi ousado, porque nunca nenhum dos nossos concorrentes fez isto. Pensámos que ainda poderia ser cedo, mas para nós ou é agora ou nunca que podemos marcar a nossa presença e entrar na cabeça das pessoas”, admitiu Bárbara. As expectativas são altas, e a intenção é sair de Milão com uma grande lista de contactos para trabalhar nos próximos meses. “Mais do que tudo, queremos que as pessoas saibam que existimos e que, quando pensarem em procurar uma peça vintage para um projeto, pensem automaticamente na Curiouz”.