Quando, no dia 7 de janeiro de 2011, o cadáver foi encontrado, brutalmente agredido e mutilado num quarto de hotel de luxo em Nova Iorque, Carlos Castro e Renato Seabra conheciam-se há menos de três meses.
Foi exatamente 85 dias antes, na tarde de 15 de outubro de 2010, que o cronista social, de 65 anos, e o aspirante a modelo, de apenas 21, se encontraram pessoalmente pela primeira vez. Renato era natural de Cantanhede. Carlos, residente em Lisboa, estava no Porto, a pouco mais de 100 quilómetros de distância, para assistir aos desfiles da edição outono/inverno do Portugal Fashion.
Renato queria os conselhos dele. “Gostava de falar consigo em relação ao mundo da moda, que é novo para mim! Sendo uma pessoa com experiência, quais são as dicas que me dá para poder vir a crescer neste mundo?”, perguntou-lhe através do Facebook. Em vez de lhe responder com sugestões ou orientações, Carlos disponibilizou-se para se encontrarem cara a cara: “Acho-te giro e és altíssimo. Falamos se quiseres”.
Aconteceu tudo muito rápido. Trocaram as primeiras mensagens naquela rede social na manhã de um domingo; na sexta-feira seguinte já estavam juntos, no Porto. A mãe de Renato levou-o até lá de carro, e a avó também foi, mas o rapaz, estudante na Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da Universidade de Coimbra, foi sozinho ao encontro do cronista social.
E também aconteceu tudo de forma muito intensa. Nesse mesmo dia, depois de conversarem durante algum tempo sobre a carreira de manequim que Renato tinha intenção de prosseguir, subiram juntos ao quarto de hotel onde Carlos Castro estava alojado. E, nesse mesmo dia também, por iniciativa do sexagenário, haveria de revelar Renato mais tarde, beijaram-se e deram início à relação que haveria de culminar menos de três meses mais tarde.
Com Carlos Castro a ser encontrado violentamente assassinado no quarto 3416 do Hotel Intercontinental em Nova Iorque, a escassos metros de Times Square. E com Renato Seabra a ser imediatamente identificado pelas autoridades locais como o único suspeito do crime.
O novo Podcast Plus do Observador recupera toda a história desta relação e, com base em provas e documentos nunca antes revelados, reconstitui passo a passo não apenas o que se passou ao longo dos dias fatais de Carlos e Renato em Nova Iorque, mas também tudo o que aconteceu antes e depois do crime que chocou Portugal e os Estados Unidos nos primeiros dias de 2011.




É uma história trágica, de paixão, ambição e violência, que acabou com o jovem de Cantanhede aspirante a modelo a ser detido, julgado e condenado num tribunal de júri em Manhattan.
Ou melhor, não acabou ainda: hoje, quinze anos mais tarde, Renato Seabra continua preso, na cadeia estadual de Attica, uma das mais violentas do estado de Nova Iorque e de todo o sistema prisional norte-americano. Só em setembro de 2035 é que vai poder dar início ao pedido de liberdade condicional. Mesmo que seja aceite, nunca poderá regressar a casa antes do dia 1 de março de 2036.
“Sou um homem feito de vinte anos, tomei uma decisão”
Quando se cruzaram, Carlos Castro tinha 65 anos acabados de fazer e uma carreira de décadas no mundo das revistas cor de rosa. Era uma figura muito pouco consensual, que uns adoravam, outros odiavam e alguns, ainda, temiam — mas que era conhecida em todo o país.
Renato Seabra, de 21 anos, também não era propriamente um desconhecido: durante esse verão tinha participado num concurso de televisão para jovens modelos. Escolhido entre milhares de concorrentes, tinha conseguido chegar à final de “À Procura do Sonho”. Não venceu, mas, como ficou entre os três primeiros classificados do programa, uma organização conjunta da Face Models e da SIC, ganhou um contrato de exclusividade com a agência da designer Fátima Lopes.
Foi justamente graças a esta participação no programa que Carlos Castro o decidiu adicionar no Facebook. E foi porque estava desiludido com aquilo que considerava ser a falta de rumo da sua nova carreira, Renato Seabra decidiu não apenas aceitar esse pedido de amizade, mas pedir dicas ao cronista social sobre como ter sucesso no mundo da moda.
Aquele primeiro beijo, ao que tudo indica inesperado para Renato, selou o acordo que haveria de os ligar até ao fim: o jovem estudante universitário de Cantanhede decidiu naquele mesmo instante que ia fazer tudo aquilo que fosse necessário para contar com a ajuda de Carlos Castro e para ter uma carreira como modelo.
