Na semana passada fez anos um bebézinho de um quarto de milénio: o capitalismo. Ou pelo menos a sua certidão de nascimento conceitual. Claro que, para alguns, aquela singela palavra é uma asneira obscena, impublicável num jornal decente.
No dia 9 de Março de 1776 foi lançado em dois volumes “An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations”, conhecido na intimidade como “A Riqueza das Nações”. Foi um ano com duas revoluções do caneco: a americana e a capitalista, que a obra de Adam Smith ao mesmo tempo fomentou e ungiu. A primeira é o símbolo da liberdade política, e a segunda, da liberdade económica. Para alguns, um annus mirabilis; para outros, horribilis, que não merecia um “Happy Birthday To You” mas uma marcha fúnebre.
Smith foi um dos ases do Iluminismo Escocês, em dueto com o compincha David Hume. Gastava o seu latim em grego, francês, italiano e no latim propriamente dito. Escreveu sobre astronomia, filologia, poesia, lógica e retórica e foi reitor da Universidade de Glasgow. Até então, praticamente não existia a concepção de “economia” como uma entidade autônoma. Nos currículos universitários, centrados em Aristóteles, a gestão dos negócios era considerada um apêndice da ética. Com Smith a teoria fez o pino: a riqueza de uma nação não está em quanto ouro ou terras ela detém, mas no fluxo de bens e serviços que ela cria, através da divisão do trabalho, do investimento, do comércio e do mercado livre, cuja “mão invisível” elimina os ineptos e recompensa os diligentes, aumentando a prosperidade como um todo.
Foi um pontapé no traseiro do Mercantilismo e o seu protecionismo chauvinista, com miríades de regulamentos, restrições, burocracias e o diabo a quatro. Smith demonstrou que uma sociedade e uma economia livres eram siamesas — uma não podia existir sem a outra.
O paradoxo é que aquele bebé queriducho nunca parou de gerar ricos mal-agradecidos. Numa pesquisa em 2023 entre 21 países, apenas 5 – Polónia, EUA, República Checa, Japão e Coreia do Sul – veem o capitalismo positivamente. Para a maioria, “capitalismo” é daquelas palavras-anátema, como, sei lá, pedofilia ou cancro. Coramos um bocadinho quando a proferimos, e depois vamos lavar a boca com lixívia. O próprio termo “capitalismo” só foi criado em meados do século XIX pelo escritor inglês William Thackeray, autor do romance “Feira das Vaidades” e também pai do vocábulo “snob”.
Antes do advento do capitalismo, era como se a maioria dos terráqueos emborcasse Ozempic, de tão magricelas. Ainda em 1800, cerca de 90% dos bípedes implumes vegetavam na penúria – hoje são apenas 9,6%, apesar de a população mundial ter aumentado em dois mil milhões. Em dois séculos e meio, abracadabra! A esperança de vida global saltou de 29 para mais de 70 anos. A alfabetização, a mortalidade infantil e até a altura – porque a desnutrição caiu a pique – melhoraram imenso. Desde 1776, houve um salto de 3.000% na renda real per capita no mundo. Não cuspamos no prato em que nos empanturramos.
Por mil anos, de 550 a 1550 d. C., o Oriente prevaleceu sobre o Ocidente. No Renascimento, a Europa ligou o turbo e superou a China, e as revoluções Científica e Industrial fizeram o resto. Por falar em chineses: em 1981, para 88% deles a vida era uma tortura chinesa – hoje, menos de 1% são tesos. No final da década de 1950, 45 milhões de pessoas morreram devido ao Grande Timoneiro e o seu Grande Salto para a Frente (que deveria chamar-se Grande Salto para Trás). Em 1960, a esperança de vida na China era inferior a 30 anos. Com a morte de Mao (não há bem que sempre dure nem Mao que nunca acabe), Deng Xiaoping ronronou que «ser rico é glorioso», e criou a primeira “zona económica especial” na liliputiana aldeia piscatória de Shenzhen – onde, na outra margem do rio das Pérolas, na capitalista Hong-Kong, os chineses ganhavam 100 vezes mais.
Hoje, Shenzen é conhecida como “o Silicon Valley de olhos em bico” – e há mais multimilionários na China do que em qualquer outro país do mundo, com exceção dos EUA. Só em 2025, a China criou 70 novos bilionários, elevando o total para 470 (os EUA têm 924, mas há mais plutocratas em Pequim do que em Nova Iorque). Desmascarava-se a treta do “jogo de soma zero”, segundo o qual os ricos só são ricos porque espoliam os pobres. Centenas de milhões de pessoas vivem hoje confortavelmente na China – e não apesar dos magnatas, mas porque Deng deu ordens para “que se deixe alguns enriquecerem primeiro”.
Na Europa e na Ásia, antes do capitalismo, uma família típica vivia à base de pão. Quase ninguém comia carne (toda a gente era vegan involuntária, e não por ser santa). Hoje, um ocidental comum come melhor (em variedade, sabor e nutrição) que Luís XIV em Versalhes.
