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(A) :: Centeno teve 20 anos de trabalho efetivo no Banco de Portugal mas para o cálculo da reforma antecipada contaram quase 35

Centeno teve 20 anos de trabalho efetivo no Banco de Portugal mas para o cálculo da reforma antecipada contaram quase 35

Ex-governador passou a segunda metade dos anos 90 nos EUA, com bolsa do BdP, e só regressou em 2000. Depois, em 2015, foi para o Governo, regressando em 2020 para cinco anos como governador.

Edgar Caetano
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Mário Centeno teve apenas cerca de 20 anos de trabalho efetivo no Banco de Portugal (15 como economista e cinco como governador) mas negociou, por iniciativa do novo governador Álvaro Santos Pereira, uma reforma antecipada que considerou a totalidade da carreira de quase 35 anos. Segundo apurou o Observador, Centeno fica a receber uma reforma inferior ao salário de 15 mil euros que auferia até agora, desde que deixou de ser governador – e por isso, a prazo, o Banco de Portugal poupa algum dinheiro. Porém, para acabar com a incómoda situação de “dois papas” que se perspetivava, Álvaro Santos Pereira tem de assinar um cheque para dar ao fundo de pensões aquilo que seria pago nos anos que faltavam até à reforma.

Cerca de três meses depois de ceder o lugar de governador, um lugar onde queria ficar mais cinco anos, Mário Centeno ainda não tinha feito qualquer trabalho na sua nova função de “consultor da administração”. Questionado sobre o tema pelo Observador numa conferência de imprensa, a 20 de dezembro, Álvaro Santos Pereira explicou que o antigo governador estava a gozar um “período de cooling off, ao qual tem direito, nos termos da lei“.

Seguindo a tradição recente do Banco de Portugal, mais tarde ou mais cedo Mário Centeno iria receber alguma tarefa atribuída diretamente pelo governador – porque é isso que os “consultores de administração” do Banco de Portugal tipicamente fazem, a troco de uma remuneração mensal de topo da carreira (cerca de 15 mil euros por mês no caso do ex-governador).

https://observador.pt/especiais/banco-de-portugal-a-casa-onde-os-administradores-ganham-200-mil-por-ano-e-garantem-quase-o-mesmo-depois-como-consultores/

Mas Santos Pereira acabou por nunca lhe dar qualquer trabalho e, após quase seis meses de cooling off (arrefecimento), as duas partes acabaram por fazer um acordo para seguirem cada uma o seu caminho, algo que foi noticiado pelo jornal Eco na última sexta-feira.

Ou seja, apesar de Mário Centeno ter estado mais seis meses no quadro do Banco de Portugal, a fazer contribuições para o fundo de pensões (que, agora, lhe irá pagar a reforma), foram mais seis meses que não contam para o total de anos de trabalho efetivo do ex-governador naquela instituição.

Centeno sai do Banco de Portugal com um acordo para reforma antecipada, algo que as regras do fundo de pensões do supervisor preveem que possa acontecer após um mínimo de 50 anos de idade e 15 anos de serviço. Mas, segundo a informação disponível, foi considerada uma carreira de praticamente 35 anos – embora o economista tenha passado pouco mais de metade desse tempo a trabalhar, efetivamente, no supervisor.

Questionado, o Banco de Portugal não quis dar qualquer resposta às várias questões enviadas pelo Observador.

A bolsa nos EUA (paga pelo BdP) e a recente homenagem pelos… 25 anos de serviço

Depois de se licenciar em Economia, pelo ISEG, em 1990, de acordo com a informação recolhida pelo Observador, Mário Centeno começou a trabalhar naquela instituição de ensino superior cerca de dois anos depois, em 1992. Ao mesmo tempo, estava a fazer um mestrado em Matemática Aplicada que concluiria em 1993.

Só depois, em 1995, é que entra como técnico no Banco de Portugal. Mas não chega a “aquecer o lugar” na instituição porque ainda nesse ano de 1995 vai para Harvard (EUA) fazer o doutoramento, com uma bolsa paga pelo supervisor. António de Sousa era, nessa altura, o governador mas, segundo uma fonte ouvida pelo Observador, o ex-governador Vítor Constâncio teve uma grande influência na atribuição dessa bolsa do Banco de Portugal a Mário Centeno.

