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Carla Maciel e Gonçalo Waddington navegam o "Veneno": do luto à perda deles próprios

Há uma tensão constante do início ao fim da peça, pontuada por momentos de ressentimento, explosão, catarse e até amor. Para ver a partir de 19 de março no Teatro Aberto, em Lisboa.

Andreia Costa
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Como é que se sobrevive à morte de um filho? Até agora, ninguém descobriu a fórmula e também não será Veneno — História de um Casamento a encontrá-la. Isto porque simplesmente não há resposta, cada pessoa vive o luto à sua maneira, ou não o vive de todo, incapaz de enfrentar tal dor. A nova peça do Teatro Aberto, que se estreia esta quinta-feira, dia 19 de março em Lisboa, apresenta esse dilema: um casal, a mesma perda, duas formas distintas de lidar com ela.

Carla Maciel e Gonçalo Waddington são esse casal, ou ex-casal, que se reencontra após uma separação de dez anos. Além da dor que os une (a mesma os separou), há mágoa, rancor e uma familiaridade que se revela com as mesmas proporções de uma estranheza incómoda.

Enquanto o público se instala na sala, já se vê numa tela que esconde o palco uma longa estrada pela frente. A imagem está em movimento, como se fossemos passageiros de um carro. Segue por entre a chuva, ao som de Fields of Gold, de Sting, até passar uns portões daquilo que percebemos ser um cemitério e estacionar.

O condutor do carro é o primeiro a entrar numa sala inóspita, habitada por oito cadeiras distribuídas por várias paredes, uma máquina de café e outra de água. Num dos cantos, a vidraça que se estende do chão ao teto revela a chuva que vai abrandando ou ficando mais violenta lá fora, um espelho do que vai acontecendo no interior.

A tela sobe e revela lá atrás, sentado numa das cadeiras, um homem. Minutos depois chega uma mulher, exasperada com o estado do tempo, como se essa agitação escondesse o que realmente a incomoda: estar cara a cara com o ex-marido, pai do filho que ambos perderam há uma década. Estão ali por questões burocráticas, já que a campa de Tiago, o filho, poderá ter de ser trasladada devido a um problema no cemitério. Esse motivo passa rapidamente a secundário (ou talvez seja o mais importante por conseguir gerar uma conversa que devia ter acontecido há muito). Este é um reencontro tenso e emotivo, violento, mas também catártico — uma montanha-russa conduzida por um casal da vida real, Maciel e Waddington, que nos suga para estas subidas e descidas alucinantes sem pedir licença — deixando-nos inúmeras vezes dilacerados. São condutores ponderados por vezes, frenéticos e desgovernados muitas mais, mas com uma segurança tal no texto e na pessoa com quem contracenam que se senta para lá do palco.

Veneno — História de um Casamento é da neerlandesa Lot Vekemans, aqui adaptado por Vera San Payo de Lemos e João Lourenço e encenado por João Lourenço. “A peça é de 2009 e sabíamos que estava há muitos anos em cena na Alemanha. Fomos lá ver. Tinha um cenário muito mau, mas foi interessante”, recorda João Lourenço ao Observador.

O nome do filho foi adaptado: de Jakob passou a Tiago. No entanto, as referências espaciais não foram alteradas. A história passa-se nos Países Baixos e há até uma alusão a Portugal, para onde se muda o irmão da protagonista. Nenhum dos membros do casal tem nome, quase como se a ausência de uma identidade fizesse com que possam ser cada um de nós.

Na versão portuguesa, Veneno ganha um pós-título, História de Um Casamento, e não é por acaso que assim é, em vez de História da Perda de um Filho. Tem várias camadas, resumidas de forma sublime numa frase dele (Gonçalo Waddington): “Somos um homem e uma mulher que, primeiro, perderam um filho, depois a si próprios e depois um ao outro”.

Aliás, quando os dois começam a falar do passado é a partida dele que suscita tensão. “A peça começa com o porquê de ele ter ido embora naquela noite. É uma experiência mais recorrente do que a experiência de perder um filho, mas não deixa de ser violenta. Também se faz o luto de uma relação”, diz Vera San Payo de Lemos.

