Praticamente desde que nasceu, no dia 5 de outubro de 1945, em Moçâmedes, mais de 900 quilómetros a sul de Luanda, Carlos António Castro sempre foi “diferente”. Um entre sete irmãos — quatro raparigas e três rapazes —, cresceu à beira-mar, a escrever poemas às escondidas do pai e do irmão mais velho.
“O meu pai era pescador e era uma pessoa muito complicada e nunca me aceitou. À minha maneira de ser, toda a minha sensibilidade, todos os meus medos, os meus fantasmas, e a minha forma de estar em casa”, contaria o conhecido cronista social em 2010, no programa de entrevistas “Há Conversa”, da RTP.
Em “Solidão Povoada”, a autobiografia que escreveu três anos antes, Carlos Castro foi mais longe nas revelações sobre a infância e a adolescência. Conta que a família era “pobre e simples” e o pai, mais do que apenas complicado, era “muito violento”. Com a ajuda de um dos irmãos, chegava a amarrá-lo aos pés da mesa da cozinha, para evitar que saísse de casa. Tudo, lê-se na autobiografia, porque não lhe perdoaria a “sensibilidade”, uma espécie de eufemismo para aquilo que, desde os primeiros anos, esteve sempre à vista de todos: Carlos António era homossexual.
Para aumentar ainda mais o desgosto paterno, este filho também era rebelde, por isso, sempre que podia, escapava-se de casa. Ou para se refugiar nas dunas, fronteira natural entre o deserto do Namibe e o oceano Atlântico, a ler ou a escrever os textos que depois enviava para concursos de prosa ou poesia. Ou então para ver filmes, no Cine Moçâmedes ou no Cine Impala, os dois cinemas da cidade.
Também na autobiografia revela que foi justamente numa destas salas que encontrou o seu primeiro amor, um oficial do exército de licença em Moçâmedes. Aconteceu tudo na segunda metade de 1961, meses depois do início da guerra no norte de Angola.
O oficial tinha 24 anos, Carlos apenas 15. Conheceram-se durante a sessão de “Sentimento”, de Visconti, estavam sentados lado a lado. Apresentaram-se, falaram sobre aquele e outros filmes, Carlos fez-se cicerone durante aqueles dias de férias e levou o oficial, “dono de uma figura de impressionante beleza e de uma personalidade rara”, a passear pelos sítios mais emblemáticos da cidade. Uma noite, revelou em “Solidão Povoada”, escaparam juntos para o deserto. “Se pudesse ter sido escrito na areia o que aconteceu naquela noite sem que o mesmo tivesse sido apagado, ainda lá estaria uma montanha firme, como se fosse uma bandeira maravilhosa, a revelar que, ali, aconteceu um ato de amor.”
Não foi apenas mais um escândalo. Foi o maior de todos. Acobertado pela mãe e pelas irmãs, Carlos António fugiu de casa e apanhou um avião para Luanda. Moçâmedes tinha-se tornado demasiado pequena para ele.
Das “farras” todos os fins de semana aos traumas para a vida, na cadeia militar em Luanda
Carlos Castro chegou à capital angolana em setembro de 1961, um mês antes de completar 16 anos. Nessa altura, Joaquim Fernando Seabra, que, quando cresceu, viria a conhecer Odília de Jesus Pereirinha, com quem teria dois filhos — Joana e Renato —, era um bebé, tinha apenas um ano e cinco meses. Vivia com a família em Cantanhede, uma pequena cidade no distrito de Coimbra.
No início da década de 1960, a metrópole era cinzenta. Já em Luanda havia “farras” todos os fins de semana. Carlos Castro conheceu cantores, poetas e escritores, acabou os estudos, entrou na rádio e começou a escrever contos e poemas para revistas e jornais. Durante um par de anos, viveu assim, entre concertos, peças de teatro e sessões contínuas de cinema. Depois, recebeu a temível convocatória para se apresentar na inspeção militar obrigatória.

