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(A) :: Um "Retiro" em tons suaves com o toque azul do Alentejo. Benedita Formosinho lança coleção e tem nova loja a caminho

Um "Retiro" em tons suaves com o toque azul do Alentejo. Benedita Formosinho lança coleção e tem nova loja a caminho

"Retiro" traz peças com fio reciclado, os primeiros jeans azuis, e a estreia de uma edição numerada de 25 quimonos. Até ao verão a designer troca a EmbaiXada no Príncipe Real pelo Jardim Botânico.

Maria Ramos Silva
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‘Vagar’, ‘Calmaria’, ‘Sossego’, ‘Quietude’. O batismo de cada peça denuncia o conjunto da coleção. “Retiro” pede tempos lentos, tons crus apaziguantes e processos que colocam no centro das prioridades o reaproveitamento e novos materiais. À entrada do espaço, na EmbaiXada, o placard acusa as inspirações, do azul da louça (a cor que se intromete nesta nova coleção) às notas de serenidade, tradição e história que se cruzam com o trajeto familiar e que são importadas para a marca Benedita Formosinho, a caminho de cumprir oito anos. O resultado surgiu de forma pouco ou nada planeada, apesar de haver um calendário mais ou menos previsto para lançar novidades, duas vezes por ano. “Foi numa altura em que senti necessidade de parar e fui para um destino onde quis mesmo desligar do trabalho. O que é certo é que quando fui senti que estava praticamente num retiro, pela serenidade. E no meio desse meu caos que pedia para desconectar surgiu uma nova inspiração. Eu que não queria pensar em trabalho dei por mim a pensar em peças, texturas, formas.”, admite a designer, que em fases de maior pressão procura este distanciamento — e desta vez regressou ao atelier ansiosa por pôr tudo em prática. Registou as referências em fotografias e até em gravações de voz, para não se esquecer das principais ideias: “Manga com a textura não sei quê. Foi giro por acontecer de forma natural”, detalha.

A revelação deu-se no Alentejo, geografia que remete para as próprias origens da designer. Mal começou a desenhar pensou logo no nome-chapéu, projetando uma coleção de primavera-verão que segue o fio da história e das criações anteriores. “Existem muitas peças que se fundem entre estações, algumas até vêm de coleções anteriores, regressando e levando novos tecidos. Muitas peças deste coleção conjugam-se com a anterior e vice versa.” Sem pressas, estas 35 novas peças (mais do que os lançamentos habituais) chegarão às lojas de forma faseada, primeiro esta fornada de março, depois em abril, e por fim em maio. Intocável é o contributo materno, que continua a imprimir a marca artesanal tão visível no processo, e aplicar a experiência também na área da sustentabilidade e desenvolvimento estratégico de marca. “Acho que posso contribuir com a seleção dos materiais, gosto muito da parte toda de perceber como são feitos, de ir aos locais, conhecer o saber fazer tão vasto que temos. Sempre gostei das manualidades. Foi daí que a Benedita me puxou. Ela a fazer um casaco e a dizer-me que ali ficava bem uns punhos tricotados, que eu sabia fazer.”, explica Perpétua Formosinho.

O começo da parceria entre mãe e filha foi “muito inusitado” e coincidiu com uma fase em que uma estava a concluir o curso na Faculdade de Arquitetura e outra se viu sem trabalho, aos 50 anos, depois de uma vida passada dentro de laboratórios. “Em casa tinha uma designer de moda acabada de se licenciar a inventar coisas.”. Benedita estava a estagiar e a fazer as primeiras peças para vender em Lisboa, numa fase ainda muito inicial do projeto. De forma natural, a cooperação intensificou-se, com a mãe a ajudar a fazer apontamentos das peças. “Não era suposto eu continuar”, mas o chamamento artístico — e o cunho pragmático –reorganizou as prioridades. Perpétua ajudou também a fazer a ponte com fornecedores e contactos, ajudando a consolidar a empresa. “Aprendemos muita uma com a outra ao longo do percurso”, confirma Benedita. Partilham ainda gostos pessoais, uma afinidade que se estende ao guarda-roupa — não por acaso, a marca aponta a uma faixa etária bastante alargada. “A minha irmã mais nova também usa. Temos aqui avós, mães, filhas. Costumo dizer que as nossas peças estão dentro da intemporalidade e minimalismo mas com detalhe. A nosso cliente procura qualidade e um toque de elegância. A peça simples mas com uma delicadeza própria. São mulheres que procuram saber o processo por detrás de cada peça, têm essa preocupação.”, confia a designer. “Não querem estar muito exuberantes mas querem ter uma presença e estar confortáveis”, concorda Perpétua.

