Não deve haver despertar de coma induzido mais aflito e atarantado em toda a história do cinema de ficção científica (FC), e em filmes passados em naves espaciais, do que o do microbiólogo e professor Ryland Grace (Ryan Gosling) em Projecto Hail Mary, de Phil Lord e Christopher Miller (O Filme Lego), baseado no livro de Andy Weir, autor de O Marciano. Grace acorda sem se lembrar de quem é, de como foi ali parar e o que está a fazer dentro de uma nave chamada Hail Mary, que ruma a um sistema extra-solar numa missão da qual não tem ideia qual seja, cujos dois outros tripulantes morreram e que já dura há quase 14 anos desde que ele foi adormecido e deixou a Terra.
[Veja o “trailer” de “Projecto Hail Mary”:]
https://www.youtube.com/watch?v=m08TxIsFTRI
Depois de algum pânico, e como é um cientista brilhante (apesar de ter caído em desgraça e acabado a dar aulas num liceu, após ter refutado as teses de um colega ilustre e lhe haver chamado “um desperdício de carbono”) e desembaraçado, Grace usa os neurónios, e a documentação e a informação acessível na nave, para se lembrar da sua identidade, reaver a memória aos poucos e descobrir que está, agora sozinho, numa missão da qual depende a salvação da Terra e o futuro da humanidade. Uma nova e estranha partícula baptizada Astrófago está a “comer” radiação eletromagnética e reproduz-se absorvendo energia do sol e dióxido de carbono de Vénus. Se algo não for feito depressa, o sol desaparecerá dentro de 30 anos e a Terra mergulhará numa devastadora idade do gelo e morrerá.
A nave tem como combustível os próprios Astrófagos, o que lhe permite viajar até zonas distantes do cosmos, mais precisamente até perto da estrela Tau Ceti, que resistiu à infeção daqueles microrganismos. A missão do cientista e dos seus dois falecidos companheiros era descobrir o porquê disto e enviar para a Terra as suas conclusões — de preferência, sob a forma de uma solução do problema — em mini-naves especiais. E depois ficar à espera da morte no espaço sideral, porque não sobram Astrófagos suficientes para gerar combustível que chegue para o regresso. A Hail Mary é uma nave de suicidas voluntários, de mártires abnegados.
[Veja entrevistas com Ryan Gosling, outros membros do elenco, os realizadores e Andy Weir:]
https://www.youtube.com/watch?v=X7N7NrNdPrg
Mas Grace vai ter um aliado na pesquisa para salvar a Terra. Um alienígena amistoso que é, também ele, o único sobrevivente de uma gigantesca nave vinda do sistema estelar 40 Eridiana, e cujo sol está igualmente ameaçado pelos Astrófagos. A criatura geo-aracnóide não tem rosto nem boca e Grace passa a chamar Rocky ao eridiano, conseguindo estabelecer comunicação com ele, concebendo um programa de computador que lhes permite dialogarem (a voz de Rocky corresponde à sua personalidade efervescente), e colaborar para tentarem salvar os respetivos mundos. Ao mesmo tempo, vai havendo flashbacks que esclarecem sobre a situação na Terra (Sandra Hüller interpreta a diretora da missão), e reconstituem o percurso de Grace até ao seu agitado acordar na nave.
Parte aventura intergaláctica da modalidade “A Terra em perigo”, parte buddy movie improvável em que as partes envolvidas são um humano e um alienígena, e parte comédia slapstick no espaço sideral, Projecto Hail Mary é o tipo de produção que o cinema americano costumava fazer muito bem, e com regularidade, mas de que andava esquecido há bastante tempo. Um filme de grande entretenimento espectacular e intimista, transmissor de valores positivos, que fala aos sentimentos mas também à inteligência dos espectadores. E onde, ao contrário da maioria do cinema do género (e também do que sucede na literatura de FC), a ciência é enaltecida e salvadora, em vez de ser execrada ou demonizada.
[Veja uma sequência do filme:]
https://www.youtube.com/watch?v=8kVS4XbpSoE
O núcleo do filme é a relação de cooperação, de interação intelectual, de troca de conhecimentos e experiências, e de amizade, que se desenvolve entre os membros de duas espécies completamente diferentes e vindos de paragens do universo separadas por distâncias incomensuráveis, mas cujos mundos enfrentam a mesma ameaça. Dela, Phil Lord e Christopher Miller espremem litros de sumo dramático e cómico, com a plena colaboração, pelo lado terrestre, de Ryan Gosling, (invulgarmente) muito bom num Grace pachola e atabalhoado, mas brilhante e engenhosíssimo, e que evolui de herói à força para herói a sério; e pelo lado extraterrestre, do Rocky animatrónico, criado pelo veterano dos efeitos especiais Neal Scanlon e sua equipa, e ao qual, com o bonecreiro James Ortiz que o manipula e lhe empresta a voz, dão vida, personalidade e expressão, e criam a indispensável empatia com o espectador.
As paisagens siderais são magníficas e as sequências de ação e suspense no espaço são intensas e empolgantes, e Projecto Hail Mary partilha, com algumas séries clássicas (caso de O Caminho das Estrelas original) e outros – raros — filmes de ficção científica, o sentido de aventura cósmica, a confiança na ciência e na tecnologia, o espírito positivo e a especulação sobre a possibilidade de contacto, colaboração e convívio com outras formas de vida do universo. Ele é, com o mais “cerebral” e denso O Primeiro Encontro, de Denis Villeneuve (2016), um dos filmes mais conseguidos sobre o tema do “primeiro contacto”, e com este e Gravidade, de Alfonso Cuarón (2013), um dos melhores de FC feitos neste século.