“Fui à inspeção com 38 quilos e ninguém acreditava que ficasse. Mas fiquei. Um tormento”, escreveu na sua autobiografia. Era “pequenino e tinha o cabelo comprido”, mas foi dado como apto e enviado para o norte de Angola, junto à fronteira com o Congo. Posto a trabalhar nas cozinhas, tornou-se imediatamente uma espécie de mascote do batalhão.
Desses primeiros tempos, o que Carlos Castro mais recordava era o “sucesso” que tinha feito entre os camaradas recrutas. Mas acabou por cometer um erro, que não se limitou a manchar esta passagem pelo exército, deixou-o com traumas para o resto da vida.
Finalmente, está de licença. Pede boleia. Sobe para as traseiras de um camião carregado de sacas de farinha e põe-se a caminho de Luanda, primeiro, e Moçâmedes depois. Quer ver a mãe e as irmãs. Mas não calcula bem o tempo. Demora vários dias a chegar e depois de matar saudades ainda decide ir ter com a irmã Maria Alice, que está com a família em Sá da Bandeira, ainda mais longe de Luanda.
No dia em que a licença chega ao fim e em que deveria apresentar-se de novo no quartel, é lá que Carlos Castro está. Teve um acidente, a seguir adoeceu e a ferida com que ficou numa perna impede-o de andar e fazer a viagem de regresso.
Até tem um atestado, mas a justificação médica não é aceite. Quando finalmente regressa, é acusado de deserção e, sem direito a julgamento, encarcerado na cadeia militar de Luanda.
Durante meses, permaneceu detido, numa camarata com outros 150 homens. Sob a ameaça de uma navalha de ponta e mola, escreveu em “Solidão Povoada”, foi violado “quase todas as noites”. “A minha prisão por um crime menor deixara marcas para sempre”.
Espetáculos de travesti e a estreia na televisão — a nova vida de Carlos Castro em Lisboa
Só em 1975 — e apenas para se despedir da mãe e das irmãs — é que Carlos Castro regressou a Moçâmedes. O pai já tinha morrido. A ditadura tinha chegado ao fim e Angola estava em guerra civil. Era chegada a hora de Carlos Castro se mudar para Portugal.
Tem 30 anos. Desde que foi viver para Luanda, terminou os estudos, entrou para a rádio, começou a trabalhar como jornalista e fez amizade com celebridades da música e do teatro. Nunca deixou de escrever poesia e, em 1972, chegou a assinar a letra vencedora do Festival da Canção de Luanda. Agora, chegava a hora de começar tudo de novo. Mais uma vez.
Em Lisboa, onde aterrou apenas com a roupa que trazia vestida — umas calças de ganga e uma t-shirt —, lavou escadas e pratos. Na autobiografia e em várias entrevistas ao longo da vida, revela que chegou a passar fome. Depois, começou a trabalhar como travesti.
“Não tinha aqui ninguém que o apoiasse, não tinha trabalho, não tinha nada e acho que ele começou a fazer espetáculos de travesti. Acho que foi por aí que ele começou. E depois, ao fazer espetáculos de travesti, começou a entrar neste meio de Lisboa, da Lisboa boémia dos jornalistas, dos artistas e depois também foi por aí que ele depois começou a fazer crónica social”, conta agora ao Observador Palmira Correia, ex-jornalista, colega, amiga e, nos últimos anos de vida dele, vizinha do cronista social.
Dois anos mais tarde, Carlos Castro já colaborava com alguns jornais regionais, publicava como escritor e jornalista. E, ainda em 1977, havia de apresentar-se ao país no famoso “A Visita da Cornélia”, o programa mais visto da televisão portuguesa a preto e branco. Concorreu com uma amiga, apresentaram uma canção escrita por ele.


