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(A) :: Montenegro venceria Passos? "Não tenho nenhuma dúvida sobre isso"

Montenegro venceria Passos? "Não tenho nenhuma dúvida sobre isso"

Em entrevista ao Observador, Hugo Soares, líder parlamentar e secretário-geral do PSD, fala do momento atual do partido, das críticas a Passos, do Orçamento do Estado e da relação com o PS e Chega.

Mariana Lima Cunha
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Miguel Santos Carrapatoso
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Miguel Viterbo Dias
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Diz desconhecer as reais motivações de Pedro Passos Coelho, regista que o antigo primeiro-ministro está a puxar pelo Governo — e gosta disso —, e atira tudo o resto para o domínio do comentariado. Ainda assim, confrontado com o cenário hipotético de uma disputa direta entre Luís Montenegro e Pedro Passos Coelho, afirma não ter dúvidas sobre para que lado penderia o partido. “O partido está unido e mobilizado, vem de sucessivas vitórias eleitorais. O PSD esteve muitos anos sem ganhar eleições e invertemos manifestamente esse ciclo”, sentencia.

Em entrevista ao Observador, Hugo Soares, líder parlamentar, secretário geral e número dois de facto do PSD, fala da polémica também da polémica em torno do Tribunal Constitucional, não se comprometendo com qualquer solução, garante acreditar que será possível haver um acordo com o PS e Chega em torno da reforma laboral e diz acreditar convictamente que a legislatura vai mesmo chegar até ao fim. “Não vejo razões para que não vá. Creio que o país perderia muito se isso não acontecesse.”

Hugo Soares fala ainda da decisão do Tribunal Constitucional em tornar pública a lista de antigos clientes de Luís Montenegro, pede uma reflexão profunda sobre o impacto que isso terá na captação de quadros para a política e dos inquéritos abertos pelo Ministério Público. “Ninguém está aqui a dizer que a Justiça não faça o seu trabalho, e quero que o MP faça essas investigações quando devem ser feitas. Mas é preciso haver conta, peso e medida.”

Eleições para os órgãos externos: "Posso dizer sem nenhuma tibieza que, marcadas que estejam novamente as eleições e a data de entrega das listas, o PSD não contribuirá para mais nenhum adiamento".

“O Tribunal Constitucional não é dos partidos”

O PSD vai indicar dois juízes para o Tribunal Constitucional e entregar o terceiro juiz ao Chega?
Sobre as negociações para os órgãos externos da Assembleia da República não me levarão a mal não fazer nenhum comentário. Tudo o que é dito no espaço público causa dificuldades nas negociações, que estão a ser feitas com o PS, Chega e mais partidos. Ficamos escravos das nossas palavras e posições. Numa negociação, o bom senso, mas, sobretudo, o recato é meio caminho andado para as coisas correrem bem e não queria contribuir para que estas negociações se alongassem e arrastassem.

José Luís Carneiro falou publicamente sobre o tema e disse que o PSD se preparava para entregar um lugar de juiz ao Chega e ficar com as outras duas vagas. Carneiro precipitou-se? Mentiu?
Não vou fazer nenhum comentário sobre o que disse José Luís Carneiro. Faz-me alguma espécie como se diz que se entregam lugares ao PS, ao PSD, ao Chega. Não se entrega a ninguém. Os juízes não são de ninguém. De resto, uma das características da magistratura é precisamente a imparcialidade. A minha visão da indicação de juízes que têm de ser eleitos pelo Parlamento é que eles não são de ninguém, não são do PSD, nem do PS, nem do Chega. É fácil olhar para as decisões do Tribunal Constitucional e ver juízes que foram indicados para as listas pelo PSD e votam contra vontades políticas do PSD. O Tribunal Constitucional não é dos partidos que indicam juízes, nem os juízes são dos partidos que os indicam.

Mas em abstrato vê vantagens num Tribunal Constitucional mais à direita?
Qualquer posição que tome sobre isso é lida como uma posição de partida do PSD nestas negociações.

