O alvo mais recente da atenção de Donald Trump fica a cerca de 150 quilómetros do sul da Florida, o seu estado de residência. O novo olhar da Casa Branca sobre Cuba não é inédito. Pelo contrário, Havana tem sido um dos focos mais consistentes da política externa da última dezena de Presidentes norte-americanos, desde que a revolução cubana instaurou no país um regime socialista, profundamente crítico dos Estados Unidos da América (EUA).
Contudo, a atenção de Trump atirou os dois países para o momento mais tenso desta longa relação desde 1962, data da crise dos mísseis de Cuba. Há 64 anos, a tensão deflagrou depois de uma tentativa falhada de os Estados Unidos invadirem a ilha. Hoje, a tensão é justificada com o desejo do Presidente norte-americano em tomar controlo da ilha — não necessariamente pela via militar, mas através de uma “tomada de poder amigável”, nas suas próprias palavras. O primeiro passo deste plano fez-se sentir na forma de um bloqueio à importação de petróleo.
Os passos seguintes deverão passar uma saída negociada do Presidente Miguel Díaz-Canel do poder e a colocação no seu lugar de outra figura que conduza o Governo na direção de uma total abertura aos interesses económicos norte-americanos na ilha. A pressão de Trump resultou numa ação “pouco habitual” por parte de Díaz-Canel, como caracterizam analistas ouvidos pelo Observador: o Presidente cubano realizou uma rara conferência de imprensa em que confirmou que estão a decorrer negociações com os Estados Unidos. Lillian Guerra, professora de História cubana e das Caraíbas na Universidade da Florida, vai ainda mais longe. “Dizer que as declarações de Díaz-Canel são pouco habituais é um enorme eufemismo”, atira, crítica da falta de “transparência” do Executivo cubano.

A surpresa está nas declarações em si mesmas e não no seu conteúdo, que não tem anúncio inédito. A turbulenta relação entre Washington e Havana tem sido marcada por conversas constantes e, em nenhum ponto, Cuba anunciou negociações de alto nível, que envolvam os líderes e apontem para uma mudança de rumo definitiva nesta política externa. Mais do que isso, as declarações importam por surgirem no contexto atual, com uma profunda crise económica interna. Porém, os relatos sobre as negociações não parecem indicar um fim desta realidade de crise, mas antes uma solução intermédia — que agrada ao poder político em Washington, mas não dá resposta às exigências dos seus eleitores ou às dificuldades do povo cubano.
Cuba é um “velho frágil em diálise”. E as ações de Trump foram “um murro nos rins”
A sexta-feira passada começou, em Cuba, com a declaração de Díaz-Canel ao país. “[Estamos a] identificar os problemas bilaterais que precisam de uma solução“, declarando, notando que as negociações decorrem “numa base de igualdade e respeito pelo sistema político dos dois Estados e a soberania e autodeterminação”. Mas as palavras parecem ter feito pouco para acalmar os ânimos exaltados. Antes de o dia terminar, um grupo de pessoas atirou pedras e tentou pegar fogo à sede do Partido Comunista — o partido único no poder — na cidade de Morón, no centro do país. O facto de ter sido utilizada violência por parte dos manifestantes torna este incidente raro. Mas esta está longe de ser uma demonstração de descontentamento isolada.
A última vez que este sentimento se generalizou na ilha foi em 2o21, com protestos desencadeados pela falta de alimentos e medicamentos na ilha, apontam os especialistas. A escassez era o resultado da crise económica causada pela pandemia de Covid-19, mas o Governo de Díaz-Canel reprimiu os protestos que irromperam. Porém, uma série de fatores acumulados contribuíram para que a crise se continuasse a aprofundar.
Por um lado, as decisões de Trump durante a primeira administração reverteram os progressos que tinham sido feitos durante a administração de Barack Obama. Alguns dos especialistas ouvidos pelo Observador destacam a importância da declaração de Cuba como um Estado patrocinador de terrorismo, que restringiu o turismo, um dos principais motores económicos da ilha, pois dificultou a obtenção de vistos para Cuba, mas também a importação de produtos — que se fez sentir principalmente na importação de produtos agrícolas, de que Cuba é em grande parte dependente.