Carla Maciel foi o nome escolhido desde o início, mas pô-la a contracenar com o marido podia ter sido um desafio, reconhece João Lourenço. “O problema dos dois é que, de repente, podem ser dois atores que levam os ensaios para casa.” Depois perceberam que seria uma mais valia. “Temos mais a ganhar com eles, são 25 anos como casal, têm olhares e formas de comunicar só deles, conhecem-se como ninguém”, diz Vera.

Os olhares são fruto de muita intimidade, os gestos são uma coreografia perfeita, mas isso não significa que não tenham conseguido desconstruir o que os une. Pelo contrário, são capazes de se mostrar vulneráveis e desprotegidos no meio dos silêncios incómodos ou perante informações que o outro partilha e que nem sempre são acolhidas com serenidade.

Ela ficou: na mesma cidade, na mesma casa, nos sítios por onde passava com o filho, nos cenários de todas as recordações. Ele partiu: incapaz de salvar o casamento depois de não ter conseguido salvar o filho, comido pela culpa de quem deixa tudo para trás à procura de paz.

“Detesto a felicidade, pessoas felizes. Tu não?”, atira ela a dada altura.

“Então, quando olhas para mim, vês uma história que correu mal?”, questiona ele noutro momento.

Há muitos ressentimentos, a maioria desembrulhados por ela freneticamente, como uma criança que rasga o papel de embrulho sem perder tempo. Ele, apesar de mais contido (e aparentemente resolvido), é uma bomba relógio que pode rebentar a qualquer altura. Porém, há também momentos ternos porque, afinal, houve um tempo em que estas duas pessoas se amaram profundamente. “Sempre gostaste de observar pessoas no comboio. E de pessoas que ficam com os olhos cheios de lágrimas quando estão a falar de camélias”, recorda ele.

Uma tareia literal

Durante uma hora e dez minutos, Carla Maciel e Gonçalo Waddington esgotam-se física e psicologicamente — não há mais ninguém em palco e há raríssimos momentos de silêncio. A história é tão exigente mentalmente que acabam o espetáculo exaustos — e com nódoas negras. “A sério, não estamos a fingir, estamos os dois cheios de nódoas”, garante Carla enquanto arregaça uma das mangas da camisola.

E como é que se desliga depois de uma experiência tão intensa? “Às vezes é preciso discutir: ‘Hoje naquela fala fizeste não sei o quê’!”, garante Carla Maciel. “Depois vamos daqui para o metro a pé, apanhamos um bocado de vento e arejamos as ideias”, acrescenta Gonçalo Waddington.

Partilham o camarim, até porque, garantem, seria estranho estarem longe do outro. Cinco minutos antes do início do espetáculo concentram-se, ficam em silêncio e lá vão eles. “Eu entro primeiro, fico ali uns minutos sentado [enquanto termina o vídeo e sobe a tela] e esse é o tempo certo para me concentrar”, explica Waddington ao Observador.

Nenhum deles conhecia o texto de Lot Vekemans e, quando perceberam que havia uma versão cinematográfica de Veneno [de 2024, com Tim Roth e Trine Dyrholm], resolveram espreitar, mas nem a meio chegaram. “Não achei muito interessante e, ao mesmo tempo, não me apetecia ver alguém a fazer aquilo”, confessa Gonçalo Waddington.

Porém, Carla Maciel descobriu uma coincidência que acabaria por legitimar a forma como já estava a entender e interpretar a personagem da peça. “Quando estávamos a ensaiar, vimos o [filme] Hamnet, mas foi porque queríamos ver o filme, não foi como preparação. Fala de luto e foi uma espécie de confirmação de que estávamos no caminho certo.”

Método não têm, a não ser que estejamos a falar da rapidez com que decoram o texto. “É verdade que ter o domínio absoluto do texto, e não termos de andar com ele nas mãos, nos permite explorar mais coisas, descobrir emoções”, explica Carla Maciel. “Podemos errar e voltar atrás. O João também nos dá muita liberdade.”