“A partir daí, a relação começou”, revelou muitos meses mais tarde ao psicólogo americano Jeffrey Singer, um dos entrevistados de “Os Ficheiros do Caso Carlos Castro” e um dos peritos ouvidos durante o julgamento de 2012 no Supremo Tribunal de Manhattan. “Eu sabia que ele era gay. Era a minha oportunidade para alcançar coisas melhores no mundo da moda. Sou um homem feito de vinte anos, tomei uma decisão. Continuámos. Trocámos contactos. E ele convidou-me para ir a Lisboa, à casa dele, uma ou duas semanas depois”.
Apesar de não terem estado juntos durante três meses completos sequer, Carlos Castro e Renato Seabra fizeram três viagens. A primeira a Londres, nos últimos dias de outubro de 2010. A segunda a Madrid, no primeiro fim de semana de dezembro. E a última a Nova Iorque, a seguir ao Natal.
Inicialmente, o plano era passarem onze dias na cidade, mas uma tempestade de neve no destino, que por duas vezes obrigou a adiar a partida de Lisboa, levou Carlos Castro a alterar a data de regresso — e a aumentar para 18 os dias nos Estados Unidos. Ao décimo dia de férias, o cronista social foi assassinado.
Escândalo, mentiras e um “quid pro quo”
O caso foi um escândalo instantâneo. “Todos os dias há crime em Nova Iorque, todos os dias há mortes em Nova Iorque, mas não acontecem numa área restrita como Times Square, que é uma área segura, que é uma área onde tudo acontece, mas nada dessa magnitude acontece”, explica o jornalista Ricky Durães, na altura um dos primeiros repórteres a fazer a cobertura da notícia, para o Luso-Americano, o principal jornal da comunidade portuguesa no país.
Os tablóides americanos assumiram desde as primeiras horas que o morto — Carlos Castro — e o presumível assassino — Renato Seabra — mantinham uma relação. E descreveram imediatamente o cronista social como um “sugar daddy”, expressão que serve para identificar um homem mais velho, com dinheiro e poder, que mantém uma relação com um parceiro substancialmente mais novo — e paga todas as despesas dessa mesma relação.
Quando a notícia da morte violenta de Carlos Castro foi conhecida em Portugal, a família de Renato Seabra recusou-se terminantemente a aceitar que ele pudesse ter tido alguma coisa a ver com o caso.
Em choque, a mãe e a irmã do jovem de Cantanhede deram entrevistas em que garantiram repetidamenten que Renato não era namorado de Carlos Castro e aquela não era uma viagem de férias. “Ele tinha ido a Nova Iorque com o senhor Carlos Castro, por trabalho. O senhor Carlos Castro estava a ajudá-lo neste mundo da moda. Ia ser apresentado a algumas agências e era isso que estava a passar-se”, explicou Joana Seabra às televisões um dia depois do crime, já a mãe ia a caminho dos Estados Unidos, para estar com o irmão, seis anos mais novo.
De facto, foi essa a versão que manteve sempre à família e aos amigos, viria a revelar o próprio Renato Seabra e confirmou a polícia de Nova Iorque através do registo de várias conversas dele via Facebook. Se viajou para Londres, para Madrid e, depois, para Nova Iorque na companhia do cronista social, contou Renato a inúmeras pessoas, foi apenas para estabelecer contactos com agências e para participar em desfiles.
Mas, na realidade, isso não aconteceu: Renato nunca participou em nenhuma passagem de modelos fora de Portugal e também nunca chegou a ter qualquer entrevista em agências durante as viagens que fez com Carlos Castro.
Por parte do cronista social até havia essa intenção — emails trocados com uma amiga que vivia em Nova Iorque, um mês e meio antes da partida de Lisboa, confirmam, aliás, que chegou a pedir que fossem marcadas reuniões em nome deles em três das maiores agências internacionais, a Ford, a DNA e a Wilhelmina. Mas não é assim que o meio funciona, explica a designer Fátima Lopes, também ela entrevistada em “Os Ficheiros do Caso Carlos Castro”. “Quem tem o poder de lançar carreiras na moda são as agências de modelos. Neste caso, era a Face. Com o contrato de exclusividade que ele tinha, nunca poderia trabalhar com mais ninguém — ou através de mais ninguém —, a não ser com a Face.”
A situação haveria de complicar-se justamente quando Renato Seabra percebeu que Carlos Castro não ia honrar a parte dele naquele “quid pro quo” — a expressão foi utilizada pelo próprio, meses após o crime, numa das consultas que teve com o psiquiatra Roger Harris, outro dos especialistas contratados pelos seus advogados de defesa.
Para o jovem modelo, o acordo seria claro: Carlos Castro oferecia-lhe prendas, roupas e viagens e ajudava-o na carreira, ele retribuía “mantendo um relacionamento sexual com ele”. Problema: só um deles é que estava a cumprir a sua parte.
Raiva ou doença mental?
Os primeiros dias em Nova Iorque foram de lua de mel. Isso as autoridades americanas conseguiram facilmente comprovar, não apenas a partir dos testemunhos das pessoas que conviveram com o casal durante esse tempo, mas também através das imagens recuperadas da máquina fotográfica de Carlos Castro.