Apesar de o economista não estar efetivamente no Banco de Portugal, mas sim a estudar nos EUA, esses anos contaram para os anos de serviço que, agora, serviram de base para o cálculo da sua reforma, de acordo com a informação obtida pelo Observador. E foi, também, contando esses anos que Centeno disse no Parlamento que tinha “uma carreira de 35 anos no Banco de Portugal“.

O ataque de Santos Pereira e a resposta de Centeno, com dias de diferença mas no mesmo local: o parlamento

A 17 de setembro de 2025, Álvaro Santos Pereira foi ouvido parlamento, a poucas semanas de tomar posse, e disse que não sabia o que é que Mário Centeno iria querer fazer da vida nos tempos seguintes – porque este ainda não o tinha “informado”. Mas, não sabendo isso, disse que sabia várias outras coisas: sabia que se estivesse no seu lugar, tendo sido governador (e não tendo sido reconduzido), não continuaria no banco – nem mesmo como “consultor da administração”, o cargo frequentemente dado a ex-administradores.

Poucos dias depois, a 26 de setembro, também Mário Centeno foi ouvido numa comissão parlamentar foi taxativo: “É evidente que vou ficar no Banco de Portugal”. Salientando que, na sua ótica, tem 35 anos de carreira como funcionário do banco central, Centeno respondeu assim ao deputado Paulo Núncio (CDS): “Sabe o que são 35 anos? Está disponível para respeitar uma carreira de 35 anos? Acho que toda a gente vai estar”, afirmou, numa alusão indireta a Álvaro Santos Pereira.

O doutoramento em Economia nos EUA é terminado em 2000, ano em que Constâncio volta a assumir o cargo de governador (que já tinha exercido nos anos 80). Aí, Centeno regressa a Portugal para iniciar trabalho como economista – é isso, aliás, que é dito na sua biografia oficial no site do Conselho Europeu (escrita a propósito de ter sido presidente do Eurogrupo).

Aliás, na recente comemoração do 179.º aniversário do Banco de Portugal, em novembro de 2025, foram homenageados os quadros que completavam 15, 25 e 35 anos de serviço – e, de acordo com a informação interna vista pelo Observador, Mário José Gomes de Freitas Centeno aparece no grupo dos homenageados que completavam 25 anos.

Na recente comemoração do 179.º aniversário do Banco de Portugal, em novembro de 2025, foram homenageados os quadros que completavam 15, 25 e 35 anos de serviço – e, de acordo com a informação interna vista pelo Observador, Mário José Gomes de Freitas Centeno aparece no grupo dos homenageados que completavam 25 anos.

Quatro anos depois de começar a trabalhar no Banco de Portugal como economista, passa em 2004 a diretor-adjunto do departamento de estudos económicos, cargo que ocupou até 2013. Aí, a então diretora do departamento, Ana Cristina Leal, sai para integrar a administração da Caixa Geral de Depósitos, algo que se passou já no tempo de Carlos Costa como governador do Banco de Portugal. E foi aí que surgiu, então, o concurso para diretor que levou à rutura entre os dois.

Mário Centeno queria o lugar, tinha um dos currículos melhores entre os que se candidataram, mas o concurso acabou por ser cancelado. Foi em pleno programa de intervenção da troika e Centeno tinha assumido algumas posições políticas, umas mais públicas do que outras, o que terá contribuído para que fosse visto como um candidato que não teria a isenção necessária para aquele cargo.

Como prémio de consolação, Carlos Costa deu a Centeno um lugar de “consultor de administração”, em que foi incumbido de preparar algumas conferências internacionais a pedido do governador. As contribuições continuaram a ser feitas para o fundo de pensões – tanto pelo próprio Centeno, descontando do seu salário, como pelo Banco de Portugal – mas o economista passou a estar mais desligado do supervisor e a ter mais tempo para se envolver na política. Foi nessa sequência que, em 2015, liderou o grupo de peritos que elaborou o programa económico de António Costa, o então candidato a primeiro-ministro.

