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Gabriela Cabezón Cámara: "Dizem-nos que todos os argentinos vieram dos navios, que somos como europeus. Rio-me sempre"

"As Meninas do Laranjal", o mais recente livro da escritora argentina, nomeado para o International Booker, fala sobre transformação e a necessidade que temos dela. Falámos com a autora.

Rita Cipriano
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Gabriela Cabezón Cámara foi recentemente nomeada para o International Booker Prize. É a sua segunda nomeação para o importante prémio de ficção traduzida para inglês. Quando lhe perguntámos como se sentia, respondeu simplesmente: “Sortuda. Sinto-me sortuda”. Para a escritora argentina, existe claramente um antes e um depois da primeira nomeação em 2017, com o romance The Adventures of China Iron, que despertou a atenção de editoras em diferentes países e levou a que o seu trabalho fosse traduzido em mais de dez línguas.

A essa longa lista de línguas juntou-se agora o português. No início de março, chegou às livrarias a tradução portuguesa do romance, As Meninas do Laranjal, pela editora Elsinore. O livro, o mais recente da escritora, recupera a história do soldado e explorador António de Erauso. Nascido Catalina de Erauso, no País Basco, António fugiu do convento onde fora colocado em criança e refez a sua vida na América do Sul, onde revelou reunir em si todos os defeitos do século de ouro espanhol. A sua vida, que se fez em vários países sul-americanos entre um ou outro homicídio, serviu à autora para abordar temas como o colonialismo, o genocídio dos povos indígenas e questões ambientais. Porque, para Gabriela Cabezón Cámara, o “fim do mundo” não começou agora, mas com a conquista dos territórios não-europeus pelos europeus.

Falando a partir de uma pequena aldeia no Uruguai, onde a rede era “fraca” e falhava constantemente, Gabriela Cabezón Cámara lembrou o primeiro encontro com a história surpreendente de António de Erauso, o seu amor pela literatura e cultura indígenas e o violento preconceito de que os povos originais são alvos na Argentina, um país onde o racismo está tão enraizado que ninguém questiona a sua existência. E deixou um aviso: “Nesta distopia em que vivemos, temos de nos encontrar uns aos outros. É urgente”.

O seu mais recente romance, As Meninas do Laranjal, é baseado na figura de António de Erauso, nascido Catalina de Erauso, durante o século de ouro espanhol. Como é que descobriu esta história?
Uma vez, estive apaixonada. Foi há 25 anos.

Espero que não tenha sido só dessa vez…
Não, não. Estive apaixonada duas ou três vezes. Mas, há 25 anos, fui a casa dela [da mulher por quem estava apaixonada] e vi um quadro na parede. Era uma pintura de um homem vestido com uma armadura e com uma lança na mão, prestes a matar outra pessoa, que estava deitada aos seus pés. Essa pessoa era um mapuche e havia algo escrito na pintura. Dizia: La monja alférez [“A freira alferes”]. Fiquei muito espantada, porque não conseguia ver a freira [no quadro]. A freira não podia ser o mapuche que estava no chão, porque era um mapuche e estava vestido como os mapuches se costumavam vestir. A freira tinha de ser o homem de armadura. Não sei se pesquisei no Google ou se havia Google há 25 anos [o popular motor de busca foi lançado no final do 1998], mas sei que fiz algum tipo de pesquisa na Internet e descobri a sua autobiografia. Li-a e fiquei ainda mais espantada. Já leu a autobiografia?

Não, mas fiquei com muita curiosidade.
É selvagem. É louca e selvagem, mas não num bom sentido. É um livro de frases curtas e  todas as frases descrevem algum tipo de ação. Não existe reflexão, não existem sentimentos. Ele limita-se a dizer o que fez, e o que ele fez foi, quase sempre, horrível. Apesar disso, é muito interessante, porque ele conseguiu fugir de um convento, ser um homem em Espanha, um homem na América do Sul. Fez o que queria fazer. Ele diz muitas vezes que queria ir e vir livremente, e ele fê-lo. Foi e veio, foi e veio… Li o livro e pensei: “Que pessoa mais maluca” e pu-lo de lado. Muitos anos depois, não sei, talvez uns 18 anos, estava a falar com a minha editora em Buenos Aires e disse-lhe que queria escrever alguma coisa, mas que não sabia bem o quê. Estava deslumbrada com a beleza da selva, o horror e sofrimento causados pelos fogos geológicos na Amazónia e profundamente apaixonada pela filosofia indígena. E ela disse-me: “Não te lembras que estavas interessada em António de Erauso?”. Naquele momento, fez-se luz dentro na minha cabeça e percebi que aquela personagem podia ser uma espécie de catalisador para [escrever sobre] todas as coisas que estavam a passar por mim. Então, disse: “Ok, vou começar a escrever sobre António de Erauso”. Ele também me interessava porque era flexível. Primeiro foi uma “ela”, depois um “ele” e depois um soldado. Mudou de nome centenas de vezes, e isso é muito interessante.

