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Laplaine, o histórico do CDS e todo poderoso da CML que é amigo de Costa e foi detido na Operação Lúmen

Democrata-cristão desde sempre, está na autarquia lisboeta há 38 anos. A sua casa foi palco das negociações entre PS e CDS que selaram os "orçamentos limiano". Foi assessor de Sampaio em Belém.

Miguel Pereira Santos
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Alberto Laplaine Guimarães juntou-se aos quadros da Câmara de Lisboa (CML) em maio de 1987, após ter sido “desafiado” nesse sentido pelo então presidente da autarquia, Nuno Krus Abecassis, que conhecia do CDS. Mantém-se lá desde então. Nos seus 38 anos como funcionário municipal, dirigiu vários departamentos, foi assessor do presidente da câmara João Soares e nomeado secretário-geral da CML — cargo que ocupa desde 2011 — durante os anos de António Costa à frente da capital. Travou grandes amizades com outros notáveis socialistas como Jorge Sampaio e serviu muitas vezes de ponte entre PS e CDS.

Esta terça-feira foi uma das quatro pessoas detidas pela Polícia Judiciária (PJ) durante as buscas da Operação Lúmen. As autoridades suspeitam que estes detidos praticaram crimes de “corrupção ativa e passiva, participação económica em negócio, abuso de poder e associação criminosa, relacionados com o fornecimento e instalação de iluminações festivas”. De acordo com o Expresso, Laplaine Guimarães é suspeito de ser “quem decidiu a configuração e a execução” dos acordos entre a Câmara de Lisboa e a Castros Iluminações Festivas, a maior empresa no mercado de iluminações de Natal, que terão lesado a autarquia em benefício desta última.

A Secretaria-geral da CML é a direção técnica da autarquia responsável pelos serviços mais políticos e próximos dos eleitos locais. “Formalmente, ele é um entre vários diretores municipais. Na prática, ele é o primeiro entre os diretores municipais”, explica ao Observador fonte da autarquia. Sob a sua tutela estão estruturas importantes como o gabinete de apoio da Assembleia Municipal de Lisboa (AML), as divisões de apoio à Câmara, de organização de eventos, de protocolo, de relações internacionais assim como o departamento jurídico municipal.

A natureza técnica do cargo tem permitido a permanência de Laplaine Guimarães no mesmo ao longo de 15 anos, apesar da sua militância ativa no CDS. Carlos Moedas lembrou isso mesmo de modo a distanciar-se das buscas e detenções realizadas a propósito da Operação Lúmen: “É da parte técnica da Câmara, portanto, não há aqui nenhuma escolha política”. Ainda assim, os cargos de Moedas e Laplaine Guimarães obrigam a uma frequente articulação entre os dois, considerando que a maioria dos departamentos da Secretaria-geral da CML respondem diretamente ao presidente da Câmara.

A amizade com António Costa foi uma importante ponte entre democratas-cristãos e socialistas em vários momentos. Primeiramente, o ex-primeiro-ministro terá tido influência na ida de Laplaine Guimarães para a Casa Civil de Sampaio. Anos depois, durante o segundo governo de António Guterres, as negociações que garantiram a aprovação de dois Orçamento de Estado por Daniel Campelo, então deputado do CDS, terão ocorrido em casa de Laplaine Guimarães, revela um socialista ao Observador — eram os tempos do "Orçamento Limiano"

Amigo “improvável” de Sampaio

O atual secretário-geral da CML licenciou-se em Direito pela Universidade Clássica de Lisboa, em 1984, e, passados três anos, entrou na autarquia lisboeta pela mão do presidente da Câmara democrata-cristão, Nuno Krus Abecassis. Tinha-se filiado à Juventude Centrista (nome original da Juventude Popular) num comício realizado a 4 de novembro de 1974, quando tinha apenas 15 anos. Apesar da sua ligação partidária, manter-se-ia em funções em Lisboa durante os mandatos dois mandatos de Jorge Sampaio (1990-1995) à frente da autarquia, ao longo dos quais desenvolveu uma amizade com o socialista.