Quanto às novidades nos cabides, incluem, claro, várias peças em que as próprias texturas e tecidos remetem para pontos manuais apesar de boa parte das peças serem feitas em fábricas. A ligação entre momentos anteriores também é visível. Em “Retiro” há, por exemplo, uma peça da primeira coleção, da cápsula Tulip, agora em denim, para uma estreia nos jeans azuis — a primeira vez que a Benedita as desenhou foi em bombazine laranja — também um blusão/sobreamisa em tom neutro (e com cunho unissexo) feito à base de fibra de ananás. “Hoje há imensas alternativas interessantes a pensar na parte ética e ambiental, com origens naturais, de excedentes que todos produzimos, e que conseguem dar origem a fibras com qualidade muito superior à produzida durante décadas, como cascas de frutos”, destaca a mãe, que trouxe a influência do ponto ajur que aprendeu a fazer com a sua própria mãe para as novas camisas em branco e azul. “É engraçado porque estas não são feitas à mão mas o tecido replica isso, tal como estas nervuras nas camisas. Gostamos de conhecer o que se pode fazer do ponto de vista ancestral mas também as inovações na nossa área têxtil, particularmente na composição.”

Às malhas tricotadas em algodão orgânico, às outras fibras naturais como lyocell e linho, e aos tecidos inovadores que aportam conforto, somam-se detalhes como os bordados aplicados em contexto de fábrica, ou as formas mais arredondas em golas de camisa. O terceiro modelo Benedita Formosinho feito com fio reciclado, agora para a coleção “Retiro”, é um colete em tom cru de decote em bico e cós canelado. Seguindo idêntico processo de reciclagem, há também um chapéu feito à mão com o mesmo fio. “Todos os desperdícios de corte são encaminhados para a fábrica [ de reciclagem têxtil] J. Gomes, na Covilhã, e lá transformam-nos em novo frio”, explica Perpétua, manuseando o novelo que também é vendido na loja, para quem quer deitar mãos à obra em casa. “Como os desperdícios têm qualidade obtemos este toque nas peças.”

Outra das grandes novidades é a estreia de uma peça numerada que chegará ao mercado em 4 de abril, um kimono completamente feito à mão numa edição de apenas 25 unidades. “Toda a terminação é feita à mão no nosso atelier. O nosso fio reciclado é feito com este ponto e aplicado por nós. Terá também um embalamento especial. Sinto que damos um toque de exclusividade extra.”, descreve Benedita, cuja produção oscila entre o estúdio em Setúbal, para pequenas produções, e fábricas do norte do país, para escalas superiores. Outro dos hábitos de que não prescindem é a rota anual que fazem pelo país em busca de materiais e recoleção de tradições.

Depois de um estágio no atelier do designer português Ricardo Preto, e diversas outras experiências no mundo da Moda, foi na Baixa de Setúbal que Benedita lançou e ancorou o projeto, no número 40 da Rua Detrás da Guarda, que ainda hoje se desdobra entre atelier e loja. Em 2020, praticamente em cima do estalar da pandemia de Covid-19, apresentou-se no âmbito do Sangue Novo da ModaLisboa, com uma coleção de arranque, “Origem” (os sapatos de hoje ainda se chamam assim) que marcava o ritmo das raízes familiares. Na altura, imagens registadas em vídeo das peças foram projetadas num ecrã, à margem da passerelle. “Não tive aquele clássico do desfile, infelizmente, porque gostava de ter na altura. Mas foi ótimo. Gosto da parte mais artística que os desfiles têm, mas sinto que mesmo em desfile faz sentido os designers criarem peças que se podem usar durante o dia, ainda que tenha esse ponto de diferenciação.”

Seguiu-se a abertura em Lisboa e a expansão para o mundo, e mais recentemente, em 2025, a chegada a Cascais, com novo espaço. A equipa originalmente de duas é hoje composta por sete elementos, incluindo o atendimento ao público. Mas as novidades não ficam por aqui. Até ao verão (segundo as estimativas) vão despedir-se do espaço da EmbaiXada e instalar-se numa nova loja, mantendo-se no mesmo bairro, o Príncipe Real, agora uns números mais adiante na Rua da Escola Politécnica, com a vizinhança simbiótica do Jardim Botânico. Com uma área maior, virada para a rua, e interiores fieis ao registo Formosinho. Já este fim de semana, passam pelo spring market da Stylista, no Estoril.