Não tem existido acordo entre os três partidos. Se não for mesmo possível chegar a acordo, o PSD proporá os juízes mesmo sem acordo? Levará a lista a votos sem acordo? 
A tradição era que a distribuição dos lugares acontecesse entre o partido maior com representatividade parlamentar e o segundo partido. O PSD entendeu que devia encetar negociações com os dois maiores partidos da oposição. Estas negociações têm-se arrastado durante muito tempo, demasiado tempo, e os adiamentos sucessivos não contribuem para o prestígio das instituições. Não é que os órgãos não funcionem: a Provedoria de Justiça tem uma senhora vice-provedora que está a trabalhar e é extraordinária; o Tribunal Constitucional tem proferido decisões; os demais órgãos continuam com as pessoas que ainda não vagaram o lugar. É bom que o país saiba que não está paralisado por causa das eleições para os órgãos externos. É um tema que diz muito pouco ao país, de bolha política, de comentador. Isto não significa que eu não entenda que estas negociações se alongam por demasiado tempo. Posso dizer à vontade, sem nenhuma tibieza, que marcadas que estejam novamente as eleições e a data de entrega das listas, o PSD não contribuirá para mais nenhum adiamento.

Era uma posição de princípio do PS não ter um juiz proposto pelo Chega no Tribunal Constitucional, pelo menos no início da discussão.
Não foi isso que li entretanto, mas não faço ideia.

“Acordo com o PS na reforma laboral? Sou profundamente crente”

Esta semana houve um tom diferente no fim das negociações para a reforma laboral. Já está mais convicto da boa-fé da UGT? O PSD, e também Hugo Soares, tem sugerido que a central sindical está a agir em nome dos interesses do PS.
Nem mais convencido nem menos convencido. O Governo está a fazer aquilo que deve ser feito: propor uma reforma da legislação laboral com profundidade. As reformas e transformações devem-se fazer em períodos de grande normalidade, quando a economia está pujante e o emprego em máximos de que não há registo. A metodologia deve ser esta: levar ao máximo a concertação social. Mas é chegada a altura de olharmos para questões substantivas, que aparentemente separam a UGT dos restantes parceiros sociais, e perguntar ao país e aos trabalhadores se têm a mesma visão. O banco de horas é a possibilidade de, por acordo entre o trabalhador e a empresa, o trabalhador poder corresponder com mais horas de trabalho do que o seu horário de trabalho normal. As economias são dinâmicas, os mercados são competitivos e funcionam a uma escala cada vez mais global. Uma empresa que a determinada altura tem um volume de encomendas maior quer fazer mais para crescer, pagar melhores salários, contratar mais. Por acordo, pode perguntar aos trabalhadores: os senhores importam-se de nesta semana trabalharem mais duas horas por dia? Se o trabalhador disser que sim, na semana seguinte pode descontar essas horas no horário e usufruí-las para tempo de lazer. Não há nenhum trabalhador que veja aqui uma agressão aos seus direitos laborais.

Levar ao máximo a concertação significa o quê? Se o acordo falhar, tem de levar o pacote inicial, da maneira como está agora, ao Parlamento e pronto?
É evidente que, se não houver acordo de concertação social, o processo legislativo deverá seguir os seus termos. Às vezes espanto-me, porque ouvi o líder do PS apelar ao Governo para que voltasse a sentar a CGTP na concertação social. É de gargalhada, com toda a franqueza. Então o líder do PS acha que o Governo deve pedir pelas alminhas à CGTP para se sentar na concertação social, quando a CGTP disse desde a primeira hora que não queria estar sentada à mesa? Algum político com responsabilidade acha que a CGTP, que apareceu numa reunião para a qual não foi convidada, forçando a entrada, de palco e de microfone e colunas atrás quer seriamente discutir alguma coisa? Valha-me Deus, a CGTP não vai negociar com o Governo porque não quer, quer apenas criar ruído. Por outro lado, não deixa de ter a sua graça, José Luís Caneiro era membro de um Governo que teve uma agenda para a legislação laboral que não teve acordo na concertação social, trouxe a proposta para o Parlamento e aprovou-a aqui com a maioria absoluta de António Costa. O mesmo partido que há três anos não teve acordo na concertação social, que aprovou o seu pacote no Parlamento, e que teve um alto responsável que tratava a concertação social como “feira de gado” não tem legitimidade para apontar o dedo a este Governo no que diz respeito ao diálogo social.

