No passado dia 18 de Março, na Rádio Observador, Campos e Cunha, professor de Economia e ex-ministro das Finanças, dizia, com notável tranquilidade, que esta guerra com o Irão era dirigida pelo “lobby judaico”. À tarde, na CNN Portugal, Azeredo Lopes, disse exactamente a mesma coisa, com palavras mais polidas e disfarçadas. Nos EUA, o Sr. John Kent demitiu-se do seu cargo na Administração , com exactamente a mesma justificação. Há dias, o Viriato Soromenho Marques, tinha dito a mesma coisa.
Estamos pois perante a repetição deliberada de um clássico tropo antissemita, agora vestido de gravata. Esta forma muito particular de estupidez gosta de passar por lucidez. Não grita, não espuma, não aparece com a iconografia inconveniente do século XX. Fala pausadamente, veste-se bem, adopta um ar fatigado de quem já viu tudo, e explica-nos, com verniz de especialista da geopolítica, que os EUA não fazem o que fazem por cálculo estratégico, por interesses próprios, por doutrina de segurança, por disputa de poder, por defesa de rotas marítimas, por contenção regional ou por simples leitura da realidade. Não. Fazem-no por causa do “lobby judaico”.
Assim de simples. Séculos de propaganda antissemita, toneladas de lixo ideológico, pogroms, panfletos, caricaturas, os Protocolos dos Sábios de Sião, o Mein Kampf, a velha fantasia da omnipotente cabala hebraica, tudo isso está a outra vez a fervilhar no caldeirão. Fez um curso de reciclagem, meteu botox e reapareceu nos estúdios de televisão, nas rádios e nos jornais com ar de tese ousada e perfume de “realismo”.
Já não diz, evidentemente, que “os judeus mandam no mundo”. Isso soaria grosseiro, plebeu, comprometedor. Agora fala do “lobby”. Ou de “certos interesses”. Ou de “determinados círculos de influência”. Ou “da pressão israelita sobre Washington”. É a mesma prostituta, com vestido Versace e colar de pérolas.
Quando três professores universitários cá do burgo se juntam a Kent, Adolfo Hitler, Nick Fuentes, Tucker Carlson, Mershmaier, e muitos outros, e resolvem sugerir que a política americana no Médio Oriente é ditada por uma espécie de directório judaico, estão a reciclar um preconceito, e emprestar verniz institucional a um libelo antigo, ordinário e perigosíssimo. O mais curioso é o que esta gente se julga corajosa e esclarecida. Imagina-se dissidente. Acha que está a denunciar uma verdade proibida pelos poderes instalados. Vê-se ao espelho e enxerga um Soljenitsin enquanto regurgita um cliché intelectual tão gasto que cheira a cadáveres. Milhões deles.
A acusação é sempre a mesma, mesmo quando muda de roupa: os americanos não têm vontade própria; são manipulados. Não agem como actor racional com agenda própria; são marionetas. E quem segura os cordelinhos? Naturalmente, judeus. Ou, para usar a versão higienizada da coisa, “o lobby pró-Israel”.
É um esquema de explicação irresistível para espíritos preguiçosos ou primários, porque transforma a complexidade do mundo numa teoria da conspiração. Com um culpado oculto e poderoso que, pela calada da noite, cozinha poções em grandes caldeirões, determinando guerras, governos, media e mercados. Judeus atrás da cortina.
Isto tem utilidade psicológica. Poupa trabalho. Em vez de estudar a história, a estratégia, a geografia, a importância do estreito de Ormuz, a centralidade da segurança energética, a lógica das alianças regionais, a contenção do expansionismo iraniano, o valor da credibilidade militar dos EUA, a protecção da liberdade de navegação, basta murmurar “lobby judaico” com gravidade de sacristão. A partir daí, tudo fica explicado. A complexidade dissolve-se. A realidade deixa de ser trágica, contingente, contraditória e multifactorial, para passar a ser um enredo policial de terceira categoria, com culpados fixos e suspeitos hereditários.
Não deixa de ser sintomático que este tipo de discurso apareça em bocas que se julgariam, em qualquer outro contexto, implacáveis vigilantes contra os discursos de ódio. A mesma fauna que detecta fascismo em receitas de bacalhau, colonialismo em mapas escolares e violência estrutural em pronomes mal colocados, torna-se olimpicamente indulgente quando a teoria da conspiração envolve judeus. Nesse caso, já não há preconceito, há “debate”. Já não há estigma, apenas “análise crítica”. Já não há desumanização de um grupo, há “contextualização”.
