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(A) :: Em Setúbal nasceu uma paróquia sem terra para cuidar dos migrantes. "Os políticos inspiram-se em ideologias. Nós inspiramo-nos no Evangelho"

Em Setúbal nasceu uma paróquia sem terra para cuidar dos migrantes. "Os políticos inspiram-se em ideologias. Nós inspiramo-nos no Evangelho"

Como qualquer imigrante, o padre Pablo também enfrentou a "angústia dos documentos". Agora, foi desafiado pelo cardeal Américo Aguiar a liderar uma paróquia sem território para acolher os migrantes.

João Francisco Gomes
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João Porfírio
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Em outubro de 2024, acabado de chegar a Portugal, o padre católico mexicano Pablo Velásquez apresentou-se numa Loja do Cidadão para dar início ao processo burocrático relacionado com a sua situação migratória. Os contornos particulares da sua chegada ao país (um padre enviado em missão pela sua congregação religiosa não é um caso típico de migração económica), um erro na documentação e a complexidade da máquina burocrática portuguesa fizeram com que o processo de obtenção de uma autorização de residência se arrastasse durante quase dois anos.

Foram dois anos de desespero burocrático, mas também de preparação interior para a missão inédita que assumiu esta semana: este padre imigrante de 46 anos foi na quinta-feira nomeado pelo bispo de Setúbal, o cardeal Américo Aguiar, como pároco de uma paróquia católica sem território especialmente criada para acompanhar espiritualmente as muitas dezenas de milhares de migrantes que vivem na Península de Setúbal. Por três vezes teve de acordar de madrugada para, antes das quatro da manhã, estar numa fila à porta de uma Loja do Cidadão com o objetivo de tentar obter um número de contribuinte português. Só à terceira conseguiu uma vaga — mas todos esses momentos foram, garante, decisivos para que Pablo se identificasse pessoalmente com a realidade que enfrentam os migrantes em Portugal.

“Vivi, muitas vezes, a angústia dos documentos”, resume Pablo Velásquez ao Observador, numa conversa esta semana na igreja de São João Batista Scalabrini, na Amora, onde ficará juridicamente sediada esta nova paróquia destinada ao acompanhamento dos imigrantes. “É desesperante, é angustiante”, diz o sacerdote, reconhecendo que os migrantes que se encontram numa situação irregular em termos documentais se sentem particularmente “expostos e vulneráveis”, sobretudo se, ao contrário de Pablo — que tinha uma comunidade de religiosos à espera dele para o apoiar —, não tiverem qualquer rede de apoio no país.

Natural de Huatulco — um lugar de praias paradisíacas, surf, turismo e vida boémia no sul do estado mexicano de Oaxaca, encostado ao Oceano Pacífico —, Pablo Velásquez chegou a ter o casamento preparado e ainda se lembra do gelado que a noiva, em lágrimas, atirou ao lixo no encontro em que ele lhe explicou que tinha tomado a decisão radical de procurar Deus. Foi depois de um período de doença que o marcou particularmente. Apesar de ter nascido numa família católica, Pablo não era, nas palavras do próprio, “um rapaz que ia à igreja”. Teve várias namoradas e era um homem da praia e de festas em barcos, mas também de muito trabalho — vendia peixe —, ganhava o próprio dinheiro, estudou administração e contabilidade, sonhava casar, construir uma casa e comprar um carro.

Foi o trabalho que o atirou para uma cama de hospital. Os pulmões sofreram com os quilos de peixe, ora acabado de pescar, muito frio, ora assado, muito quente, que carregava às costas — a diferença de temperaturas provocou-lhe graves problemas pulmonares e obrigou-o a uma lenta recuperação. Durante esse tempo de convalescença, chegou-lhe às mãos um pequeno livro biográfico sobre um bispo italiano do século XIX, Giovanni Battista Scalabrini, e sobra a congregação religiosa que havia fundado, a Congregação dos Missionários de São Carlos, cujos membros são vulgarmente conhecidos como scalabrinianos.