Está a haver alguma hipocrisia da parte do PS nesta questão?
Não é hipocrisia, é mais do que hipocrisia. É uma deriva populista que não faz sentido nenhum. O PS devia ter responsabilidade. A pergunta ao PS que se deve fazer hoje é: é contra o banco de horas, tal qual aqui o expliquei? É contra o outsourcing? É a coisa mais simples do mundo – uma empresa de sapatos poder-se dedicar àquilo que faz bem, para poder ser mais especializada, e por exemplo, contratar fora os serviços informáticos. Não vejo aqui nenhuma agressão aos trabalhadores. Até porque esta dicotomia entre o que é bom para as empresas é mau para os trabalhadores é algo absolutamente revolucionário, que já ficou lá atrás.

Mas já que falava da posição do PS. Quando o acordo chegar ao Parlamento, o PS tem dito que vota contra. O Chega mandou rasgar e fazer de novo. Como é que se chega a acordo nestas circunstâncias?
É por isso que acho que a discussão no espaço público deve ser a mais reduzida possível porque depois ficamos escravos das próprias palavras. Os políticos são craques a arranjar nuances no discurso para poderem depois ter matizes nas suas posições. Espero que seja isso que venha a acontecer. Tem havido também uma intervenção muito positiva do Presidente da República nesta matéria, apelando constantemente ao diálogo. É minha convicção que Portugal vai ter uma posição laboral mais competitiva, amiga dos trabalhadores e amiga das empresas, porque as duas coisas são compaginadas e possíveis.

Mas, o PS, com tudo o que disse, acha que ainda é possível que recue?
Sou profundamente crente.

Mas mais à direita?
Como sou profundamente crente e acredito na capacidade de diálogo dos deputados no Parlamento. Estou convencido ainda é possível ter o Partido Socialista e o Chega. Esse é um tema do qual procuro muito falar. Esta ideia peregrina de que quando o PSD fala com o PS não pode falar com o Chega ou vice versa.

Mas é natural que o conteúdo da reforma não agrade aos dois.
Não consigo perceber porquê. O país está dividido hoje em três grandes blocos eleitorais, com o espelho na representatividade parlamentar de forma muito cristalina. Tenho dito muitas vezes que a transformação que o país precisa é muito mais que uma mudança ideológica, é uma mudança tranquila. O que ninguém acha é que o país deve continuar sem transformações. Quando falamos em regular a imigração como regulamos, isso é a identificação de um problema que era evidente aos olhos de todos. Porquê é que não posso fazer isto com o Partido Socialista e com o Chega? Um dos grandes méritos que o Chega teve é ter sido o primeiro a colocar o tema da imigração da forma que colocou. Muitas vezes de forma radical, às vezes a raiar a xenofobia, mas a pôr o dedo na ferida de um problema que o país tinha. Aliás, Pedro Passos Coelho falou disto nas primeiras alterações legislativas. Mas, não percebo porque é que o PS não aceita, estando identificado o problema, que se deve fazer uma mudança. No IRC, igual. Na fiscalidade, igual.

Mas na reforma laboral o Chega mandou rasgar e fazer de novo e Luís Montenegro até o associou à CGTP.
Sim, porque é demonstração de que o Chega é um partido que se radicaliza e aí assemelha-se muito à extrema-esquerda. Os movimentos eleitorais são tão evidentes que falam por si. Um dos principais nichos eleitorais do Chega, designadamente a Sul, foram transferências diretas de votos do PCP. Não deixa de ser curioso, mas é bem verdade e tem a ver com esse discurso mais radical e populista. O que o primeiro-ministro quis dizer é que o Chega tinha uma linguagem muito parecida com a do CGTP e tem mesmo.