O judeu continua a ser o único ser humano a quem se nega, sem escândalo, o direito à normalidade. Se tem influência, é conspiração. Se se defende, é agressão. Se responde, é desproporção. Se existe, incomoda. É todo poderoso, nas cabeças transtornadas, mas, no mundo real, nem sequer consegue viver tranquilo no seu exíguo pedaço de areia.
O detalhe particularmente nojento desta retórica, é que ela absolve os verdadeiros agentes das suas escolhas. Os EUA deixam de ser responsáveis pelas suas decisões, porque foram “empurrados”. O Irão deixa de ser o problema central, porque o foco passa a ser quem “provocou” a reacção americana. O Hezbollah, os aiatolás, a Guarda Revolucionária, os atentados, o material físsil, os proxies, os ataques a navios, os mísseis, a desestabilização regional, tudo isso se torna acessório perante a grande descoberta do antissemitismo engravatado: a culpa é do judeu influente.
O mais cómico, se a matéria permitisse humor inocente, é ver esta ladainha surgir de sectores ideológicos que se odeiam entre si, mas se encontram amorosamente no bordel do antissemitismo. Para a direita “Tucker Carlson”, o judeu é neocon, financista, o homem que arrasta a América para guerras alheias. Para a esquerda “anti-imperialista”, o judeu é sionista, colonizador, o corruptor da política ocidental. Para o centrista preguiçoso e não particularmente esperto, o judeu serve como explicação elegante para não estudar nada a sério. Todos estes lamentáveis companheiros de estrada convergem no mesmo ponto: Israel e os judeus possuem uma espécie de superpoder hipnótico sobre o Ocidente. Uns chamam-lhe lobby. Outros chamam-lhe influência. Os mais francos chamam-lhe pelo nome antigo. Mas todos se sentem profundos e supinamente inteligentes
Não, não é profundo, nem inteligente. É primário. É intelectualmente ordinário. É moralmente repugnante. Porque não há nada de sofisticado em pegar numa abjecta mitologia de suspeição anti-judaica e vertê-la em linguagem de ciência política para consumo de pessoas que gostam de se sentir acima da turba. O analista que hoje fala do “lobby judaico” com sobranceria académica não está muito longe do panfletário de antanho que denunciava a conspiração hebraica em papel barato. A diferença é apenas de mobiliário, de dicção e de canal.
Importa ainda dizer uma evidência que parece escandalosa neste clima de alucinação e de desaparecimento dos filtros: é perfeitamente legítimo discutir grupos de pressão, financiamento político, redes de influência, think tanks, doadores, alianças diplomáticas e preferências estratégicas. Isso existe em todas as democracias, para sindicatos, petrolíferas, armamento, farmacêuticas, ambientalistas, igrejas, causas identitárias, diásporas de toda a espécie. O que deixa de ser legítimo e não é inocente, é usar esse facto para insinuar que existe uma alavanca especificamente judaica que move a vontade americana como quem puxa um títere. Nessa altura, já não estamos no campo da crítica; estamos no campo da superstição política e do ódio cego.
E é superstição o que esta gente revela. Uma forma degradada de pensamento mágico aplicada à geopolítica. Como os antigos viam demónios nas colheitas perdidas, eles veem judeus por trás de cada decisão americana que não lhes agrada. Precisam de uma entidade omnipresente, quase omnipotente, mal disfarçada, eternamente culpada. Precisam de um povo transformado em explicação universal. Precisam de uma teologia do ressentimento e de um bode expiatório.
Que gente é esta? Gente fraca. Gente preguiçosa. Gente intoxicada por décadas de propaganda segundo a qual Israel deixou de ser um país para se tornar uma metáfora do mal. E que transtorno é este? Não é clínico, infelizmente. É pior. É moral, intelectual e civilizacional. Chama-se antissemitismo. Não o de botas cardadas e archotes, embora esse nunca ande longe. Mas o outro, o respeitável, o cínico e polido, o televisivo, o que cita professores, usa eufemismos e se acredita sofisticado. O antissemitismo que não quer parecer antissemita. O mais cobarde de todos, justamente porque sabe o que é e, ainda assim, insiste.
No fim, sobra sempre a mesma lengalenga: os aiatolas disparam, o Hezbollah chacina, o Irão desestabiliza, os navios ardem, o mundo treme, e há sempre um perito de estúdio pronto a concluir que a verdadeira força motriz da tragédia é o judeu. A boçalidade antiga continua lá; apenas aprendeu a usar microfone e tom grave. A evolução, como se vê, nem sempre melhora a espécie. Às vezes limita-se a albardar o preconceito com casaco, gravata e um canudo académico.