São 150 fotografias, quase todas com Renato Seabra como modelo. Há fotografias dele em Times Square (antes, durante e depois da passagem de ano); na Broadway ainda coberta de neve; e no Battery Park, com vista para a estátua da Liberdade. E há fotografias dele à porta do Hotel Intercontinental e no interior do quarto 3416. Numa das imagens, Renato está junto à janela, com vista para os arranha-céus de Manhattan. Noutra, aparece no mesmo sítio e na mesma posição, mas em tronco nu.
As imagens, captadas pelo cronista social confirmam os relatos que os seus amigos ainda hoje mantêm: Carlos Castro estava verdadeiramente apaixonado. “Aquilo era um dos momentos mais felizes dele”, diz Rodrigo Freixo, então jornalista, autor de “Renato Seabra, A Queda de Um Anjo”, e um dos entrevistados de “Os Ficheiros do Caso Carlos Castro”.
Ainda antes de viajarem para os Estados Unidos, Carlos Castro, que até tinha começado por se manter discreto em relação ao jovem de Cantanhede, já não se coibia de dizer a toda a gente que estava apaixonado. Tinha encontrado o amor da vida dele. E ia, com ele, passar o réveillon a Nova Iorque, chegou a proclamar em pleno palco do Teatro São Luiz, em Lisboa, no intervalo da Gala da Abraço, que organizou durante 18 anos, sempre a 1 de dezembro, dia mundial da luta contra a sida.


Vanda Pires, amiga há décadas do cronista social, a viver em Newark, esteve com Carlos e Renato várias vezes ao longo dos dez dias que passaram em Nova Iorque. Testemunhou os momentos felizes e também aqueles em que alguma coisa mudou e a relação começou a deteriorar-se. Falou com o amigo ao telefone escassas horas antes de ele ser assassinado. E ficou tão preocupada com aquilo que ele lhe disse que, nas horas seguintes tentou várias dezenas de vezes entrar em contacto com ele — sempre em vão.
Não só deu o alerta que fez com que a segurança do Hotel Intercontinental abrisse a porta do quarto 3416, para encontrar o cadáver mutilado de Carlos Castro, como foi também uma das principais testemunhas da acusação no julgamento de Renato Seabra. Ou talvez mesmo a principal.
[As testemunhas, os relatórios, as fotos e os vídeos que desvendam como Renato Seabra matou Carlos Castro em Nova Iorque. “Os ficheiros do caso Carlos Castro”, o novo Podcast Plus do Observador, conta os bastidores nunca revelados da investigação a um crime brutal. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir o primeiro episódio, aqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music]

Foi um processo relativamente rápido — em menos de dois meses e ao fim de apenas 22 sessões o júri chegou a um veredicto.
Para além de Vanda Pires, a acusação chamou 21 testemunhas. Já a defesa chamou apenas duas: o psicólogo Jeffrey Singer e o psiquiatra Roger Harris.
Desde o início, os advogados de Renato Seabra deixaram bem claro: aquele não era um caso de raiva, mas de doença mental. E a autoria e a violência extrema do crime não eram uma questão. “A prova mostrará que Renato Seabra matou Carlos Castro naquela divisão de hotel. Isso dizemos já. Mais ainda, mostrar-se-á que, durante o incidente, Renato Seabra pegou num saca-rolhas e atacou violentamente Carlos Castro”, disse o advogado David Sinins nas declarações iniciais.
A única coisa que importava provar, para a defesa, era a inimputabilidade de Renato Seabra, internado horas depois do crime em pleno “episódio maníaco agudo” e diagnosticado depois disso com perturbação bipolar. O arguido não podia ser responsabilizado criminalmente pela morte de Carlos Castro, defenderam os advogados, porque naquele momento não tinha capacidade para distinguir o certo do errado.
Mas a acusação, secundada pelos depoimentos de 22 testemunhas, vai não apenas contrariar toda esta argumentação, como ainda acusar o jovem de Cantanhede aspirante a modelo de exagerar sintomas para “tentar parecer maluco”.
No final, o juiz considerou o crime, particularmente violento e cruel, “um exemplo arrepiante da desumanidade do homem para com o homem”. Imediatamente antes disso, Renato Seabra, que não foi ouvido durante o julgamento e até acabou por recusar-se a assistir às sessões, pediu pela primeira e única vez para falar. Pediu desculpa à família e aos amigos da vítima. Assumiu: cometeu o crime, matou Carlos Castro, mas garantiu não saber por que o fez. “No momento em que entrei no quarto, nesse dia, algo tomou conta de mim.”
https://observador.pt/programas/os-ficheiros-do-caso-carlos-castro/episodio-1-onde-esta-o-assassino-do-quarto-3416/