Então é difícil aprovar uma reforma laboral com o Chega?
Veremos. O Chega diz-se um partido transformador, que não quer que nada fique na mesma, aliás, por eles o regime já tinha caído e sido construído três vezes. Na legislação laboral o Chega entende que Portugal precisa de uma economia mais competitiva.

É preciso que o Chega se defina?
Uma coisa é o discurso político, às vezes mais radical para vender a um eleitor. Não sou assim. Acho que isso prejudica o país e os entendimentos entre os partidos. Coisa diferente é a realidade concreta do dia-a-dia em que há necessidade dos partidos efetivamente dialogarem. E os políticos, os mais experimentados, são craques em matizar as suas posições e ninguém levará a mal que isso aconteça. Eu não levarei, certamente.

Se o Governo e o PSD conseguirem aprovar apenas uma versão muito mitigada da reforma laboral, isso não é uma derrota?
É uma derrota para o país, não para o Governo. O executivo tem a consciência que tem maioria relativa, que tem que encontrar respaldo parlamentar para aprovar legislação. Tem que ter diálogo. Nem tudo o que tem vindo ao Parlamento que vem do Governo sai como aqui chegou. O país tem que perceber depois as posições de cada um. Tem que perceber que o Governo queria fazer isto e a oposição deixou fazer isto e depois julga no momento certo, nas eleições. Se está mais inclinado para uma reforma mais profunda, deposita mais confiança e mais força na AD para poder fazer transformações com maiorias parlamentares. Se entende que é bom assim e que estas transformações não eram necessárias, então continua a votar como tem votado, mas isso é uma decisão do país.

O meu pai sempre me ensinou: “Teimar sempre, apostar nunca”. E o dinheiro custa a ganhar. Mas a minha profunda convicção é de que a legislatura vai até ao fim. Não vejo razões para que não vá. Creio que o país perderia muito se isso não acontecesse"

“Montenegro sairia vencedor de qualquer eleição interna”

Disse durante as jornadas parlamentares do PSD que o partido devia “propagandear” mais as reformas e a tal “mudança tranquila” que está a fazer. O trabalho do Governo não tem sido bem compreendido?
Acho que tem. Se não tivesse sido compreendido não tínhamos tido eleições como tivemos depois do Governo ter caído e reforçado a maioria que tínhamos no Parlamento. Quando falo no país falo de todos. Dos jornalistas e dos comentadores também. Este é o país que pela primeira vez na história apresenta dois orçamentos consecutivos que não aumentam impostos. É um país onde o emprego está em máximos absolutamente históricos. É um país onde se conseguiu pela primeira vez que o salário médio subisse acima da percentagem do salário mínimo,  mais do que a perspectiva do acordo tripartido do Governo em concertação social. Devemos puxar por este país. E agora diz-me assim, acha que o país não compreende isso? Acho que o país sente isso no dia-a-dia.

Mas não sente também uma quota parte de responsabilidade em setores que ficaram para trás? Por exemplo, o da saúde, em que houve uma gestão de expectativas errada?
Na saúde houve um grande equívoco à volta do programa de emergência, que o Governo disse que apresentava em 60 dias, e a oposição, propositadamente quis dizer, numa forma de política partidária daquela mais baixinha, que o Governo se tinha comprometido em resolver os problemas da saúde em 60 dias. Não foi isso que o Governo disse.

Mas o programa está a ficar aquém das expectativas criadas ou não?
É curioso que, nas últimas semanas, tem tudo corrido bem na saúde.O Governo está a empreender reformas profundas no SNS, que virão ao Parlamento e que serão objeto de discussão no espaço público, e que visam ajudar a transformar o SNS, que é extraordinário. Quem disser o contrário está a ser injusto e está a ser pouco verdadeiro na análise. Há problemas localizados, que têm expressão sobretudo na região de Lisboa e na Península de Setúbal, e que estão relacionados com a pressão demográfica e com a falta de médicos. E aí, uma das prioridades do Governo foi pressionar para abrir mais cursos de medicina, sobretudo no interior. Mas, os médicos não se formam em dois dias. Está em obras o novo hospital de Lisboa. As coisas estão a andar do ponto de vista infraestrutural.