Laplaine Guimarães admitiu inclusivamente, numa entrevista recente à Antena 1, ter votado duas vezes na coligação autárquica entre PS e CDU que elegeu Sampaio, apesar de nunca ter deixado de ser militante do CDS. Se nos seus tempos na jota era adepto de uma “ação política radical”, o cruzamento de caminhos políticos com o antigo Presidente da República fê-lo moderar o seu posicionamento. “O Jorge Sampaio dizia que era um aggiornamento político, porque ele tinha moderado as posições dele e eu também”, contava na mesma entrevista.

Essa proximidade a Sampaio valeu-lhe um bilhete de ida dos Paços do Concelho ao Palácio de Belém, para onde o socialista foi eleito em 1996. Laplaine Guimarães foi assessor de Sampaio durante seu o primeiro mandato presidencial e manteve-se como secretário do Conselho de Estado ao longo dos 10 anos de Sampaio na Presidência. A “amizade improvável” não se desenvolveu sem momentos de tensão e a dissolução da Assembleia da República em 2005, que resultaria na maioria absoluta de José Sócrates, foi um “momento de clivagem” entre ambos, como lembrava, em 2021, Sebastião Bugalho num artigo de opinião publicado Diário de Notícias.

O atual eurodeputado do PSD — que foi candidato a deputado do CDS como independente — recordava na mesma crónica como Laplaine Guimarães foi decisivo para os democratas-cristãos não apoiarem Cavaco Silva nas presidenciais de 1996. Após ter publicado uma crónica no Diário de Notícias a anunciar o seu apoio à candidatura de Sampaio, o atual secretário-geral da CML organizou um jantar em sua casa onde juntou o candidato e Manuel Monteiro, acompanhados igualmente por António Costa. O encontro foi decisivo para que o então presidente do CDS tenha decidido dar liberdade de voto aos militantes centristas para essas presidenciais.

Fazedor das pontes PS-CDS

As funções no gabinete da Presidência não o afastaram definitivamente da Câmara de Lisboa. Depois de Sampaio, Laplaine Guimarães associou-se novamente a um presidente de Câmara eleito por uma coligação das esquerdas, no caso João Soares, de quem foi assessor entre 1996 e 2002. Durante as quase quatro décadas na autarquia, foi também diretor do Gabinete de relações internacionais, institucionais e intermunicipais, diretor do departamento de apoio à gestão e atividade institucional, e diretor do gabinete de apoio ao investimento. Esta carreira não era novidade para a família: ainda durante a ditadura, o pai de Laplaine Guimarães tinha sido chefe de divisão de tráfego na Câmara de Lisboa.

Em 2011, já com António Costa à frente da autarquia, Laplaine Guimarães foi nomeado para o cargo de secretário-geral da CML. A ligação ao atual Presidente do Conselho Europeu remonta aos tempos em que ambos eram estudantes de Direito na Clássica, quando o centrista era politicamente ativo e ainda se entretinha “a queimar cartazes do PC na faculdade”. Nessa altura, travou amizade com várias caras conhecidas da política nacional, desde o comunista António Filipe a Manuel Monteiro, de tal modo que este último o convidaria para a direção da Juventude Centrista quando foi eleito líder dos jotas do CDS.

A amizade com António Costa foi uma importante ponte entre democratas-cristãos e socialistas em vários momentos. Primeiramente, o ex-primeiro-ministro terá tido influência na ida de Laplaine Guimarães para a Casa Civil de Sampaio. Anos depois, durante o segundo governo de António Guterres, as negociações que garantiram a aprovação de dois Orçamento de Estado por Daniel Campelo, então deputado do CDS, terão ocorrido em casa de Laplaine Guimarães, revela um socialista ao Observador — eram os tempos do “Orçamento Limiano”.