Num daqueles momentos transformadores difíceis de explicar, que surgem habitualmente nas histórias das vocações religiosas, algo mudou em Pablo. “Há aqui alguma coisa estranha”, recorda-se de ter pensado. “Comecei a cair numa espécie de crise. Parei a situação do futuro matrimónio, falei com a minha namorada. Tudo virou completamente.” Procurou contactos de padres daquela congregação e, em agosto de 2003, entrou no seminário scalabriniano. No início, não se meteu naquilo para ser padre, mas “para procurar Deus”. Disse isso à noiva e aos pais: “Não entro para ser padre. Entro porque quero Deus na minha vida. Quero saber quem é Deus.”

Seguiram-se seis anos de estudos no México, com passagens pela Cidade do México e pela fronteira com os Estados Unidos, e a mudança para a Europa, para estudar Teologia em Roma e para um ano de prática pastoral em Portugal, junto da pequena comunidade scalabriniana na diocese de Setúbal. Depois disso, passaria vários anos em África, até ser enviado novamente para Portugal em 2024. Com a nomeação publicada esta quinta-feira, o padre Pablo assumiu uma missão inédita e tornou-se um pároco sem terra, para servir justamente os muitos que, como ele, enfrentaram a “angústia dos documentos” para se fixar em Portugal.

Sair do adro da igreja

A ideia surgiu do cardeal Américo Aguiar, bispo de Setúbal desde 2023. Quando assumiu a liderança da diocese, o cardeal passou um ano a percorrer toda a Península de Setúbal e deu-se conta de que, num território onde muitas partes funcionam como autênticos dormitórios da cidade de Lisboa, “é visível a presença de irmãos e irmãs de populações oriundas de geografias, culturas e religiões diferentes”. Esta realidade é visível, diz Américo Aguiar ao Observador, em situações dramáticas como a dos mariscadores no rio Tejo (atividade ilegal e bastante perigosa em que estão envolvidos centenas de migrantes, vítimas de tráfico humano).

Mas a enorme presença de imigrantes também se observa em realidades diametralmente opostas. “Lembro-me de passar não sei onde e ver as publicidades ao imobiliário em francês”, explica o cardeal, referindo-se aos muitos lugares da Margem Sul do Tejo que começaram a atrair estrangeiros endinheirados para investir em imobiliário. Também na prática religiosa, diz Américo Aguiar, esta realidade já é evidente. O cardeal diz ter testemunhado um exemplo significativo entre os pescadores do Porto de Setúbal, muitos deles também já imigrantes — homens de outras religiões que, apesar de “Nossa Senhora já não lhes dizer nada”, continuam a assegurar tradições piscatórias cristãs como procissões marítimas.

Num território onde vive quase um milhão de pessoas — e onde, diz Américo Aguiar, algumas estimativas indicam que 25% poderão ser imigrantes, valores difíceis de calcular com exatidão devido à situação de irregularidade documental em que muitos acabam por cair —, todos estes fatores contribuíram para que a diocese católica começasse a pensar em soluções para acompanhar estas pessoas. “Pensámos: o que é que podemos fazer? Nós temos o secretariado dos migrantes, dedicado à pastoral dos migrantes, mas pareceu-me que tinha de fazer qualquer coisa fora da caixa. Temos de arriscar e inovar, mesmo que corra mal. Se correr mal, tentámos. Se correr bem, é o Espírito Santo que diz”, explica o cardeal. “Surgiu a ideia de pedir aos scalabrinianos, porque é o carisma deles, a missão deles, que pudéssemos criar aqui uma espécie de paróquia pessoal. Ou seja, que houvesse um sacerdote, com o secretariado dos migrantes, que pudesse estar a tempo inteiro para ir ao encontro das pessoas.”

A solução encontrada foi uma “paróquia pessoal” — uma solução inédita em Portugal e rara no mundo —, ou seja, uma paróquia que não é definida pelo território geográfico, mas pelo território humano: serão potenciais “paroquianos” do padre Pablo todos os imigrantes que vivem na diocese de Setúbal. Américo Aguiar garante que o objetivo não é retirar paroquianos a outras paróquias: se um imigrante se integrou em determinada comunidade e ali estabeleceu os seus hábitos, não deve abandonar essa paróquia para se juntar à do padre Pablo. Pelo contrário, defende o bispo, a ideia é justamente criar condições para que, com o tempo, e à medida que o imigrante deixa de se sentir imigrante, todos os que quiserem possam integrar-se nas paróquias mais próximas das suas casas. Pelo caminho, a nova paróquia não territorial quer “criar provisoriamente um chão sagrado” para todos aqueles que não se sintam integrados em nenhuma comunidade da Igreja e queiram aproximar-se — ao mesmo tempo que procurará promover iniciativas destinadas à comunidade migrante na diocese, em parceria com os serviços centrais da diocese e com as paróquias dos locais onde vivem os migrantes.