Quando Costa vence as eleições, no final de 2015, Centeno é escolhido para ministro das Finanças e, mantendo-se no quadro do supervisor, segue para a Praça do Comércio em missão de destacamento. Também aí a prática geral é que o Banco de Portugal continua a fazer os descontos para o fundo de pensões, a contar esse tempo de serviço, ao mesmo tempo que o próprio trabalhador mantém o vínculo e continua a fazer as suas contribuições – foi o caso de várias pessoas, como Vítor Gaspar, por exemplo, explica uma fonte.

Centeno aí permanece até que, na primavera de 2020, em plena pandemia, anuncia a saída do cargo de ministro das Finanças. Poucos meses depois, no verão, é nomeado pelo seu sucessor, João Leão, seu antigo secretário de Estado do Orçamento, para governador do Banco de Portugal – cargo onde permaneceria cinco anos, até início de outubro de 2025.

Contribuições para fundo de pensões desde 1995. Mas anos do ISEG também terão contado

Contas feitas, foram cerca de 20 anos de trabalho efetivo na instituição, incluindo os anos de 2013-2015 em que Centeno, como “consultor da administração”, teve tempo para apostar no lançamento da carreira política. Ainda assim desde o momento em que o economista se torna funcionário do banco, em 1995, até hoje decorreram cerca de 30 anos.

Ao contrário do que foi inicialmente noticiado, Centeno não cumpria, ainda, os critérios para chegar à reforma. Segundo as regras, seriam 60 anos de idade (que cumpre em dezembro próximo) e 35 anos de serviço (vide cláusula 103.º).

O Banco de Portugal não esclareceu o Observador sobre qual é, afinal, o número de anos de serviço que serviu de base para a negociação que foi tida. O supervisor disse, apenas, numa nota enviada à agência Lusa na segunda-feira que a saída de Centeno foi “acordada entre as partes no quadro do regime de aposentação ao abrigo do fundo de pensões existente no Banco de Portugal para trabalhadores admitidos até março de 2009″.

https://observador.pt/2026/03/16/reforma-de-centeno-enquadra-se-no-fundo-de-pensoes-existente-no-banco-diz-banco-de-portugal/

As regras do fundo de pensões no qual Centeno está abrangido dizem que basta alguém ter, pelo menos, 50 anos de idade e 15 anos de serviço no Banco de Portugal para que seja possível negociar com a instituição uma reforma antecipada.

A palava-chave, aqui, é “negociar” porque, embora esses 50/15 anos sejam um mínimo abaixo do qual a reforma antecipada é impossível, o valor a que se chega tem de ser aprovado pelas duas partes. E, aí, é determinante para o poder negocial do trabalhador o tempo de serviço que lhe falta para chegar aos 60 anos de idade e 35 anos de serviço.

No caso de Centeno, ao que foi possível apurar, desde 1995 que são feitas contribuições em seu nome para o Fundo de Pensões – o que significa que a carreira ronda os 30/31 anos.

No entanto, de acordo com fonte próxima do ex-governador, o Banco de Portugal também considera os anos em que Centeno esteve no ISEG, no início da carreira, e depois recupera a parte da pensão da Caixa Geral de Aposentações (CGA) que lhe será paga.

https://observador.pt/2026/03/15/chega-chama-governador-do-banco-de-portugal-ao-parlamento-para-explicar-reforma-imoral-de-mario-centeno/

O Chega anunciou no domingo que vai chamar ao Parlamento, com caráter de urgência, o atual governador do Banco de Portugal, Álvaro Santos Pereira, para dar explicações sobre os contornos da saída do antigo governador, Mário Centeno, para a reforma. O anúncio foi feito por André Ventura, líder do partido, que afirmou que os detalhes da reforma de Centeno, aos 59 anos de idade, causam “perplexidade”.

“Tem 59 anos, não 67 como é exigido à grande maioria da população portuguesa. Não está em nenhuma classe de desgaste rápido”, afirmou Ventura, alegando que Centeno chegou a um acordo para uma reforma antecipada “com benefícios absolutamente escandalosos”.