"Conheci a beleza da natureza através da terra dos guaranis. São pessoas do rio, da selva, pessoas muito bonitas. Agora são forçados a viver vidas miseráveis porque lhes roubaram as terras, a cultura. Querem que falem espanhol, que estejam bem com o facto de viverem vidas miseráveis. Têm uma taxa de suicídio muito alta, é uma das mais altas do mundo. Mas são pessoas que resistem."

No romance, ele muda quando precisa. Adapta-se a cada situação.
Sim. Também volta a ser uma mulher quando estão prestes a matá-lo. Ele pode mudar e mudar…

A maneira como ele se comporta é muito moderna.
Sim. De certa maneira, as pessoas que vieram para a América e cometeram o genocídio [dos povos indígenas] encontraram a possibilidade de serem outras pessoas, de mudarem de uma maneira que não era possível na Europa daquele tempo; de serem outras pessoas, de criarem uma nova identidade e de terem um novo estatuto [social].

António diz, em vários momentos, que era nobre em Espanha, mas na América do Sul estava muito longe de ter esse estatuto.
Ele era nobre em Espanha, mas era uma freira. Não tinha a possibilidade de fazer nada a não ser rezar e cantar. Não sei muito bem o que as freiras fazem… Talvez cozinhar, rezar e rezar outra vez…

Apesar da personagem principal de As Meninas do Laranjal ser uma mulher que se assume como homem, este não é um livro sobre género, mas sobre conquista, colonialismo, racismo e, também, sobre religião.
É um livro sobre transformação, acima de tudo, mas também fala sobre todas essas coisas que mencionou — essas coisas horríveis. Mas é também sobre transformação, ternura e alguns princípios da filosofia dos povos ameríndios, a natureza… É sobre fazer parte da natureza e a natureza não ser apenas um cenário, mas vida.

E também sobre reencontrar um lugar na natureza? António de Erauso é um produto da época de ouro espanhola – é violento e preconceituoso em relação aos povos indígenas –, mas a sua perspetiva muda assim que entra na selva.
Ele percebe que existe mais do que uma perspetiva — que existem várias —, que existem vários mundos e que o seu mundo e a sua perspetiva não eram muito bons.

Ele é empurrado para essa conclusão pelas perguntas de uma das meninas índias das quais cuida, que está sempre a perguntar “porquê”.
É um método que as crianças têm para nos ajudarem a perceber que a maneira como pensamos e vivemos é apenas uma de várias. Ele é alvo desse questionamento e também é afetado pelo ato de cuidar dos outros. Os guaranis estão por perto, tomam conta dele e ele toma conta [das meninas índias]. Quando sente este afeto, começa a questionar porque é que o recebe e se houve alguém que cuidou dele. É então que começa o processo de transformação.

Falou da filosofia dos povos indígenas, que está muito presente neste livro. Como é que surgiu esse interesse?
Vivo na Argentina, na América do Sul. Conheci a beleza da natureza através da terra dos guaranis. São pessoas do rio, da selva, pessoas muito bonitas. Agora são forçados a viver vidas miseráveis porque lhes roubaram as terras, a cultura. Querem que falem espanhol, que estejam bem com o facto de viverem vidas miseráveis. Têm uma taxa de suicídio muito alta, é uma das mais altas do mundo. Mas são pessoas que resistem. Vivem à maneira deles, ainda hoje.