“O Papa Francisco dizia sempre que o principal caminho para perdermos o medo de quem é diferente é conhecermos, não é? Eu sei que as pessoas têm medo de nós e nós temos, porventura, medo delas. Quando nos vêem aproximar, julgam que somos agentes do Estado, que os vamos denunciar, têm medo”, conta Américo Aguiar. “E nós temos medo. Às vezes dizem-me que ali para Pegões, onde há mais agricultura, as pessoas dizem ter medo daqueles homens que têm turbantes e que falam uma língua estranha.”

Para começar este projeto, o cardeal voltou-se para o secretariado diocesano das migrações, um departamento da diocese de Setúbal recentemente reativado que se dedica justamente ao acompanhamento espiritual e humano da realidade das migrações na península de Setúbal, e para a congregação dos padres scalabrinianos, residentes na Amora há várias décadas, e que têm missões de apoio aos migrantes em todo o mundo.

A Amora é uma espécie de centro espiritual para as questões das migrações, não só ao nível da diocese de Setúbal, mas também a nível nacional. O pároco, o padre brasileiro Geraldo Finatto, também scalabriniano, era até agora o assistente do secretariado diocesano das migrações, cargo no qual vai ser substituído pelo padre Pablo. E a diretora nacional da Obra Católica das Migrações, Eugénia Quaresma, que tem sido a principal voz da Igreja Católica quando o tema são os imigrantes, é também natural dali — da Amora e do ambiente de multiculturalismo que caracteriza a comunidade scalabriniana.

"O Papa Francisco dizia sempre que o principal caminho para perdermos o medo de quem é diferente é conhecermos, não é? Eu sei que as pessoas têm medo de nós e nós temos, porventura, medo deles. Quando nos vêem aproximar, julgam que somos agentes do Estado, que os vamos denunciar, têm medo."
Américo Aguiar, bispo de Setúbal

Tânia Moreira, a atual coordenadora do secretariado diocesano das migrações de Setúbal, é igualmente natural da Amora. Nascida em Portugal, filha de imigrantes cabo-verdianos que chegaram ao país na década de 1970, Tânia cresceu na paróquia da Amora e com os padres scalabrinianos — congregação que ela própria viria a integrar, na vertente leiga da comunidade. Os padres scalabrinianos instalaram-se na Amora nos anos 70, conta Tânia Moreira, recordando que a congregação chegou ali ainda antes de Setúbal ser uma diocese independente (na altura, pertencia ainda ao Patriarcado de Lisboa, tal como a atual diocese de Santarém). Portugal enfrentava, na altura, um enorme fluxo migratório, especialmente motivado pela guerra e pelo processo de descolonização — e a Margem Sul do Tejo foi o lugar onde muitos dos retornados acabaram por construir os seus bairros. A Amora destacou-se pelos “muitos bairros e também pela proximidade a Lisboa” e, na altura, o patriarca de Lisboa convidou os missionários scalabrinianos a instalarem-se no território e assumirem o cuidado pastoral dos migrantes.

Desde que a diocese de Setúbal começou a ter um secretariado para as migrações, este departamento diocesano tem quase sempre funcionado a partir daquele caldo cultural particular, com sacerdotes scalabrinianos envolvidos no trabalho da equipa.

Por isso, defende Tânia Moreira, fazia todo o sentido que este novo projeto também funcionasse a partir dali. Uma vez que uma paróquia, mesmo que seja pessoal, precisa de ter uma sede para efeitos jurídicos, a igreja dedicada a São João Batista Scalabrini, uma das quatro igrejas da paróquia da Amora, vai ser a sede desta nova circunscrição. Mas o padre Pablo não deverá passar muito tempo no cartório: o objetivo é que percorra todo o território da diocese de Setúbal em busca de formas de ser útil à comunidade imigrante. Praticamente todas as perguntas sobre o modo como vai funcionar a paróquia ficam, para já, sem resposta, quer do pároco, quer da coordenadora do secretariado das migrações, quer do cardeal Américo Aguiar, que explica que, devido ao formato inédito, vai ser preciso “aprender no caminho”.