Mas o país é que ainda não sente essa melhoria, é isso? Porque os números, por exemplo, das listas de espera são piores em 2025 face a 2024.
O país sente. Não tenho dúvidas que o país sente. O país não vive é à volta do que dizemos. Por exemplo, toda a vida aconteceu e vai acontecer. Todos os anos vão nascer crianças em ambulâncias. Graças a Deus que nascem bem e que corre tudo bem com as mães. Antes nascia-se em casa e isso agora já não acontece. Deu-se um passo muito grande na saúde obstétrica. Agora, não se faça uma crítica velada ao SNS cada vez que isso acontece, até porque o SNS também falha, claro. É feito por pessoas. É preciso alterar políticas? É e percebo que quando há um problema a angústia das pessoas é grande. Mas, diria que 99% das vezes, o SNS funciona muito bem.

Falou de uma bolha de jornalistas e comentadores que não consegue olhar para o melhor do país. Temos ouvido Pedro Passos Coelho a fazer algumas críticas ao Governo. Consegue perceber o que motiva o antigo primeiro-ministro?
Não vou fugir à pergunta. Mas vejam a questão agora da reorganização das urgências na Península de Setúbal. Todos queremos reformas, mas de cada vez que há uma transformação, sofremos o tal fenómeno NIMBY — Not in My Backyard. “Quero que se mude, mas no meu quintal não. O Governo está a reorganizar e a concentrar os esforços e os recursos. É uma extraordinária reforma a bem das populações. Ou seja, as coisas são estudadas e estas transformações estão em curso. Agora, não se faz tudo num dia. Sobre as críticas que Pedro Passos Coelho fez ao Governo, apelando sobretudo a uma maior transformação… Gosto de quem puxe pelo Governo e de quem acredita que o Governo é capaz de fazer mais.

Acha que a motivação de Pedro Passos Coelho é apenas essa?
Não sou analista político. Neste caso, creio que tem a ver com o ímpeto transformador que Pedro Passos Coelho gostava que o país tivesse, que eu também gostava e que também quero que tenha.

Mas faz sentido Luís Montenegro ter respondido com um desafio para eleições diretas no PSD?
O que aconteceu foi uma coisa muito simples: era a altura de marcar eleições diretas, é o calendário normal interno do partido. Luís Montenegro desafiou quem tivesse outros caminhos a apresentar-se. Acho que fez muito bem. A política faz-se de clareza. Se houver discordância quanto ao caminho a seguir, deve haver clarificação. Pedro Passos Coelho colocou duas questões na agenda: uma era a falta de ambição transformadora do governo; e a outra era uma questão de alianças. Luís Montenegro foi eleito primeiro-ministro com uma posição estratégica que foi, de resto, amplamente debatida: só governaria se ganhássemos as eleições; e que não governaria com uma coligação de governo com o Chega. Se o partido tiver alguma dúvida sobre isto, agora que vai haver eleições internas, é o momento, evidentemente, para voltar a colocar a questão na agenda. Aparentemente o partido não tem dúvidas e a questão está resolvida.

Vamos imaginar que, por absurdo, alguém enfrentava Luís Montenegro e vencia essas eleições internas. O agora líder do PSD demitia-se e deixava de ser primeiro-ministro?
Teriam de perguntar ao atual líder do partido. Mas não tenho dúvida que não haverá candidaturas concorrentes. Mas, independentemente de haver ou não, não tenho dúvida nenhuma de que Luís Montenegro sairia vencedor de qualquer eleição interna no partido.

Mesmo contra Pedro Passos Coelho?
Não tenho nenhuma dúvida sobre isso. E digo isto sem arrogância. É até com muita humildade. Conheço muito bem o partido, conheço o sentimento dos militantes do partido. O partido está unido e mobilizado, vem de sucessivas vitórias eleitorais. O PSD esteve muitos anos sem ganhar eleições e invertemos manifestamente esse ciclo.