“Foi na Cornélia que despontaram nomes que, ainda hoje, todos admiram: o José Fanha, o Assis Pacheco, o Tozé Martinho, e a Tareka, sua mãe. Quando participo, o Mário Castrim escreve no Diário de Lisboa: ‘Hoje nasceu um poeta!’”, recordou o cronista social em “Solidão Povoada”, publicado em 2007. “Apresento-me como um vendaval no Villaret. A minha simplicidade e o meu modo natural de estar, de declamar, de representar, chamaram a atenção do júri: o Raul Calado, o Luís de Sttau Monteiro, a Maria Leonor, a Maria João Seixas e a Beatriz Costa. Ganhámos tudo. E tornei-me, a partir dali, amigo de todos os artistas”, acrescentou ainda.
Na realidade, não foi exatamente isso que aconteceu. Nem Carlos Castro e a amiga Sancha saíram vencedores do programa, nem Mário Castrim ficou tão rendido assim ao talento do jovem escritor — que, de qualquer forma, não deixou de reconhecer.
Eis um excerto da crónica assinada a 4 de outubro de 1977 pelo influente e exigente crítico de televisão: “Outro concorrente, Carlos António de Castro, angolano, presentemente a trabalhar no Diário de Aveiro, mostra-se igualmente possuidor de qualidades literárias bem capaz de dar fruto. Certo que se nota desequilíbrio de valor no corpo da mesma composição”. Carlos António atravessará um estado de confusão, de instabilidade, o que não deixará de influir no seu ritmo literário. A sua verdade de poeta, contudo, vem à superfície através de um verso, de uma imagem, de uma sugestão, que vencem todas as hesitações e confusões. Há momentos de grande poder emocional no poema da sua canção em que canta o fim da guerra, o princípio da esperança para todo um povo:
‘Vem, criança-flor,
Ela será o que é:
A dona de si mesma
Do pão
E do café’
A alegria, a simplicidade, a melhor média de qualidade, aconteceu, porém, com o jovem par já mencionado: António Manuel e Clarice.”
O que é certo é que, apesar da falta de rigor patente nas suas memórias, as “qualidades literárias” de Carlos Castro acabaram mesmo por ter resultado. Nesse mesmo ano, começou a escrever para a revista do social Nova Gente; uma crónica sob pseudónimo que se tornou um sucesso e em que raramente nomeava os alvos. Preferia deixar recados e fazer insinuações.
Palmira Correia cruzou-se com ele mais tarde, no início dos anos 1980, quando começou a trabalhar como jornalista na delegação de Lisboa do Comércio do Porto.
Era a única mulher na redação e, por isso mesmo, foi enviada ao Algarve para fazer a cobertura de um evento do social — um “tema feminino” —, com convidados e celebridades internacionais no luxuoso resort Vale do Lobo. Carlos Castro, claro, também lá estava. “E o que ele fazia na época, era muito esse tipo de coisa: ‘Naquela festa aquela estava muito elegante, a outra parecia uma galinha, a outra parecia um espantalho’. Era muito por aí. Ora, quem tinha aquela vontade do jet set de aparecer nas revistas e nas coisas sociais, temia a língua afiada do Carlos Castro, porque ele não tinha contemplações. Quer dizer, ele tanto podia dizer num dia que uma pessoa estava muito bem vestida, como depois a podia arrasar completamente.”
