“Uma sociedade que não aceita os que sofrem e não é capaz de contribuir mediante a compaixão para que o sofrimento seja partilhado e sobrelevado também interiormente é uma sociedade cruel e desumana.” – São João Paulo II
Em março de 2026, o Parlamento português brindou-nos com uma lição magistral de gestão de prioridades. Através de uma coreografia política ensaiada, entre a maioria PSD/CDS e a abstenção estratégica do PS, os deputados decidiram que ter cancro continua a ser uma atividade com direito a um desconto salarial de 25% a 45%. Ao reprovarem, no dia 13 de março, os vários projectos de lei que garantiam o pagamento do subsídio de doença a 100%, os nossos representantes confirmaram que a dignidade humana é um conceito elástico, que estica conforme a conveniência do Orçamento do Estado. Pelos vistos, nada ajuda tanto a combater um tumor como a ansiedade de tentar pagar a renda com apenas metade do ordenado, enquanto a biologia nos trai com uma doença que, tantas vezes, não tem cura.
Esta austeridade biológica torna-se particularmente fascinante quando olhamos para a outra ala do edifício. Enquanto se regateia a sobrevivência de quem adoece, o Estado continua a zelar, com carinho paternal, pelas subvenções vitalícias de ex-titulares de cargos políticos. Sabemos que, só em 2023, estas prestações custaram aos contribuintes mais de 8,6 milhões de euros. É um valor comovente, que prova como o Estado encontra sempre recursos para evitar que um antigo governante sofra o trauma de viver sem privilégios. Pelos vistos, o sacrifício de ter ocupado uma poltrona de couro em São Bento exige um amparo financeiro que o Estado recusa a um pai, que vê o seu filho definhar numa enfermaria de oncologia, ou a um filho, que assiste à lenta despedida de um progenitor.
Não venham, neste caso, falar de ideologias de direita ou de esquerda, pois invocar a ideologia, neste contexto, é um insulto à inteligência e uma fuga à decência básica. Não se trata de uma escolha entre modelos económicos, mas sim de uma escolha entre a humanidade e a indiferença. Ignorar este dever é virar as costas à Doutrina Social da Igreja, que deveria erguer-se como o baluarte da bondade e da justiça nas nossas instituições, mas que aqui foi sacrificada no altar da conveniência partidária. No passado, o Parlamento soube encontrar o seu coração quando aprovou a majoração dos apoios para pais com filhos com doenças oncológicas, ou quando reforçou os cuidados paliativos. Essas decisões provaram que o sistema sobrevive à compaixão e que o Estado consegue ser um escudo, quando decide abandonar a folha de Excel. O que mudou agora, para que o doente adulto seja tratado como um erro de cálculo orçamental que deve ser punido financeiramente?
O argumento oficial da sustentabilidade da Segurança Social é uma explicação belíssima, usada para justificar o injustificável. Sugere que o país colapsaria se tratasse os seus doentes com decência, mas sobrevive alegremente a sustentar reformas douradas de quem já saiu de cena há décadas. Tratar o doente como um custo variável, enquanto se mantém a classe política como um custo fixo inegociável, é uma forma de violência institucional requintada. É dizer a uma mãe, em pleno deserto da quimioterapia, que a sua utilidade para a República tem um abatimento imediato no vencimento. O PSD e o CDS, ao focarem-se no rigor das calculadoras, transformam a política num exercício de contabilidade sem alma. Por sua vez, o PS, ao escolher o silêncio da abstenção, limita–se a segurar o casaco do carrasco enquanto este faz o seu trabalho.
Resta-nos a fé, quase heroica, de que os nossos decisores recuperem a humanidade que esqueceram no plenário. No fundo, trata-se da velha e triste história de um país que insiste em tratar uns como filhos e outros como enteados. Porque convenhamos, se um ex-político no activo, devidamente blindado pela sua subvenção vitalícia, tivesse o azar de enfrentar um cancro, a sua quebra de rendimento seria apenas uma nota de rodapé irrelevante. Para esse eleito, a República é uma mãe generosa, que garante estabilidade e 100% de rendimento, mesmo na tormenta. Para o português comum, que não tem assento em São Bento, a República é apenas uma madrasta fria, que nos manda combater a morte com as moedas que sobram do banquete dos privilegiados.