Mas admite que isso um dia possa acontecer, que Pedro Passos Coelho venha a disputar a liderança de Luís Montenegro?
Não faço ideia, honestamente. Mas isso não diz nada à vida dos portugueses. Sei que isso é interessantíssimo para o comentariado. Alguns deles agora até se sabe que são avençados de vereadores do PCP. Não deixa de ser curioso: são apresentados sempre como grandes comentadores independentes e descobre-se depois que um senhor que ocupa um espaço de comentário na SIC Notícias, e que é apresentado como um grande arauto da independência, que zurze todos os dias no Governo e em tudo que mexe no centro-direita, afinal, tem uma avença com o vereador do PCP de Almada para falar ao telefone, pago por mais de 3 mil euros por mês. Portanto, é preciso preencher esses espaços de comentário, esses temas são picantes, mas não dizem nada à vida dos portugueses.

“Não acredito que Seguro seja força de bloqueio”

António José Seguro estreou-se como Presidente da República a exigir resultados ao Governo e a convocar todos para um pacto para a Saúde. A isto soma-se aquilo que já tinha dito em campanha presidencial, de que chumbaria a reforma laboral se ela não fosse acordada em concertação social. António José Seguro será uma força de bloqueio?
Não, não acredito de todo. Acredito que o Presidente da República exercerá a sua magistratura de influência de forma absolutamente independente e imparcial, procurando aquilo que ele acredita melhor para o país. Há de haver alturas, não tenho dúvidas, em que estaremos em desacordo. Mas acredito que será sempre uma força desbloqueadora.

Acha legítimo que um Presidente tenha dito abertamente que chumba uma determinada reforma mesmo que ela seja aprovada pelo Parlamento?
Não creio que tenha sido essa a consequência última da afirmação do então candidato.

Era só uma forma de fazer pressão?
O que sei é que o Presidente da República tem feito uma intervenção muito forte para que se possa chegar a um acordo em sede de concertação social e acho que vai ser tudo menos uma força de bloqueio.

Seguro será um Presidente mais previsível do que Marcelo Rebelo de Sousa?
Não sei. Toda a gente imputa essa imprevisibilidade a Marcelo Rebelo de Sousa, mas julgo que não era imprevisível. Era até previsível, nunca tomou decisão nenhuma com que não estivéssemos a contar, sejamos francos. Marcelo Rebelo de Sousa era mais imprevisível mais nas coisas do dia a dia. Uma imprevisibilidade divertida e interessante. Creio que o registo de António José Seguro é manifestamente diferente.

Montenegro derrotaria Passos? "Não tenho nenhuma dúvida sobre isso. E digo isto sem arrogância. É até com muita humildade. Conheço muito bem o partido, conheço o sentimento dos militantes do partido. O partido está unido e mobilizado, vem de sucessivas vitórias eleitorais. O PSD esteve muitos anos sem ganhar eleições e invertemos manifestamente esse ciclo"

“O país não vai ter uma crise orçamental”

António José Seguro disse que não dissolverá a Assembleia da República em caso de chumbo orçamental. Não seria pelo menos um automatismo. A pergunta que se coloca, apesar de tudo, é outra: seria um drama para o país viver em duodécimos?
É evidente que para o país não era bom não ter um Orçamento do Estado. Era mau para o país. Tudo faremos para que o próximo Orçamento possa vir a ser aprovado. Estou convencido que o país não vai ter uma crise orçamental.

O Chega já votou contra o último orçamento de Estado. Acha que o PS vai continuar a abster-se nos orçamentos seguintes?
Espero que o Chega e o Partido Socialista viabilizem o próximo Orçamento.

Fazer tudo para evitar os duodécimos.
Claro que sim. O país deve fazer tudo — Governo, Parlamento e Presidente da República — deve fazer tudo para ter um Orçamento.