Ser argentino é ser educado na cultura ocidental. Temos uma forma estranha de racismo, que consiste em negar a existência dos outros. Dizem-nos que todos os argentinos vieram dos navios, que somos como europeus, europeus exilados. Rio-me sempre quando oiço isso e digo: “OK, então volta para Berlim, Londres ou Madrid e diz: ‘Olá, irmãs e irmãos, voltei’. Vão receber-te de braços abertos, vão ficar felizes”. Ensinam-nos que fazemos parte desse universo, mas não fazemos. Somos outro tipo de pessoas, mas o quê? Não somos ameríndios. Pertencemos a essa tradição ocidental, mas também pertencemos a este território e às culturas que aqui estão.

Estou muito preocupada, sabe? Estamos a viver num mundo muito distópico, e essa distopia foi criada pela cultura ocidental, pelas nações ocidentais. Temos de encontrar outra forma de viver e alguma forma de sobreviver. A filosofia ameríndia pode ser boa para isso. É outra forma de pensar a vida. Não somos uma espécie de extraterrestres e o resto da vida na Terra são apenas recursos — e recursos infinitos. Não são infinitos. Não são recursos. Fazemos parte da vida na Terra, tal como os coelhos, os peixes e os arbustos. É muito importante percebermos isso antes que seja tarde de mais, se é que já não é tarde de mais. Por outro lado, os povos ameríndios sobreviveram a vários apocalipses e, se calhar, sabem como fazê-lo. Têm estas tradições bonitas, esta literatura oral, e sabem como viver sem destruir a vida. Caçam, mas caçam apenas um animal, não todos os animais; deitam abaixo uma árvore, mas não a selva inteira. Só tiram aquilo de que necessitam. A nossa própria consciência está sob ameaça nos dias de hoje. Vivemos na concha da IA [Inteligência Artificial] e temos de resistir a isso. Temos de nos encontrar uns aos outros, caminhar sob as árvores, sentir a beleza da vida. Outro problema da tradição ocidental é que tudo em que toca fica mais pobre. Matam muito e tornam tudo mais feio. Também temos direito à beleza. Não sei, precisamos desesperadamente de encontrar outra forma de pensar.

Na Argentina, não se reflete sobre estes temas, o racismo, o colonialismo e o seu impacto?
Não é o tipo de assunto que é objeto de debate público. A ideia que prevalece é que somos todos mais ou menos brancos e as pessoas que viviam aqui antes de nós eram selvagens. Os espanhóis apareceram e deram-nos cultura e Deus. Temos pessoas que pensam sobre isto, mas não são muitas.

A maioria das pessoas acha que o que os espanhóis fizeram foi uma coisa boa?
Sim, foi uma coisa que teve de ser feita. Mas não foi só Espanha [que o fez]. O nosso Estado foi construído através do genocídio. Quando conseguimos enviar os espanhóis de volta para Espanha e ser livres, o Estado argentino matou todos os ameríndios que conseguiu para lhes ficar com as terras e criar quintas que eram tão grandes quanto os países europeus.

Atualmente, onde é que vivem as comunidades indígenas na Argentina?
Vivem em todo o lado, mas existe um grande movimento de resistência na Patagónia. Os mapuches também se estão a organizar no norte. É uma luta dura e muito, muito difícil. Uma vez almocei num restaurante fino em Salta [no norte da Argentina]. Eu e uma amiga tivemos de entrar primeiro para conseguirmos que as raparigas indígenas que estavam connosco pudessem entrar, porque não as deixavam entrar se não estivéssemos lá. [Na Argentina] Acham que têm de entrar pela porta de serviço e limpar, não comer. Também fomos a um supermercado. Eu tinha uma mala grande, a minha amiga também, e elas tinham malas pequenas. O segurança tirou-lhes as malas para ver o que tinham lá dentro. Não viram a minha mala grande. Este tipo de humilhação é uma coisa diária. Fazem isso todos os dias.

Não se fala sobre o assunto?
É discutido, mas não de forma ampla. Temos uma associação de povos indígenas e eles estão a tentar levar a discussão a todo o lado e temos os artistas indígenas, que estão a tornar-se mais visíveis e que são respeitados. As coisas estão melhores nalguns lugares, mas não é uma coisa generalizada.