[Um beijo no primeiro encontro e três viagens em menos de três meses. Ao 85.º dia de relação, o aspirante a modelo matou o cronista social. “Os ficheiros do caso Carlos Castro”, o novo Podcast Plus do Observador, conta os bastidores nunca revelados da investigação a um crime brutal. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir aqui, no site do Observador, o terceiro episódio e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir também aqui o primeiro episódio e aqui o segundo]

Muito rapidamente, Carlos Castro passou a ser conhecido. E temido, acrescenta Lili Caneças. “Houve uma grande cronista social que foi a Vera Lagoa. E a Vera Lagoa nunca mais, o lugar dela nunca mais foi preenchido, porque ela sabia fazer com uma elegância e com savoir-faire, e só falava de quem era mesmo para ser falado. E depois tivemos o Carlos Castro. Só que o Carlos Castro arrasava muito, arrasava muitas pessoas, falava abertamente, dizia tudo aquilo que lhe apetecia dizer, e claro que havia muita gente que não gostava”, diz a socialite, que rapidamente havia de se tornar amiga do cronista social. “Ele tinha o poder de acabar com uma pessoa mesmo. Uma pessoa que entrava, começava a ser convidada para festas, que começava a aparecer em todo lado. Se, de repente, havia qualquer coisa que ele não gostasse, ele arrasava-a e a pessoa não era convidada para mais nada. Ficava em casa, e pronto.”
Um “miúdo pacato e tímido” à procura de um sonho
Duas semanas antes de o segundo filho do casal de enfermeiros Odília Pereirinha e Joaquim Seabra nascer, no dia 10 de setembro de 1989, Carlos Castro foi entrevistado pelo jornalista Rui Romano na RTP. Apresentado como “um enfant terrible”, que “parte a loiça quando é preciso parti-la” e que “não olha a determinado tipo de limites quando é preciso dizer a verdade”, nesta altura o cronista social já é uma figura incontornável da sociedade portuguesa.
Aos 44 anos, assume que, dada a natureza do seu trabalho, é “mal amado” por algumas pessoas. Mais uma vez sem dizer nomes, acusa-as de lhe terem “feito a vida negra”. “Tentaram boicotar o meu trabalho, tentaram difamar toda a minha maneira de ser, toda a minha existência no dia a dia, mas penso que não conseguiram os seus fins. Porque o grande público conhece-me e o grande público é o juiz.”
A primeira vez que o jovem Renato Miguel de Jesus Seabra se dá a conhecer ao país também é num programa de televisão. Passam 32 anos desde a participação de Carlos Castro n’“A Visita da Cornélia”. Os concursos de variedades e talentos caíram em desuso, deram lugar a game shows e reality shows.
No verão de 2009, Renato Seabra está prestes a fazer 20 anos. É natural de Cantanhede, mas está a viver em Coimbra. Estuda Ciências do Desporto na universidade e joga basquetebol no Sport Clube Conimbricense. É alto e atlético. Surge sorridente no ecrã, de capacete azul na cabeça e fato de licra prateado de corpo inteiro — é o porta-voz da equipa “Os Fãs da Banheira”, numa das primeiras edições do programa da SIC “Salve-se quem puder”. “Se ganhar é bem capaz de ir festejar para uma ilha deserta na companhia de um peluche”, diz a voz-off que o apresenta.
Inscreveu-se com mais dois amigos no concurso, que não tem grande objetivo nem prémios associados — mas que é campeão de audiências praticamente desde o dia de estreia. Marco Horácio e Diana Chaves são os apresentadores. “Soltem a parede” é aquilo que gritam repetidamente, para dar início aos jogos, que consistem numa espécie de tetris humano, que termina invariavelmente com quedas aparatosas dentro de uma piscina.

Sobre esta participação de Renato Seabra não há crónicas publicadas. Mas também não é neste game show que Renato Seabra se vai tornar famoso. No verão do ano seguinte, o jovem universitário de Cantanhede vai voltar a inscrever-se num programa de televisão. Desta vez um talent show, produzido igualmente pela SIC, mas em colaboração com uma agência de modelos.
“A Face Models é uma agência de modelos que todos os anos organiza o chamado Face Model of the Year. É um concurso onde os jovens têm oportunidade para entrar neste mundo. Nós procuramos sempre novas caras e o Renato Seabra apareceu-nos como candidato a modelo e àquele concurso específico, que naquele ano era um concurso da SIC, chamava-se ‘À procura do Sonho’”, contextualiza a designer Fátima Lopes, responsável pela agência.