“Quando se fala em ‘fome’”, diz o sinólogo alemão Felix Wemheuer, “a primeira coisa que as pessoas pensam é em África. No século XX, porém, 80% das vítimas de inanição morreram na China e na URSS.” Só no chamado “Holodomor”, infligido por Estaline à Ucrânia em 1932-1933, sucumbiram à fome 5 milhões de pessoas. Jang Jing-Sung, um membro da elite norte-coreana que fugiu para o Ocidente, descreve a Coreia do Norte nos anos 1990. Os famintos eram enviados para parques, como mendigos, antes de agonizarem. Havia uma “Divisão de Cadáveres”, cujos membros encarregavam-se de espetar corpos com paus para ver se já estavam mortos. Num mercado, uma viúva tentava vender a sua filha esquelética por 100 won (10 cêntimos). O fim do comunismo foi um fator decisivo para o declínio da fome global em 42% entre 1990 e 2017.
O estrabismo socialista jura que o pobre é pobre porque o rico é rico. Ou seja: todo o éxito é sempre resultado da derrota de outrem, pois todos os ganhos são pagos pelos perdedores. Foi essa falácia que Smith refutou. O interesse próprio poderia e seria aproveitado em prol do interesse social, desde que cada indivíduo “não viole as leis da justiça”. As linhas icónicas: “Não é da benevolência do talhante, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelo seu interesse pessoal. Dirigimo-nos não à sua humanidade, mas ao seu amor-próprio, e nunca lhes falamos de nossas próprias necessidades, mas das suas vantagens” .
Bem antes da Guerra Civil Americana, Smith considerou a escravidão retrógrada, até porque o trabalho livre acaba por ser mais barato do que o compulsório (e o bolso dói mais que o coração). O capitalismo implica consumidores, e não escravos. Com a industrialização, o «escravo assalariado» também fazia compras – o mais pobre dos proletários tinha agora mais de uma camisa, e aspirava a ter mais de duas (e quem sabe umas calças catitas).
“A Riqueza das Nações” é de leitura divertida: ficamos a saber que a palavra “salário” deriva do latim “salarius”, de sal, pois as primeiras formas de dinheiro eram moedas-mercadoria: os legionários romanos eram pagos em sal.
Outra aldrabice é comparar a realidade com o idílio da quimera socialista, que nunca existiu em nenhuma parte do mundo. O comunismo, como qualquer religião revelada, é principalmente um conjunto de profecias. Mas beneficia da ignorância generalizada sobre história, e sobre a pobreza abjeta da vida antes do capitalismo. Na escola tão-pouco ensinam a realidade sórdida do socialismo. Ah, mas “isso não foi o verdadeiro socialismo!” – que certamente é uma fofura. Como disse o marxista italiano António Negri, “o comunismo não morreu porque nunca existiu”.
Bem, a realidade tem a mania de só existir no mundo real. Ao longo do século passado, o socialismo/comunismo foi experimentado em numerosos países: URSS, Jugoslávia, Checoslováquia, Coreia do Norte, Hungria, Alemanha Oriental, Cuba, Tanzânia, Albânia, Polónia, Vietname, Bulgária, Roménia, Laos, Iémen do Sul, Somália, Congo, Etiópia, Camboja, Moçambique, Zimbabue, Angola, Venezuela e Nicarágua, etc. Nenhum deles resultou – nem em prosperidade, nem em igualdade nem em liberdade. Será que a verdadeira essência do comunismo reside no que jamais foi? Na ideologia, temos a nirvánica Terra Prometida. Na prática, a utopia sempre descambou em distopia, e o paraíso prometido em inferno dantesco (na Venezuela, o Éden não entrega nem papel higiénico).
Hoje, quando toda a gente é uma vítima oprimida, há criatura mais aviltada do que o burguês, palavra que etimologicamente significa o “morador de um burgo”? Com o marxismo, o termo corresponde a uma cúpida máquina de fazer dinheiro pelo dinheiro (para Freud, o dinheiro é um avatar das fezes), um palerma prosaico e corrupto, com uma inventividade fortuita ou uma rapacidade ignóbil. E depois, se empresários foram também geniais inventores? Thomas Edison (lâmpada elétrica, fonógrafo), Graham Bell (telefone), Elon Musk (tecnologia aeroespacial/elétrica), Steve Jobs (computador pessoal, iphone, ipad), Henry Ford (Ford T e a linha de montagem), etc.
Para o Romantismo, só a nobreza era, bem, “nobre”, digna de sentimentos sublimes – o burguês é tacanho e filisteu (afinal, o aristocrata está montado no seu cavalo branco no campo de batalha, e o burguês atrás da máquina registadora). Em “Le Bourgeois Gentilhomme”, de Molière, o comerciante (papel que o próprio Molière interpretou diante de Luís XIV) que anseia ser um cavalheiro é ridicularizado. Na canção “Les Bourgeois”, de Jacques Brel, três jovens zombam da piedade conservadora dos seus pais, mostrando o rabo aos tabeliões de uma vila francesa
Nem sempre foi assim. “O Casal Arnolfini”, pintado em 1434 por Jan van Eyck , é um dos quadros mais tocantes e ternos da história da arte, povoado por um comerciante e a sua esposa grávida (e o célebre espelho de 5,5 centímetros, com toda a composição invertida). A bochechuda Monalisa, de Leonardo da Vinci e quinta-essência do esfíngico “eterno feminino”, era Lisa Gherardini, mulher de um negociante florentino de lã e seda. No dia 28 de março de 1727, Voltaire assistiu ao funeral de Isaac Newton na Abadia de Westminster, embasbacado por duques e condes carregarem o caixão do filho de um camponês, a quem prestavam uma homenagem digna de um rei.
