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(A) :: A épica história da nossa banalidade

A épica história da nossa banalidade

Até hoje, vivemos preocupados com o que deixar; talvez esteja na hora de começarmos a pensar precisamente no oposto: o que apagar.

Alexandre Borges
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É um pensamento recorrente. Volta, não volta, ali fico especado diante do faraónico arquivo que cada um de nós tem hoje da respectiva vida: textos, áudios, filmes, fotografias. Em 2026, o mais anónimo habitante do planeta tem a sua voz e imagem registadas em mais horas de vídeos e sons, a forma como ri, chora ou se move, o que pensa, aonde foi, os seus feitos e conseguimentos, do que qualquer figura histórica até, pelo menos, os anos 80 do século passado. O Zé Paulo está muito mais documentado do que Napoleão. A Soraia Marisa tem mais retratos do que a princesa Diana. Há mais testemunhos registados das aventuras do Toni no skate e no desafio do Paracetamol do que de Marco Polo, Vasco da Gama ou James Cook. A Natália Cristina, que nos fala de Vila Pouca, já publicou mais poemas e pensamentos em vida do que Kafka ou Rilke.

No futuro, será cada vez mais fácil fazer documentários sobre a vida das grandes figuras e mais difícil distingui-las das absolutamente banais. Até porque se dá o caso, como certamente já notou, de que quanto mais se revela, mais vulgar se torna, porque se sai da esfera do que nos diferencia para entrar na grande massa do que nos torna todos iguais. A nossa biografia, enfim, não deve ser rápida nem óbvia como um striptease, nem crua como uma autópsia, encomendada a um médico legisla ou investigador forense. Até hoje, vivemos preocupados com o que deixar; talvez esteja na hora de começarmos a pensar precisamente no oposto: o que apagar.

Desta vez, veio o pensamento a propósito do seguinte caso: segunda-feira, no estado norte-americano do Utah, a autora de um livro infantil sobre como lidar com a morte do marido e pai dos filhos foi condenada pelo homicídio do desgraçado. Como, às vezes, é difícil escapar imune aos cínicos tempos que vivemos, confesso-lhe que, antes de qualquer conclusão moral, comecei por admirar: sim, senhora – que audácia! Depois, porém, torna-se difícil escolher por que razão merece mais Kouri Richins os 25 anos a perpétua que a aguardam: se pelo crime, se pela estupidez.

Kouri, 35 anos, agente imobiliária com dívidas de 4,5 milhões de dólares, foi acusada de matar o marido na convicção errada de que, assim, herdaria o património imobiliário deste, avaliado em mais de 4 milhões. Envenenou-o com cinco vezes a dose letal de fentanil posta num cocktail que lhe serviu, ao final de um banal dia de Março de 2022, depois de uma primeira tentativa falhada, dessa vez com uma sandes que apenas fez Eric desmaiar, no Dia dos Namorados. Oh, o amor louco. Um ano depois, publicou o livro Are You With Me? (“Estás Comigo?”), dedicado a Carter, Ashton e Weston, os três filhos do casal. Numa entrevista a uma televisão local, explicou, então, que, como não encontrava “a história certa para lhes contar à noite”, decidiu escrevê-la ela própria.

A defesa optou por não falar ou chamar qualquer testemunha, convencida de que seria impossível provar a culpa de Kouri. Mas o que seria válido no tempo de D. João VI e D. Carlota Joaquina, não se aplica em 2026 – e o tribunal lá chamou um “analista digital forense”, espécie contemporânea de deus omnisciente, a quem bastou acesso ao smartphone da viúva.

Estava lá tudo: os múltiplos seguros de vida feitos sem o conhecimento do marido, as pesquisas na internet por “qual a dose letal de fentanil?”, “se alguém é envenenado, o que aparece na certidão de óbito?” ou até “prisões de luxo para os ricos na América”; as mensagens trocadas com o amante acerca dos planos para deixar o marido e ganhar milhões e, oh, infâmia, com o irmão, indiciando que o livro foi, na verdade, escrito por um ghostwriter, quando custaria isso e quanto poderiam ganhar com as vendas. Em tribunal, foram mostradas também as imagens das câmaras de segurança em casa dos Richins na noite do crime e a gravação da chamada telefónica de Kouri para o 112 local.

Não é preciso andar a pensar cometer um crime – há por aí tanta poesia que merecia, ao menos, uns 15 dias de multa. Que ideia teríamos de Pessoa se, em vez de uma arca com escritos, tivesse deixado um PC inteirinho, com o histórico da internet, as pesquisas do Google, as versões eliminadas do Guardador de Rebanhos, os tweets no tempo em que ainda não tinha percebido quem Salazar era ou os lives naquelas noites de bebedeira com a malta do Orpheu?

Apagar. Comece a pensar no que apagar. Deixe duas ou três fotografias, como os nossos avós, aquelas para as quais botavam a roupa nova, de domingo. E deixe que a memória e a fantasia de quem fica componha o resto, que é sempre mais bonito.

De resto, aqui fica, antecipadamente, a nota: qualquer coisa estranha que um dia me encontrem no histórico, era tudo pesquisa jornalística. Obviamente.