É a primeira vez que a competição é transmitida através da televisão. Há milhares de candidatos, rapazes e raparigas de todas as zonas do país. Renato Seabra, que participa uma vez por ano nos desfiles organizados pelo Rancho Regional “Os Esticadinhos de Cantanhede”, para promover o comércio local, está entre eles.
É a mãe que o leva ao primeiro casting, organizado num hotel em Vila Nova de Gaia. Renato e a irmã, Joana, cinco anos mais velha, vivem sozinhos com ela desde que os pais se divorciaram, ainda Renato não tinha entrado na escola primária. “É um programa novo, acho que é dos primeiros de moda assim na televisão e, pronto, ser modelo é um dos objetivos”, diz timidamente o jovem de 20 anos, entrevistado enquanto espera na fila para se apresentar perante o júri do concurso.
Odília Pereirinha é enfermeira. Há de confessar mais tarde que não adorou a ideia de o filho querer ser modelo, sempre achou que o mundo da moda era muito “promíscuo”. Ainda assim, é ela quem vai levar Renato a todos os castings e a todas as gravações de “À Procura do Sonho”.
Contra todas as expectativas dela, Renato Miguel é selecionado na primeira fase, entre vários milhares de candidatos. A seguir, consegue ficar entre os 12 concorrentes masculinos do programa, que estreia no primeiro dia de agosto. E depois ultrapassa todas as eliminatórias, uma a uma, até chegar à grande final. “São sempre miúdos que têm um sonho de moda e que querem entrar neste mundo. Uns têm as qualidades físicas e psicológicas, porque isso também é muito importante, e outros não. As físicas, o Renato tinha, porque ele era muito alto, não me lembro exatamente as medidas, mas era muito alto, fisicamente era bonito, tinha um ótimo corpo, aliás, ele era desportista, tinha tudo o que à partida nós procurávamos. Ficou numa lista pequena, reduzida de finalistas”, diz Fátima Lopes.
A designer recorda-se bem da prestação dele no programa. “Era aquele miúdo pacato, tímido, aliás, no programa, em direto, confessou que assistia à telenovela com a mãe e a irmã todos os dias; as senhoras adoravam-no! Rapidamente criou ali um grupo de senhoras que achavam que ele era o filho perfeito, porque acredito que a maior parte das mães não têm os filhos ao lado a assistir à novela. Era realmente muito pacato e uma pessoa delicada e simpática.”
A grande final de “À Procura do Sonho” foi transmitida em direto a partir do Troia Design Hotel, a 5 de setembro de 2010, cinco dias antes de Renato Seabra completar 21 anos. Na plateia, entre dezenas de pessoas, estavam a mãe e a irmã do aspirante a modelo de Cantanhede, com um cartaz onde podia ler-se: “Renato, tu és a moda”.


A gala teve apresentação de Vanessa Oliveira e de Pedro Guedes e, como de costume, Fátima Lopes fez parte do júri. Aliás, foi à designer que coube anunciar o vencedor. E não foi o de Renato Seabra o nome que ela disse: o jovem de Cantanhede ficou em terceiro lugar. O primeiro e o segundo classificados no programa ganhavam uma viagem para França, para desfilar nas passarelles da semana da moda de Paris, juntamente com alguns dos melhores modelos do mundo.
O outro prémio a que tiveram direito, também foi concedido ao terceiro classificado: um contrato de exclusividade com a Face Models de Fátima Lopes, uma das agências de modelos mais conceituadas do país.
“Era a minha oportunidade para alcançar coisas melhores no mundo da moda”
Em outubro de 2010, Carlos Castro estava longe de ser uma figura consensual. Era adorado por uns, odiado por outros. O que não existia, em todo o país, é quem não soubesse quem era Carlos Castro.