Tânia Moreira reconhece que, desde que a intenção de criar esta paróquia foi anunciada, surgiram algumas críticas, particularmente assentes na preocupação de que o objetivo de uma paróquia sem território para reunir os imigrantes tivesse como resultado o oposto do que pretende: o desenraizamento dos migrantes, retirando-os dos locais onde atualmente já possam estar integrados.

A coordenadora rejeita categoricamente. “Os que estão integrados estão integrados. Mas e aqueles que não estão? Aqueles que estão à margem? Quem é que chega até eles? É uma questão de abrirmos as portas, de sairmos do adro da igreja, de termos uma ação que vai além daqueles que já cá estão integrados e empenhados”, defende a responsável. “Chegar àqueles que não têm visibilidade, que ninguém vê, que têm dificuldades, que não conseguem chegar até nós. Não vamos dizer ‘os imigrantes que estão na paróquia do Montijo deixam de ir lá à missa e passam a vir à missa na Amora’ ou ‘os imigrantes que estão na paróquia da Costa da Caparica, se quiserem casar, têm de ir casar à paróquia da Amora’. Não tem nada a ver com isto. Os que estão integrados estão e fazem o que têm a fazer. Mas, se calhar, alguns têm alguma dificuldade em alguma zona, não conseguem resolver as suas questões ou precisam de algum tipo de acompanhamento. Se calhar, o padre que está ali na zona não fala inglês e eles não conseguem comunicar com o sacerdote. Se calhar, conseguem aproximar-se do padre Pablo, que consegue ir ter com eles e acompanhá-los.”

Sublinhando que a Amora é um “laboratório” de multiculturalismo, Tânia Moreira lembra como aquela paróquia já funciona, na prática, como um projeto de acompanhamento dos imigrantes. Há missas especiais organizadas pelas várias comunidades, com cânticos e tradições de vários países; há festas para celebrar os padroeiros de outros países; há almoços e convívios com as cerca de 70 nacionalidades que ali residem — e há muitos imigrantes de toda a diocese que já procuram na paróquia da Amora um lugar onde se integrar. O objetivo é que esta forma de acompanhamento espiritual dos migrantes possa, agora, expandir-se a toda a diocese. “Passa a haver alguém que está exclusivamente dedicado a esta questão, que consegue estar no terreno, que consegue fazer um trabalho de proximidade”, destaca Tânia Moreira, afirmando que esse trabalho de proximidade pode assumir várias dimensões: desde o acompanhamento espiritual e humano até à resolução de problemas burocráticos, tanto dentro da estrutura da Igreja (para um migrante que não esteja integrado em nenhuma comunidade, esta pode ser a sua paróquia para efeitos jurídicos relacionados com casamentos, por exemplo) como fora (a paróquia pode funcionar como rede de suporte para um migrante que necessite de ajuda nas questões da burocracia estatal).

"Os que estão integrados estão integrados. Mas e aqueles que não estão? Aqueles que estão à margem? Quem é que chega até eles? É uma questão de abrirmos as portas, de sairmos do adro da igreja, de termos uma ação que vai além daqueles que já cá estão integrados e empenhados."
Tânia Moreira, coordenadora do secretariado diocesano das migrações em Setúbal

“O objetivo é potenciar ainda mais o trabalho da pastoral dos migrantes”, sustenta Américo Aguiar. “O primeiro objetivo é ter um sacerdote em full-time para esta função. Em segundo lugar, quando acontecer que se coloque a questão de uma pessoa ser batizada ou se casar, entra aqui a vantagem da paróquia pessoal. A burocracia necessária é tratada por esta paróquia.” O cardeal frisa que, “mais do que criar problemas e burocracias, o objetivo é criar uma via verde, com um padre, para estas pessoas; mais do que qualquer coisa, que sintam, das mais diversas formas, que há neste território um sacerdote dedicado a ouvi-los, a acudi-los e a acompanhá-los”.