O segundo ano da atual administração Trump acentuou, contudo, este cenário de crise que já se tinha instalado. Em menos de um mês, Washington capturou Nicolás Maduro, retirando a Venezuela do já curto leque de aliados e fornecedores de petróleo de Cuba, e impôs um bloqueio total à entrada de petróleo, essencial para a produção de energia, ameaçando com tarifas secundárias os países que violassem o bloqueio. “O que Trump está a fazer é dar um murro nos rins de um velho frágil em diálise. O murro não é a razão para ele estar gravemente doente, mas é a razão por que está prostrado no chão com dores”, simplifica Andrés Pertierra, especialista em história de Cuba na Universidade de Wisconsin-Madison, ao Observador.
As “dores” tornaram-se insuportáveis para a população em poucas semanas: os apagões tornaram-se cada vez mais frequentes em vários pontos da ilha e culminaram, na passada segunda-feira, num apagão a nível nacional. “[Se a situação continuar], vamos todos tornar-nos zombies”, lamentou uma residente em Havana ao El País. A mulher explicou que não só não pode trabalhar porque depende do computador, como utilizou as poucas horas de eletricidade nas últimas semanas para fazer todas as tarefas domésticas. Neste cenário, não sobra espaço para dormir, conviver ou viver uma vida normal, argumenta — e o descontentamento faz-se sentir.
Abertura a investimentos norte-americanos pode ser “muito pouco, demasiado tarde”
Olhando apenas para o nome de Oscar Pérez-Oliva Fraga não é possível saber este facto, mas o Ministro dos Negócios e Investimentos Estrangeiros de Cuba faz parte da família política mais famosa da ilha: é sobrinho-neto de Fidel e Raúl Castro, os líderes revolucionários e antigos Presidentes de Cuba. Foi Fraga quem, na segunda-feira, anunciou a abertura de portas ao investimento de cubano-americanos e exilados cubanos a viver no estrangeiro, assim como a empresas norte-americanas.
Helen Yaffe, professora de economia política na Universidade de Glasgow e apresentadora do podcast Cuba Analysis, salienta ao Observador que as declarações do ministro serviram principalmente para reiterar uma política já existente. As palavras de Fraga permitem perceber isso mesmo. “Reiterámos em diferentes ocasiões que as portas de Cuba estão abertas a investimentos da comunidade cubana a viver no estrangeiro”, declarou. Já sobre a possibilidade de investimentos norte-americanos, Fraga argumentou que o principal impedimento da sua concretização é o bloqueio imposto por Washington.

A especialista em política cubana vê nas entrelinhas das declarações de Díaz-Canel e de Fraga uma das traves mestras do regime cubano: a resistência à pressão norte-americana. Mas esta linha ideológica do regime é vista de uma forma mais prática pela população. “[O Presidente] é um mestre a desviar-se das questões, dá sempre a mesma resposta: é tudo culpa do bloqueio”, criticou uma mulher cubana da província de Cienfuegos ao El País, que viu nas palavras não uma cedência à pressão norte-americana, mas a mesma “desculpabilização eterna”.
Além disso, o modelo de investimento descrito pelo sobrinho-neto dos Castro não é um modelo inédito de Cuba, mas parte de “um modelo testado e bem sucedido dos Estados socialistas que avançam com reformas de mercado”, como na China de Deng Xiaoping, aponta Andrés Pertierra. No caso concreto de Cuba, já foi debatido durante as negociações de Havana com Washington durante a administração de Barack Obama e é há muito defendido por economistas cubanos críticos do Governo. O modelo é particularmente relevante para fazer frente à dependência agrícola de um país com as condições geográficas ideais para a produção agrícola, mas com limitado investimento privado na área.