Na altura, assinava três colunas na imprensa: uma crónica diária no Correio da Manhã e crónicas semanais nas revistas TV Guia e Flash. Mas até há bem pouco tempo tinha ainda tido uma crónica semanal em direto, no programa das manhãs da RTP, com Jorge Gabriel e Sónia Araújo.
Ao longo das últimas três décadas de carreira, tinha passado por praticamente todos os canais, jornais e revistas. Aliás, chegou ele próprio a fundar uma publicação, a revista feminina Dona.
“Foram anos fantásticos, ganhei muito dinheiro, posso dizer, sim senhora, trabalhei imenso. O primeiro espetáculo que fiz, que foi o ‘Estrelas de Hollywood’, com roupas de João Rolo, fiz 180 a 170 espetáculos num ano. Era uma loucura total”, recapitulou em 2010 na já referida entrevista para o programa “Há Conversa”, da RTP.
Conhece muita gente. Tem vários livros publicados. E é organizador de uma série de eventos, em Portugal e junto das comunidades portuguesas no estrangeiro — daí muitas das viagens que faz regularmente a Nova Iorque. “Nova Iorque é a minha cidade, já lá fui trinta e cinco vezes e nunca me farto. Conheço o mundo e já estou até a dar a volta outra vez, mas gosto muito de Nova Iorque, muito, muito, muito”, disse na mesma ocasião.
Aos 65 anos, Carlos Castro tem poder e tem dinheiro. E isso pode ser muito atrativo. E torná-lo muito atraente.




Terá sido justamente por isso que, quando no dia 9 de outubro de 2010, Carlos Castro lhe enviou um pedido de amizade através do Facebook, Renato Seabra não hesitou em aceitar. O programa tinha chegado ao fim há pouco mais de um mês, mas o apoio do público não tinha esmorecido. Renato Seabra recebia mensagens de admiradores com alguma frequência e até já tinha sido criada uma página de fãs no Facebook com o nome dele — já ia em quase mil seguidores.
Assim que recebeu aquele pedido, reconheceu o nome do utilizador: era Carlos Castro, o cronista social. Pouco tempo depois de o aceitar, Carlos enviou-lhe uma mensagem privada. Era uma mensagem curta, a agradecer o facto de o jovem aspirante a modelo ter aceitado adicioná-lo ao grupo de “amigos”: “Olá Renato, muito grato e um abraço”.
Seria apenas a primeira de muitas. Dentro de seis dias apenas, o cronista social e o aspirante a modelo estariam a conhecer-se cara a cara e a beijar-se pela primeira vez.
Foi o início de uma relação que, havia Renato de reconhecer mais tarde, pelo menos do seu lado, teve sempre um objetivo claro. “Queria aquela ajuda e, a partir daí, a relação começou”, revelaria ao psicólogo americano Jeffrey Singer. “Eu sabia que ele era gay. Era a minha oportunidade para alcançar coisas melhores no mundo da moda. Sou um homem feito de vinte anos, tomei uma decisão. Continuámos. Trocámos contactos. E ele convidou-me para ir a Lisboa, à casa dele, uma ou duas semanas depois.”
Ao todo, entre 15 de outubro de 2010 e 7 de janeiro de 2011, Carlos e Renato vão passar 85 dias juntos. Vão fazer três viagens ao estrangeiro. A última, a Nova Iorque, vai revelar-se fatal. Carlos Castro vai ser encontrado morto e mutilado num quarto de hotel a escassos metros de Times Square. E Renato Seabra vai ser imediatamente considerado suspeito do crime. Vai ser detido, acusado e condenado pelo homicídio do cronista social.
Quinze anos depois, continua a cumprir pena, na prisão de alta segurança de Attica, no norte do estado de Nova Iorque. Na melhor das hipóteses, vai poder dar início ao pedido de liberdade condicional em setembro de 2035. Se for aprovado, a partir do dia 1 de março de 2036 poderá finalmente regressar a casa.
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