Com a ideia definida e o local escolhido, o passo seguinte para o cardeal Américo Aguiar foi a nomeação de um pároco. O bispo de Setúbal confiou a missão de coordenar esta nova paróquia aos padres scalabrinianos e, por isso, a decisão final sobre quem seria o pároco coube ao superior da congregação. No fim de contas, foi escolhido Pablo Velásquez, de 46 anos. Américo Aguiar não esconde que o facto de este sacerdote ter, além de uma longa experiência pastoral relacionada com as migrações, uma experiência pessoal com a realidade de ser imigrante em Portugal o ajuda a compreender aquilo por que passam estas pessoas. “O padre Pablo também já tem no cadastro a experiência dos papéis”, ri-se o cardeal. “Ele próprio, para ter o cartão de residência, passou as passas do Algarve.”

Do campo de refugiados em Moçambique para Setúbal

No interior da enorme igreja dedicada a Scalabrini, um templo de arquitetura moderna, muito branco e de linhas direitas, o padre Pablo Velásquez insiste que, à saída, não percamos a oportunidade de apreciar o painel de azulejos por cima da porta principal da igreja: mostra São João Batista Scalabrini, o bispo italiano que fundou a congregação dos scalabrinianos no século XIX, rodeado de pessoas com malas às costas. Ao fundo, um enorme navio a vapor é o derradeiro símbolo da grande vaga migratória da Europa para a América Latina dos séculos XIX e XX, que levou, por exemplo, tantos italianos para a Argentina (como foi o caso da família do Papa Francisco).

O padre Pablo conta-nos a história de Scalabrini, um clérigo italiano nascido em 1839. Scalabrini era bispo de Piacenza quando, no final do século XIX, decidiu que tinha de fazer alguma coisa pelos milhões de italianos que continuamente abandonavam o país em busca de oportunidades no continente americano. A estação de comboios de Milão ainda hoje é profundamente simbólica para os padres scalabrinianos, explica Pablo: foi ali que, ao ver centenas de italianos de malas feitas prontos a embarcar para Génova, onde deveriam apanhar os navios para os Estados Unidos, sentiu um aperto no coração que o impeliu a agir.

“Foi isso que incrementou mais o desejo de fundar esta congregação que foi espalhando missionários na Argentina, no Brasil e nos Estados Unidos”, recorda Pablo. Primeiro focada em apoiar espiritualmente os italianos que chegavam ao continente americano e se viam sem qualquer ligação às suas raízes e tradições, a Congregação dos Missionários de São Carlos Borromeu tornou-se, com o tempo, um dos principais braços da Igreja Católica para ajudar os migrantes por todo o mundo. Scalabrini foi canonizado em 2022 pelo Papa Francisco e é venerado pela Igreja Católica como padroeiro dos migrantes. É assim que é lembrado à porta desta igreja na Amora, como “pai dos migrantes”, e será também o padroeiro desta nova paróquia.

“A nossa congregação deixou de ser exclusivamente para italianos, abriu as portas a todas as etnias do mundo e agora estamos em 35 países”, diz o padre Pablo, que desde os tempos da sua formação tem passado por vários pontos de forte tensão migratória em todo o mundo. Logo no noviciado e no postulantado, passou por Nuevo Laredo, no estado mexicano de Tamaulipas, uma cidade dividida a meio pela conturbada fronteira EUA-México. Em Roma, acrescentou aos seus estudos de filosofia e teologia uma licenciatura em pastoral da mobilidade humana, precisamente para se capacitar para lidar com o complexo drama das migrações.

Dali, foi enviado para a África do Sul. Na Cidade do Cabo, foi capelão da comunidade italiana e trabalhou numa paróquia local. Em Joanesburgo, foi vigário do arcebispo para a questão dos migrantes e refugiados. Ali, num dos locais de África onde há mais imigrantes, sentiu ainda as feridas por sarar do apartheid e da jovem democracia — e percorreu toda a região para escutar os dramas e as alegrias dos migrantes e refugiados e para os levar não só para a catedral, mas também para as reuniões com o governo e com a Interpol, onde representava a Igreja. Viu de perto o drama do tráfico humano, particularmente das “meninas que são compradas, vendidas e roubadas noutros países africanos e inseridas no âmbito da prostituição”.