Ainda assim, o momento do anúncio é relevante: Cuba está mais isolada, mais fragilizada economicamente e a pressão direta dos Estados Unidos tornou-se impossível de ignorar. Para a professora Lillian Guerra, os anúncios mais recentes de Havana são o reflexo de uma economia cubana que chegou a um “ponto sem retorno”. Em vez de ceder às ambições e pressões de Trump, que “ambiciona uma tomada de controlo corporativo”, Cuba procura responder com um modelo intermédio, que já teve aprovação em administrações norte-americanas anteriores e entre críticos do regime — mas isso pode ser “muito pouco, demasiado tarde”, alerta.
https://observador.pt/especiais/depois-da-venezuela-cuba-trump-quer-depor-regime-de-havana-ate-ao-final-de-2026-esta-a-ponto-de-cair/
E para atual administração norte-americana, é mesmo. Quem o disse foi Marco Rubio, numa conferência de imprensa esta terça-feira. “[Cuba] tem uma economia que não funciona num sistema político e governamental. Eles têm de a mudar de forma dramática. O que anunciaram ontem [segunda-feira] não é dramático o suficiente. Não vai resolver isto”, declarou o secretário de Estado norte-americano, filho de cubanos e impulsionador da ofensiva de Trump contra Cuba.

A solução benéfica para todas as partes: a saída de Díaz-Canel
Quando a professora Helen Yaffe chegou a Cuba no início de janeiro, tinham passado poucos dias da captura de Nicolás Maduro na Venezuela, e o sentimento de tensão era palpável, descreve. Mas outro sentimento também se fazia sentir: “uma determinação absoluta [em torno da ideia] ‘é bom que os EUA nem tentem uma operação militar em Cuba’, porque eles vão resistir, mesmo que sejam críticos do Governo”, descreve ao Observador — num sentimento que atribui à atribulada relação histórica com o colonialismo e a soberania nas Caraíbas.
Na verdade, uma intervenção militar não parece ser a prioridade norte-americana, ainda que o Presidente não a tenha excluído. “Toda a minha vida ouvi falar dos Estados Unidos e de Cuba, quando é que os Estados Unidos vão ter a honra de tomar Cuba? É uma grande honra. (…) Eu posso libertar, tomar controlo, acho que posso fazer o que quiser com isto”, ponderou Donald Trump na passada segunda-feira. Mesmo mantendo todas as opções em aberto, há uma opção que o Presidente tem mencionado repetidas vezes: “uma tomada de poder amigável”.
A oposição dos Estados Unidos a uma intervenção militar em Cuba é facilmente explicável com a proximidade geográfica à ilha e a larga comunidade imigrante cubana no país. Uma ofensiva militar em Cuba poderia criar um êxodo à porta dos Estados Unidos e uma crise humanitária de refugiados cubanos a tentar entrar no país. Colocada de lado esta opção, como é que os Estados Unidos podem tomar controlo de Cuba de forma “amigável”?
O plano deverá passar por uma saída negociada de Díaz-Canel e a sua substituição por um nome mais adepto da abertura aos Estados Unidos. Pelo menos, este é o cenário que tem sido discutido entre Marco Rubio e Raúl Guillermo Rodríguez Castro, neto de Raúl Castro, noticiou o New York Times, que cita quatro pessoas com conhecimento dos diálogos diretos. A etapa seguinte seria a criação daquilo que o jornal norte-americano descreve como “um Estado cliente” — ou seja, uma Cuba económica e politicamente dependente dos Estados Unidos. A posição norte-americana não está a ser “articulada como um ultimato”, mas como uma oferta benéfica para todas as partes, elaboram as mesmas fontes.

Para Trump, a vitória é principalmente simbólica. Tal como o Presidente salientou, Cuba tem sido uma “pedra no sapato” de Washington durante “toda a sua vida”. Acabar com o regime socialista cubano seria uma vitória ideológica para o legado que está a tentar construir no seu segundo mandato. “Para Trump é tudo sobre espetáculo e teatro, ele precisa de ter algo substancial para poder cantar vitória”, aponta Lillian Guerra, filha de pais cubanos que nasceu e viveu nos EUA. A retirada de Díaz-Canel seria, para Trump, um passo concreto mais do que um mero simbolismo, remata.
Já a vitória de Havana estaria no facto de, na verdade, a saída de Díaz-Canel não representar uma queda do regime. A possibilidade de “Raulito”, o neto e guarda-costas de Raúl Castro, assumir a liderança interina de facto do regime não foi excluída pelos norte-americanos. Porém, os especialistas apontam que, na prática, isto significa que o regime continuaria nas mesmas mãos, devido à sua estrutura centralizada. O Miami Herald, que também noticiou as negociações, destaca que Castro, apesar de não ter um papel formal no Governo, está envolvido na gestão do GAESA, o Grupo de Administração de Negócios gerido pelas Forças Armadas Revolucionárias que controla cerca 40% dos negócios da ilha. Ou seja, a manutenção do GAESA e da preponderâncias das Forças Armadas é o que mantém o regime, não a figura individual de Díaz-Canel, pelo que a sua saída pode ser vista como uma vitória por muitos dos interessados. Mas não por todos.