Na verdade, ambos têm estado bastante consumidos pelo projeto. “É como a personagem da Carla diz na peça: ‘Ponho o leite no copo e estou a pensar naquilo’. A peça parece habitar a minha cabeça em tudo o que faço. Estou no metro, a ir para estúdio, etc, e estou a pensar naquela cena, naquela frase”, diz Gonçalo. “Todos os dias ajustamos coisas para sentirmos que é orgânico, não pode sair forçado”, completa Maciel.

É, ainda assim, preciso haver limites. “Também temos de fazer uma pausa porque se torna muito obsessivo. Porque trabalhamos juntos. E ainda bem que temos outras coisas para fazer, para podermos esquecer um bocado”, garante Waddington.

Carla Maciel só tinha trabalhado uma vez com João Lourenço, há 16 anos, e por algum motivo ele não pensou em nenhum outro nome para este papel. Fazê-lo ao lado do marido foi, para ela, mais especial. “Nunca tinha acontecido trabalharmos juntos em teatro, dirigidos por outra pessoa. Dirigíamos alguns espetáculos, só os dois, mas eram sempre coisas nossas.”

Assim que começaram a estudar o texto, perceberam que era quase inato identificarem-se com as respetivas personagens. “Por sermos pais, acho que metade do trabalho está feito. É mais fácil pormo-nos na pele daquelas pessoas porque, de facto, é uma coisa na qual pensamos às vezes, infelizmente. Como é que seria [perder um filho]? Que pai ou mãe é que nunca pensa nisso? Toda a gente conhece alguém que viveu isso”, diz Carla Maciel.

É impossível sair da peça sem repensar prioridades e tempo. Com o casal de atores acontece exatamente o mesmo. “Às vezes até chegamos a casa e vamos logo ao quarto do Mário [o filho mais novo], dar-lhe beijinhos porque temos o coração apertado. Se estamos a tratar um tema, se estamos a falar do luto de um filho, depois pensamos nisso mais vezes”, diz Carla.

Têm-se sentido mais melancólicos devido ao projeto, admitem. “Ele [o filho] tem a vida dele, no sentido de estar ocupado a fazer coisas e com os nossos ensaios à noite, às vezes estamos algum tempo sem o vermos”, lamenta Carla. A filha mais velha, Luísa, está a estudar Belas Artes em Roterdão, mas esteve em Lisboa recentemente e assistiu a um ensaio. “São muito críticos e observadores”, diz Gonçalo Washington.

“Ele e ela são todas as mulheres e todos os homens que estão a passar por isto”, diz João Lourenço. São pais, são filhos, são amigos que conhecemos, somos nós. Na escalada do confronto há culpas que se atiram e culpas que se reconhecem.

“Eu sou assim?”, pergunta ela.
“És assim”, responde ele.
“Eu não quero ser assim”, lamenta ela.

O texto de Veneno surgiu da sugestão de uma amiga da dramaturga. “Ela disse à Lot Vekemans: ‘Por que não escreves uma peça sobre uma mulher e um homem que perdem um filho’? E ela disse: ‘Não, eu não sou mãe, não consigo identificar-me com isso. É muito violento’”, conta Vera San Payo de Lemos. Porém, o assunto ficou a marinar na cabeça dela e desencadeou-lhe uma série de questões. Por exemplo, qual o sentido de acontecer algo tão absurdo que nos tira o chão? Como é que cada pessoa lida com esse buraco? Que caminhos é que a pessoa vai tateando à procura da saída? As respostas são infinitas, mas há uma certeza: cada pessoa faz o luto à sua maneira. Seja que luto for.

Aliás, isso não está explícito logo no início. Vamos percebendo ao longo da história que dor é esta que os une (e que também os separou).

“Veneno — História de Um Casamento”, com texto de Lot Vekemans, dramaturgia de Vera San Payo de Lemos e encenação de João Lourenço, está em cena até 3 de maio de 2026. As sessões acontecem quarta e quinta-feiras, às 19h; sexta e sábados, às 21h30; e domingos, às 16h. Os bilhetes podem ser comprados online ou no Teatro Aberto. Custam 17€.