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(A) :: A face do regime pós Khamenei e o dirigente das milícia Basij. Quem eram os últimos alvos do Irão?

A face do regime pós Khamenei e o dirigente das milícia Basij. Quem eram os últimos alvos do Irão?

Forças de Israel dizem ter matado Ali Larijani, conselheiro próximo do antigo líder supremo do Irão, e Gholamreza Soleimani, líder da milícia, cuja morte já foi confirmada pelo Irão.

Adriana Alves
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“Vamos queimar os corações deles. Vamos fazer com que os criminosos sionistas e os desavergonhados americanos se arrependam dos seus atos”. As palavras foram proferidas por Ali Larijani, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irão, depois do ataque que matou o aiatola e líder supremo iraniano Ali Khamenei, de quem era conselheiro. As Forças de Defesa de Israel (IDF) anunciaram que Larijani foi “eliminado” na noite de segunda-feira e que um ataque separado provocou a morte do líder da milícia Basij, Gholamreza Soleimani.

Entretanto, esta terça-feira, a Guarda Revolucionária iraniana (IRGC) confirmou a morte de Soleimani, num “ataque do inimigo americano-sionista”. “Este assassinato cobarde demonstra a importância e o papel da Basij na luta total contra o exército terrorista americano, o regime sionista e os seus mercenários, especialmente na guerra recente”, afirma a IRGC num comunicado citado pela agência Tasnim.

“Larijani e o comandante das Basij foram eliminados durante a noite”, confirmou o ministro da Defesa de Telavive. Israel Katz sublinhou que foram enviados para as “profundezas do inferno” e estão agora ao lado de Khamenei.

https://twitter.com/IDF/status/2033861461596930479

https://twitter.com/IDF/status/2033827283341824256

Até esta terça-feira, as autoridades iranianas não se tinham pronunciado sobre as alegações de Israel sobre Ali Larijani e Gholamreza Soleimani, entretanto confirmado a morte do último.

Já depois do anúncio das IDF surgiu na página de Larijani no X uma nova publicação que incluiu uma suposta nota escrita à mão pelo líder do Conselho Supremo de Segurança Nacional. Na declaração celebra-se a vida dos marinheiros iranianos mortos num ataque norte-americano. Não é claro quando foi escrita ou que motivos levaram à sua publicação.

https://twitter.com/alilarijani_ir/status/2033840853370683829

Quem era Ali Larijani, a figura que deu a cara pelo regime após a morte de Khamenei?

Foi um dos confidentes e conselheiros mais próximos do aiatola Ali Khamenei e, após a sua morte, surgiu como a face do regime, eclipsando o próprio Presidente iraniano, Masoud Pezeshkian. Tem desafiado repetidamente os Estados Unidos da América e Israel. Apesar de ser um alvo prioritário para Telavive, participou na semana passada num comício público em Teerão.

Fontes iranianas revelaram ao New York Times que Larijani fez parte de um conjunto de responsáveis iranianos encarregados por Khamenei de elaborar um plano para garantir a continuidade da República Islâmica no caso da sua morte. Assim fez, foi Larijani que encabeçou o processo que se seguiu à morte de Khamenei, desde logo o anúncio da formação de um conselho de transição. Terá sido, aliás, uma das últimas pessoas a ver Khamenei vivo, na manhã antes do ataque que o vitimou

Ali Larijani nasceu em Najaf, no Iraque, em 1958, e cresceu no seio de uma influente família xiita ligada ao poder. O pai era aiatola, assim como o irmão, Sadegh, que chegou a liderar o sistema judicial iraniano durante dez anos. Outro irmão é uma figura relevante na política externa e chegou também a ser conselheiro de Khamenei.

Larijani estudou matemática e ciência computacional na Universidade de Sharif. Tem também um doutoramento em filosofia na Universidade de Teerão e, segundo a CNN, escreveu de forma extensa sobre o filósofo Emmanuel Kant. Integrou as fileiras da Guarda Revolucionária do Irão, chegando ao posto de comandante durante a guerra com o Iraque na década de 1980. Depois disso, nota o canal norte-americano, transitou para cargos políticos. Chegou a ser ministro da Cultura, dirigente das radiodifusão estatal, presidente e também porta-voz do Parlamento.

Além disso, Larijani foi um dos negociadores de Teerão com Washington sobre o acordo nuclear. Era desde 2004 conselheiro de Khamenei, particularmente em temas de segurança. No ano passado foi nomeado líder do Conselho Supremo de Segurança Nacional, o órgão estratégico encarregado de definir as políticas de Defesa e de Segurança do Irão, cujas decisões são aprovadas pelo líder supremo. No início de 2026 foi encarregado de reprimir os protestos que levaram milhares de iranianos a manifestar-se nas ruas contra o regime.

https://observador.pt/2026/02/12/irao-ong-regista-cerca-de-sete-mil-mortos-em-protestos-antigovernamentais/

Os EUA ofereceram recentemente uma recompensa de até dez milhões de dólares por informações sobre figuras de topo do regime iraniano, incluindo Larijani. Numa das últimas declarações, na segunda-feira, o até agora líder do Conselho Supremo de Segurança criticou os estados muçulmanos por não apoiarem o Irão contra a agressão “traiçoeira” destes países. “De que lado estão”, questionou.

Quem é Gholamreza Soleimani e o que são as forças Basij?

As forças Basij são uma milícia paramilitar fundada pelo aiatola Ruhollah Khomeini em 1979. É um dos cinco ramos do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irão (CGRI). O Instituto para o Estudo da Guerra (ISW, na sigla em inglês) estima que esta força seja composta por cerca de 450.000 elementos.

A Al Jazeera refere que esta força recruta civis motivados pela sua devoção ao país, no entanto, alguns analistas apontam que há jovens voluntários que se alistam para obter privilégios e melhores condições de vida. A CNN acrescenta que opera como a polícia: de forma visível, com presença nas ruas. Segundo a imprensa internacional, este ramo do CGRI é responsável pela repressão violenta dos protestos de opositores do regime. Intervieram, nomeadamente, nas manifestações em janeiro deste ano, que terão provocado milhares de mortos.

As forças Basij eram lideradas desde 2019 por Gholamreza Soleimani, que foi precisamente sancionado pelos Estados Unidos e pela União Europeia (UE) pelo seu papel na repressão violenta de protestos contra o regime. Este veterano da guerra com o Iraque iniciou a carreira na Guarda Revolucionária em 1982.