O descontentamento de Miami e de Havana. Os “buracos” no plano de Trump
Quando a URSS desapareceu oficialmente, em 1991, a onda de choque fez-se sentir no mundo inteiro. Do outro lado do globo o choque foi particularmente forte: a União Soviética não era apenas o principal parceiro ideológico, mas também o principal apoio económico de Cuba. Trinta anos depois, Cuba está novamente afundada numa crise económica. “É de muitas formas pior que a crise dos anos de 1990, mas com a desvantagem adicional que a presença carismática e culto de personalidade bem cultivados de Fidel Castro desapareceram com ele”, aponta o historiador Andrés Pertierra, filho de pais cubanos e licenciado na Universidade de Havana.
Lillian Guerra, crítica do regime cubano, aponta a capacidade discursiva de Fidel, capaz de “falar por horas e explicar os ‘comos’ e os ‘porquês’ da sua governação” como o seu ponto forte, que o tornava confiável junto do povo cubano. Miguel Díaz-Canel é, neste aspeto, uma figura completamente oposta — o que ficou visível na reação surpreendida à rara conferência de imprensa mais aprofundada que deu na passada sexta-feira. Além da falta de comunicação ou transparência, o Presidente cubano enfrenta outras limitações: “Não tem nem um mandato democrático, nem a legitimidade de ter lutado na Sierra Maestra na década de 1950, nem o apelido Castro”, elenca Andrés Pertierra.

Neste contexto, torna-se mais fácil compreender os dois nomes que têm vindo a ser apontados como possíveis sucessores de Díaz-Canel num governo de transição: o neto de Rául, Raúl Guillermo Rodríguez Castro, e o sobrinho-neto dos Castro, Oscar Pérez-Oliva Fraga, apontado como a “Delcy Rodríguez de Havana“. Ambos os nomes têm influência junto do poder central de Havana e o peso do nome do “clã Castro”, o que pode sustentar a transição, criando um sentimento de estabilidade e continuidade dentro de Cuba.
Porém, este enquadramento não tapa os “muitos buracos” que, nas palavras de Andrés Pertierra, os analistas encontram no plano de Trump. Em primeiro lugar, apesar de todas as limitações, foi a lealdade de Díaz-Canel aos ideias da revolução cubana que levou Raúl Castro a escolhê-lo como sucessor e que guiou as suas ações como Presidente ao longo dos últimos sete anos. É difícil imaginar uma mudança súbita nesta linha ideológica de anti-imperialismo norte-americano que tem sido inabalável desde a década de 1950 — mesmo com algumas cedências na questão económica — e uma aceitação da proposta da Casa Branca para uma saída negociada.
Por outro lado, o plano parece ser pouco ambicioso para a comunidade cubana nos Estados Unidos, da qual faz parte Marco Rubio, muito mais crítica do regime e mais vocal nas críticas e na pressão sobre a política externa da Casa Branca. Para esta parte do eleitorado de Trump, a saída de apenas um rosto do regime cubano não é suficiente. “Rubio quer ver o fim do socialismo e do Estado socialista de Cuba e o regresso das antigas elites”, acredita a professora Helen Yaffe.
Para além de não agradar à diáspora, Lillian Guerra critica esta opção, por não dar resposta à realidade no terreno: os apagões constantes, o preço crescente dos alimentos e o descontentamento social que vai tomando conta da população. Em vez de o foco de Washington estar na melhoria da qualidade de vida real da população, está no cumprimento de objetivos políticos e na manutenção do poder do Estado e das Forças Armadas, denuncia. “Ironicamente, quanto mais tempo Trump demorar a agir, mais zangadas ficam as pessoas. E agora têm dois alvos para o seu descontentamento: o primeiro, na direção da liderança local; o segundo, na direção de Trump”, resume.