"É muito bom sentar num restaurante e pedir um bom peixe, mas não sabemos a história que está por trás. Vamos ao supermercado e compramos as melhores frutas, bebemos abundantemente o vinho, mas não sabemos o que está por trás. Vemos a exploração no Alentejo de tantos trabalhadores agrícolas."
Padre Pablo Velásquez, pároco da nova paróquia dos migrantes de Setúbal

Em 2019, Pablo foi enviado pelos seus superiores para Moçambique, onde, durante dois anos, trabalhou como missionário no campo de refugiados de Maratane, nos arredores de Nampula. O campo, gerido por um conjunto de parceiros internacionais que inclui o ACNUR, a Unicef e a Cruz Vermelha, acolhe cerca de 12 mil refugiados oriundos de todo o tipo de de guerras no continente africano — particularmente, nos últimos anos, da província moçambicana de Cabo Delgado, assolada pelos ataques jihadistas. Pablo andou pelo mato, em busca das aldeias mais afetadas, para distribuir alimentos e para prestar apoio espiritual. No campo, os missionários — internacionalmente suportados pela agência scalabriniana que concebe, financia e implementa projetos de desenvolvimento por todo o mundo — coordenavam projetos educativos, de saúde e de acompanhamento espirituais.

Depois de Moçambique, Pablo regressou a Roma e voltou a estudar. Fez um mestrado em neurociência e psicologia. Queria, diz, olhar mais fundo para o interior dos migrantes e refugiados. “Podemos providenciar comida, documentos, casa e formação. Podemos oferecer todos os serviços a esta pessoa. Mas se não curamos, se não tratamos a questão dos seus traumas, podemos ter todos os meios que não serve de nada”, destaca. “Aprendi isso com a prática.”

Finalmente, em outubro de 2024, Pablo foi enviado para Portugal. A primeira missão que lhe foi atribuída foi a gestão do seminário Scalabrini, casa de formação dos padres scalabrinianos na Amora que atualmente não tem seminaristas, mas que é usada como base para muitos projetos sociais da congregação e da diocese — e cujos muitos quartos o padre Pablo diz querer aproveitar para contribuir para o alojamento de estudantes universitários, contribuindo para mitigar os elevados custos da habitação na zona da Grande Lisboa.

Desde que o decreto de criação da nova paróquia pessoal para os migrantes foi publicado, em março de 2025, que o cardeal Américo Aguiar e a congregação dos scalabrinianos procuravam o sacerdote com o melhor perfil para assumir a missão. A escolha recaiu sobre o padre mexicano, que diz ainda passar algumas noites a pensar na melhor forma de levar o projeto avante. “Gosto de estar em proximidade com as pessoas, não sou um padre de estar no escritório”, diz, sublinhando que quer entrar nos prédios, conversar com as famílias e conhecer a realidade dos migrantes que vivem na Península de Setúbal, particularmente africanos, brasileiros e nos últimos anos também indostânicos. Diz que gosta de passar pelas barbearias, onde se reúnem muitas vezes vários imigrantes e onde garante que aprende muito sobre a realidade dos migrantes em Portugal, para além do que está à superfície.

Pablo reitera que o seu único plano, para já, é a proximidade às realidades que por vezes passam despercebidas, sobretudo na pesca e na agricultura. “É muito bom sentar num restaurante e pedir um bom peixe, mas não sabemos a história que está por trás. Vamos ao supermercado e compramos as melhores frutas, bebemos abundantemente o vinho, mas não sabemos o que está por trás. Vemos a exploração no Alentejo de tantos trabalhadores agrícolas”, conta o padre. “Ninguém fala destes dramas porquê? Hoje a realidade do mundo é assim. Estamos todos na nossa zona de conforto. Acho que isso também é um desafio para a Igreja local.”

O sacerdote quer estar disponível a tempo inteiro para percorrer a região e perceber as histórias que possam estar a escapar ao radar. “Não é com o fim de fazer proselitismo religioso. O mais sagrado é a dignidade humana”, diz, reconhecendo que nem todos os migrantes são cristãos, mas que estão todos dentro do âmbito de ação desta paróquia. Quando for necessário um acompanhamento espiritual cristão, Pablo estará lá para isso — e o facto de estar formalmente constituída uma paróquia facilitará as questões —, mas quando for preciso ajudar com a integração social e até com documentos, a paróquia está de portas abertas a crentes e não crentes.