A amizade Costa-Laplaine passou, entretanto, para a geração mais nova. Franscico Laplaine Guimarães, filho do secretário-geral da CML, é também amigo de longa data de Pedro Costa, filho do Presidente da Conselho Europeu. Isto apesar de ambos terem herdado as cores políticas dos respetivos pais: Pedro foi presidente da junta de Campolide, em Lisboa, eleito pelo PS; Francisco foi vice-presidente do CDS, durante a liderança de Francisco Rodrigues dos Santos — com quem, aliás, Pedro Costa faz parelha num painel de comentário político na CNN.

O atual secretário-geral da CML licenciou-se em Direito pela Universidade Clássica de Lisboa, em 1984, e, passados três anos, entrou na autarquia lisboeta pela mão do presidente da Câmara democrata-cristão, Nuno Krus Abecassis. Tinha-se filiado à Juventude Centrista (nome original da Juventude Popular) num comício realizado a 4 de novembro de 1974, quando tinha apenas 15 anos. Apesar da sua ligação partidária, manter-se-ia em funções em Lisboa durante os mandatos dois mandatos de Jorge Sampaio (1990-1995) à frente da autarquia, ao longo dos quais desenvolveu uma amizade com o socialista

Rigidez protocolar

Os laços com socialistas nunca ditaram o rompimento com o seu partido de sempre. Alberto Laplaine Guimarães é membro do conselho de administração do Instituto Adelino Amaro da Costa, fundador do CDS que morreu no acidente de avião que também vitimou o então primeiro-ministro Francisco Sá Carneiro. Ocupa o cargo desde 2017, após assegurado a presidência da assembleia geral da mesma fundação, durante os seis anos anteriores.

Os valores conservadores do CDS também não ficaram para trás. Laplaine Guimarães, que tem a tutela do protocolo da Câmara de Lisboa, terá sido protagonista num conflito insólito, em 2016. Na primeira celebração oficial do dia internacional contra a homofobia e transfobia, a bandeira LGBT foi hasteada na sede da autarquia, a pedido do presidente Fernando Medina.

Horas mais atarde, a deputada municipal Helena Roseta chamou atenção da AML, dizendo que a mesma bandeira tinha sido retirada da fachada dos Paços do Concelho. A Câmara de Lisboa explicou, na altura, que se tratava de “um lapso” e voltou a colocar a bandeira, mas fonte da autarquia conta ao Observador que o secretário-geral da CML foi o responsável por retirá-la.

A sua interpretação rígida do protocolo da autarquia também já teve como alvo militantes do seu próprio partido. Outro episódio caricato ocorreu numa cerimónia solene, em que o secretário-geral da CML esteve encarregue de colocar os colares de vereador aos membros do executivo municipal. Neste evento, o vereador do CDS José Gonçalves Pereira estava a ser substituído pela democrata-cristã Maria Orisa Roque, a quem Laplaine Guimarães se recusou a colocar o colar por considerar que não se tratava de um membro efetivo do executivo.

Devido ao seu papel na administração da capital, Laplaine Guimarães ocupou outros cargos relevantes em instituições de âmbito local. É vice-presidente do Clube de Lisboa, administrador da Fundação Cidade de Lisboa e foi secretário-geral adjunto da Organização Mundial de Cidades. Também está ligado à área da gastronomia, sendo vice-presidente da Associação Portuguesa Gastronómica e presidente da Comunidade Europeia de Cultura Gastronómica.

É ainda membro da Academia Europeia de Artes e Ciências e vice-presidente do Grémio Literário, sendo co-autor de vários livros. Foi professor auxiliar na Universidade Moderna e convidado no Instituto Português de Estudos Superiores. Até assumir a assessoria do Presidente Jorge Sampaio, manteve a sua atividade como advogado num escritório privado, sendo que, durante o primeiro Governo de Cavaco Silva (1985-1987), foi diretor do gabinete de consulta jurídico do Ministério da Justiça.