O PS tem insistido muito na questão do Orçamento Retificativo. Será uma necessidade?
O Ministro das Finanças, que é a pessoa mais habilitada para poder responder a essa pergunta, tem dito que os instrumentos previstos no Orçamento do Estado e os limites de despesas serão suficientes.

Apostaria dinheiro em que a legislatura vai mesmo chegar até ao fim?
O meu pai sempre me ensinou: “Teimar sempre, apostar nunca”. E o dinheiro custa a ganhar. Mas a minha profunda convicção é de que a legislatura vai até ao fim. Não vejo razões para que não vá. Creio que o país perderia muito se isso não acontecesse.

Como é que se garante que o PS, que é aparentemente o parceiro que estará mais disponível para ir segurando o Governo, não rompe? José Luís Carneiro tem-se queixado repetidamente da ausência de respostas de Luís Montenegro, da ausência de vontade de dialogar. Primeiro, foram as cartas por responder…
Não é verdade que as cartas não tenham tido resposta. Cada carta que o primeiro-ministro recebeu acusou a receção. E agradeceu. Além disso, o deputado José Luís Carneiro tem todos os quinze dias a possibilidade de olhos nos olhos e interpelar o primeiro-ministro. Ainda há pouco tempo esteve em São Bento e foi recebido. Não acho que haja falta de diálogo entre o primeiro-ministro e a oposição. Nem aqui no Parlamento. Não faço futurologia, mas acredito no sentido de responsabilidade do deputado José Luís Carneiro. Tal como acredito no do deputado André Ventura. O que me custa é aquela espécie de birra, em que onde está um, o outro não pode estar. Acho isso manifestamente infantil, pueril.

O PSD não estará a esticar demasiado a corda com o PS? As cartas por responder, a nomeação dos juízes para o TC… Isso está a criar um mal-estar no PS, isto é público. José Luís Carneiro disse-o, não é um facto inventado por nós, nem pelos comentadores.
Não se trata de esticar a corda ou não, vamos lá ver. A questão das cartas: o PS propõe medidas concretas e quando os programas são apresentados muitas delas são lá vertidas — aquelas que o governo entende que deve acolher, acolhe. Agora vamos ser claros: não se governa a partir do Largo do Rato; é de São Bento que se governa. É quem foi mandatado pelo povo para governar. Não são os partidos da oposição. É bom que se tenha consciência disso.

O PSD está apostado na ideia de que o PS terá medo de provocar uma crise?
Não, de todo.

É essa a tática do PSD?
De todo. Não estamos a apostar em nada disso. Estamos a apostar na estabilidade política. Primeiro, porque temos consciência de que estamos a governar muito bem. Estamos a resolver os problemas concretos do dia-a-dia das pessoas e a procurar fazer transformações que preparam o país para o futuro. Ao mesmo tempo, estamos convencidos que isso não acontecerá porque a estabilidade política é mesmo um fim em si mesmo.

Uma questão sobre a lei da nacionalidade. O Chega garantiu que não quer desistir de pontos como a perda da nacionalidade se forem cometidos vários crimes por cidadãos naturalizados. Acha que esta linha vermelha é bluff do Chega?
Em processos negociais em curso, o líder parlamentar do PSD não faz comentários. Acho que é uma posição responsável. Do ponto de vista institucional, é o melhor que posso fazer.

Ainda acredita que pode chegar a um entendimento com o PS?
Claro que acredito.

“Não atribuo nenhuma intenção política ao Ministério Público”

A decisão do Tribunal Constitucional sobre a divulgação da lista de clientes do primeiro-ministro causa mal-estar no PSD?
Não. Mas é uma questão muito interessante. Vamos dar de barato que não haja ninguém no país que não conheça os clientes da Spinumviva. Foram tornados públicos e foram escrutinados. A Entidade da Transparência entendeu que, do meu ponto de vista mal, deve pedir ao primeiro-ministro o nome dos clientes de uma empresa que não é dele e que os deve publicar num site. É um mau princípio. Porque viola a liberdade de concorrência e do segredo profissional, e vai ser inibidor para que muita gente venha para a política. Por exemplo: mas faz algum sentido convidarmos para [o Governo] um gestor público e ele ter que vir dizer quem eram os clientes das empresas que tinha? As pessoas têm que ter vida, têm que ter independência, têm que poder dizer que não às pressões, têm que poder sair da política para ter vida, para saber o que é pagar salários. É evidente que uma coisa como esta esmaga a possibilidade de recrutarmos os melhores.