Sobre o funcionamento concreto da paróquia, ainda há mais perguntas do que respostas. Haverá missas regulares? Catequese para crianças? Movimentos? Pablo Velásquez diz que os primeiros meses vão ser para escutar e perceber o que é preciso. “Muitos imigrantes já estão integrados em certas comunidades, fazem parte do coro, da catequese, estão aí. Ótimo, não vou alterar isto. O meu desejo é ter contacto com eles”, diz o sacerdote, garantindo que o objetivo não é criar uma igreja paralela. “Se eles pedirem: padre, já que há uma paróquia para os imigrantes, temos este desejo, este programa, este projeto, aí sim.”

O sacerdote deixa também em cima da mesa a possibilidade de dar resposta a necessidades litúrgicas por todo o território da diocese, promovendo a celebração de missas em diferentes línguas nos lugares onde essa necessidade for identificada, promovendo encontros de catequese ou de preparação para o crisma noutras línguas e em horários e locais compatíveis com as vidas dos migrantes.

Um projeto contra a desinformação sobre os migrantes

Américo Aguiar, Tânia Moreira e Pablo Velásquez hesitam na resposta a uma pergunta do Observador: num tempo em que o aumento do discurso anti-imigração tem sido promovido pelo partido que mais vezes recorre à defesa dos valores cristãos como argumento eleitoral — o Chega —, esta paróquia é também um sinal político que a Igreja quer passar?

“É uma maneira de respondermos aos problemas das pessoas, ponto”, vinca Américo Aguiar. “O que nos interessa são as pessoas, cada pessoa com a sua realidade.”

Mas a Igreja não ignora que este discurso existe no espaço público, insistimos. “Não ignora, como é óbvio. O que vemos e ouvimos não podemos calar. É verdade. Esta é uma terra de muita tradição na promoção e defesa da dignidade da pessoa humana. Não é à sorte que tivemos um bispo vermelho”, responde Américo Aguiar, referindo-se ao bispo Manuel Martins, que liderou a diocese de Setúbal entre 1975 e 1998 e ficou conhecido como “bispo vermelho” pelo modo como denunciou as situações de injustiça social na Península de Setúbal, colocando-se do lado de trabalhadores em protesto e chamando a atenção para a fome, o desemprego, o trabalho infantil e a miséria das barracas.

Sublinhando que há vários anos que a paróquia da Amora tem vindo a fazer um trabalho de defesa e promoção dos migrantes, Américo Aguiar insiste que o objetivo deste novo projeto é aprofundar a capacidade da Igreja de responder aos dramas de cada pessoa. “Um dos problemas da república e da democracia, nos tempos que vivemos em Portugal, na Europa e no mundo, é que por vezes os discursos, os debates e as problemáticas parlamentares e político-partidárias não estão a responder aos problemas reais das pessoas — e as pessoas desligam.”

Considerando que não lhe cabe responder aos pronunciamentos políticos dos partidos, Américo Aguiar sublinha que a paróquia foi criada para “dar resposta àquelas pessoas e não propriamente ao partido A, ao partido B ou ao partido C”.

A coordenadora do secretariado diocesano das migrações concorda que a prioridade dos cristãos deve ser “testemunhar e viver a fraternidade e o acompanhamento” dos migrantes, em vez de “semear a discórdia, o ódio e a discriminação” — mas garante que no centro deste projeto estão as pessoas, não um posicionamento político.

Para o padre Pablo, a resposta a esta questão é simples: “Os políticos inspiram-se em ideologias políticas. Nós inspiramo-nos no Evangelho. Se pergunta se estamos a dar uma resposta contra uma política, podemos dizer que não. O que queremos é dar uma resposta às necessidades, aos desafios que o fenómeno migratório está a lançar hoje, inspirados, não em políticas, mas no Evangelho.” Mas o Evangelho é compatível com a exclusão dos migrantes? “Não”, responde perentório o sacerdote, recordando as palavras do presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, o bispo José Ornelas, acerca deste assunto: “Aquele que exclui, aquele que aceite esse tipo de política, de rejeição contra os migrantes, não é católico, não é cristão.”

O sacerdote está, porém, particularmente preocupado com um desafio: a desinformação sobre os migrantes. “Há, hoje, uma narrativa negativa espalhada no mundo inteiro sobre o fenómeno migratório. O primeiro desafio que encontro é já a desinformação, que muitos políticos estão a explorar para manipular e dar uma ideia diferente do que são os migrantes”, lamenta o padre Pablo, que já tem em mente um primeiro projeto para a paróquia: “Acho que vamos considerar seriamente uma campanha de boa informação.”