Voltando a António de Erauso e às Meninas do Laranjal. No livro, a transformação começa com uma promessa feita à Virgem. Em Slum Virgin, outro dos seus romances, a personagem principal, Cleopatra, faz também uma resolução depois de ver a Virgem Maria. Dois livros, duas mudanças provocadas pela Virgem.
Sempre achei o culto da Virgem interessante. A Virgem permaneceu sempre num lugar estranho. Não é divina, mas não é uma santa – é uma espécie de satélite da [Santíssima] Trindade. Esses arquétipos interessam-me, porque funcionam como um formulário que podemos preencher de maneiras diferentes. É possível usar a Virgem como justificação para amar as pessoas que à nossa volta e podemos usá-la como justificação para matar as pessoas à nossa volta. Podemos usar a religião católica ou cristã como quisermos e isso é muito interessante.

A história do cristianismo é, também, uma história de violência.
Sim, mas depois existem pequenas ilhas de amor pelos outros. Nos anos 60 e 70, quando a onda revolucionária engoliu a América do Sul, o movimento da Teologia da Libertação era muito interessante.

Que movimento era esse?
Era uma forma interessante de pensar a religião, que dizia que não podemos matar os outros porque são mais fracos do que nós e que não podemos construir sociedades onde existem poucas pessoas ricas e muitas pessoas pobres. Era muito bonito.

"Rimo-nos muito a ler o Dom Quixote, e isso também é a cultura ocidental. Não temos de matar a cultura ocidental, temos de resgatar-lhe a beleza. Isso é muito importante, porque também fazemos parte da cultura ocidental. Nesta distopia em que vivemos atualmente, temos de nos encontrar uns aos outros. É urgente. E todos temos beleza e amor dentro de nós."

O romance está cheio de referências literárias, nomeadamente, aos textos mitológicos dos guaranis, mas não só. Nos “Agradecimentos”, fala dos escritores Reynaldo Arenas e João Guimarães Rosa.
Adoro tanto os dois. Já leu Grande Sertão: Veredas? É um dos romances mais incríveis que li na vida. E o Reynaldo Arenas… É incrível!

Como é que esses autores e textos influenciaram a história?
É difícil de dizer. Sei que, enquanto estava a escrever este romance, estava a ler Reynaldo Arenas, Guimarães Rosa, Susana Villalba e Isabel Zapata. Sei que os estava a ler e que, de alguma forma, estão no livro. O mundo que criaram e, no caso do Reynaldo Arenas e do Guimarães Rosa, a poesia que criaram [está no livro]. A poesia e a prosa não deviam ser duas coisas separadas. Transformaram-nos num sistema binário que é estúpido, porque não existe um machado que divida as duas coisas. Gosto da mistura das duas e parece-me que o Reynaldo e o João fizeram isso. Senti que eles estavam comigo enquanto estava a escrever o livro.

Cervantes está muito presente. Não só refere Dom Quixote, como cita passagens da obra.
Adoro Cervantes – essa é a primeira razão. Leio muito o Dom Quixote. As coisas não são assim tão simples, pois não? A cultura ocidental foi uma espécie de máquina assassina, horrível, mas também tem Cervantes. Ele criou poesia e riso. Rimo-nos muito a ler o Dom Quixote, e isso também é a cultura ocidental. Não temos de matar a cultura ocidental, temos de resgatar-lhe a beleza. Isso é muito importante, porque também fazemos parte da cultura ocidental. Nesta distopia em que vivemos atualmente, temos de nos encontrar uns aos outros. É urgente. E todos temos beleza e amor dentro de nós.

Sente que é algo que vai continuar a explorar no seu próximo livro? A grande preocupação que sente em relação ao mundo atual?
Sim, não consigo evitá-lo. Nós, escritores, somos como um canal. Sentimos o que está a acontecer — o que está a ser dito, o que está a ser escrito, o que está a ser cantado — e essas coisas atravessam-nos como um rio que não conseguimos ignorar, porque é maior do que nós próprios. De uma maneira ou de outra, o mundo contemporâneo aparece em todos os trabalhos literários.

Mas há escritores que negam essa relação.
Sim, bem sei, mas se lermos o seu trabalho, vamos descobri-lo na mesma. Mesmo que falem de borboletas em Marte. Vivemos neste mundo. Não podemos evitá-lo.