Hoje o que não falta são capitalistas que odeiam o capitalismo – mas não o capital. Esses empresários/ativistas/hedonistas já foram chamados «burgueses boémios» – com as primeiras letras das duas palavras (bourgeois bohemians), David Brooks criou o neologismo Bobos. Agora até a nobreza principesca pode ser boémia burguesa, como no caso de Harry e Meghan (os bobos da corte). O Bobo (Thomas Piketty preferiu chamá-lo “a esquerda brâmane”), que desponta na década de 1990, é uma fusão entre o hippie e o yuppie, e finge não ser nem um bocadinho materialista, menos interessado na economia do que na cultura e na identidade. Convém gastar dinheiro mostrando que se despreza o dinheiro: nada de fatos nem de limusinas, credo. É feio comprar um iate, mas é giríssimo gastar 100 mil euros num frigorífico SubZero.
Em “We Have Never Been Woke: The Cultural Contradictions of a New Elite”, Musa Al Garb disseca a mais estrambólica mutação do burguês, já no século XXI, que o autor designa por “capitalista simbólico” (por traficar sobretudo com capital cultural, político, académico e totémico). Porque hoje tantos abastados parecem tão ansiosos por empoderar os marginalizados ? Quais a função do discurso da “justiça social” nas elites contemporâneas? Como os capitalistas simbólicos conciliam a sua retórica igualitária com a evidência de que o seu estilo de vida corresponde a reprodução e a exploração de várias formas de desigualdade? Ao contrário do castiço capitalista de Smith, o simbólico escamoteia o seu interesse e pavoneia triunfalmente a sua virtude. Bom, como dizia Marx, não se pode julgar uma sociedade pela ideologia que lhe serve de pretexto, assim como não se julga uma pessoa pela ideia que ela faz de si própria.
Esses happy few consideram-se dignos de prestígio e salários suntuosos porque servem “a um bem maior”. Controlam a riqueza e o poder dos que estão na cobertura para o benefício dos que estão na cave. Já aqueles que são denunciados como racistas, sexistas, homofóbicos ou insuficientemente comprometidos com metas virtuosas são por inerência indignos de status, plataformas ou mãozinhas institucionais. Se você é artista, académico, assistente social, psicólogo — ou, cada vez mais, jornalista, médico, advogado ou funcionário público — provavelmente atua num meio social no qual a gama de opiniões respeitáveis é assustadoramente restrita.
Basicamente, capitalistas simbólicos são Maria Antonietas brincando de ser Robespierre. Como as vagas de capitalistas simbólicos não são infinitas, o discurso precisa de ser cada vez mais belicoso: as coisas estão sempre a piorar, e os paladinos são cada vez mais imprescindíveis. Moldam o que assistimos na TV, no teatro e no cinema, as notícias que lemos, a maneira como interagimos com os nossos amigos nas redes sociais e com os nossos colegas de trabalho. Ditam a educação dos nossos filhos, as universidades que preparam os licenciados para o local de trabalho, o sistema de justiça que fiscaliza o nosso comportamento e as empresas em que fazemos as nossas compritas. Quanto a nós, reles mortais, podemos continuar a fazer o que nos der na veneta, desde que nos sintamos culpados por tudo.
Adam Smith nunca pretendeu que o capitalismo saciasse o ser humano com a plenitude espiritual e o sentido da vida – isso é função da filosofia, da arte, da religião. Trata-se só do mais eficaz, inclusivo, aperfeiçoável e democrático sistema económico que já surgiu – e não uma receita para o êxtase metafísico, ainda que mundano em vez de transcendente. Sim, nem só de pão vive o homem. Mas, como reconheceu Paul Getty, a criatura mais rica do mundo de 1950 a 1976, “É difícil dizer o que traz a felicidade: tanto a riqueza como a pobreza já fracassaram”.
Por falar em dinheiro e britânicos, o Banco da Inglaterra acaba de informar que a efígie de Winston Churchill será removida das notas de 5 libras, substituída por “temas da natureza”, como o ouriço. Num ensaio famoso, Sir Isaiah Berlin comparou a raposa (que “sabe muitas coisas”) ao ouriço (“que sabe uma só, porém muito importante”). Churchill era uma raposa política, porém sabia que na vida há umas coisas mais importantes que outras, e por isso hoje não somos escravos nazis. Mas, enfim, os animais são nossos amigos, e provavelmente Churchill andava com Adam Smith, aquele capitalista.