Portanto não compreende a decisão.
Vou ao ridículo da questão. Espero que isto nunca aconteça, mas vão perguntar ao Presidente da República, que tinha uma empresa de vinhos, quem foram os clientes a quem vendeu o vinho? Isto é ultrajante. Há ou não há coragem de dizermos de uma vez por todas que temos de mudar isto? Gostava de fazer essa reflexão com todos. O escrutínio e a transparência têm de existir, isso não há dúvida nenhuma, ninguém está a fugir. No caso do primeiro-ministro essa questão já nem se coloca, porque nunca houve tanto escrutínio sobre uma pessoa. Há dias vi – e achei mesmo muito interessante – uma notícia que dizia que o António José Seguro, e muito bem, estava a fazer a transição para a Presidência da República de forma segura e tranquila, que estava a preparar a sua vida, e tinha passado as suas empresas para o nome dos filhos, e convidado o irmão do líder parlamentar do PS para gerente de uma dessas empresas, ou administrador dessas empresas. E a notícia era que estava a fazê-lo de forma tranquila, segura. O primeiro-ministro, quando foi eleito Presidente do PSD, transferiu a empresa que tinha para os filhos. Fez exatamente a mesma coisa. Só não convidou nenhum irmão meu para gerir as empresas, porque não tenho nenhum irmão, e se calhar não confiava. Mas imaginem que tinha convidado o irmão do líder parlamentar. Vejam bem o que aconteceu com essa história patética da Spinumviva. E agora a forma como se faz o escrutínio do Presidente da República. E bem. Era até uma vergonha para o regime que se fizesse de outra forma.

Foi público em fevereiro que o Ministério Público abriu um novo inquérito sobre a construção da casa do primeiro-ministro em Espinho.  Atribui alguma intenção ao Ministério Público nesta sucessão de investigações?
Não, de todo. Não atribuo nenhuma intenção ao Ministério Público.

Não há nenhuma judicialização da política?
Às vezes há coincidências, mas tem tudo uma explicação. No caso concreto, não sei se é um novo inquérito. Confio inteiramente na Justiça e na seriedade do primeiro-ministro. Sobre mim próprio, foi notícia que foi aberto um inquérito no Ministério Público e outro na IGAS a propósito de uma cirurgia que fiz, e a denúncia era que eu teria passado à frente e tido um tratamento de privilégio. Com uma denúncia, mais das vezes anónimas e cobardes e insidiosas, o MP fez o que lhe competia: abriu o inquérito e vai ver se há fundamento ou não. Ainda hoje não sei como é que está esse inquérito. Sei que passado uns dias tive a comunhão do meu filho. E sei que uma colega foi dizer ao meu filho: “O meu irmão mais velho perguntou-me se o pai do Gonçalo não tinha vergonha de vir depois das notícias”. Não passei à frente de ninguém, não tive nenhum privilégio. Mas quero que as pessoas percebam as consequências da forma como as questões são tratadas. Devem ser tratadas com o máximo de recato e a maior presunção de inocência. Lembro sempre Miguel Macedo, que podia ter sido tudo no país, e viu a sua vida absolutamente exterminada do ponto de vista político, profissional e até pessoal, durante anos, num processo judicial que o absolveu de quaisquer atos, porque era um homem com uma integridade e uma seriedade à prova de bala. O mesmo aconteceu com a Spinumviva. Ninguém está aqui a dizer que a Justiça não faça o seu trabalho, e quero que o MP faça essas investigações quando devem ser feitas. Mas é preciso haver conta, peso e medida.