Em pouco mais de duas semanas de guerra, o Estreito de Ormuz tornou-se o palco central do conflito. Em causa está o bloqueio imposto pelo o Irão à circulação marítima, que causou um aumento dos preços do combustível. Donald Trump trabalha agora num plano para desbloquear o Estreito, mas, esta segunda-feira, lamentou a falta de “entusiasmo” dos aliados dos Estados Unidos em participar numa missão neste sentido. Da Austrália ao Canadá, passando pela União Europeia, a maior parte dos países recusou integrar uma operação destas.
A atenção dada ao Estreito de Ormuz reflete uma tentativa norte-americana de desbloquear uma frente da guerra, já que, nos restantes palcos, os confrontos continuam intensos. Israel e Estados Unidos lançaram novos ataques contra alvos militares, principalmente em Teerão, e o regime iraniano respondeu com uma nova vaga de ataques contra alvos energéticos na Golfo e com a utilização de munições de fragmentação contra Israel. O conflito acentuou-se no confronto direto entre Israel e o Hezbollah no Líbano, tendo o Exército israelita anunciado novas operações terrestres no sul do país.
Já no Iraque, os interesses norte-americanos voltaram a ser alvo de ataques por parte das milícias pró-Irão: foi atacado um hotel perto da embaixada norte-americana, que costuma ser utilizado por diplomatas. Os ataques israelo-americanos contra as milícias no Iraque mataram, por sua vez, o comandante militar do Hezbollah iraquiano. Os confrontos perto da fronteira com a Síria levam várias analistas a antecipar a entrada em cena de Damasco. Internamente, o Irão procura fazer frente ao descontentamento e a alegadas deserções no Exército, com um apertar das medidas de segurança interna e das restrições.
Pode recordar os acontecimentos de domingo aqui.
Estes foram os desenvolvimentos na guerra no Médio Oriente ao longo desta segunda-feira, dia 16 de março:
No Irão
- Várias bases das milícias Basij e de autoridades policiais na cidade de Teerão foram atingidas por ataques dos EUA e Israel.
- O Exército israelita confirmou um ataque a um centro de comando das secretas iranianas, mas não especificou que centro é este.
- Os ataques israelo-americanos atingiram seis pontos de controlo à circulação na cidade de Teerão.
- A 11.ª base aérea tática do Exército iraniano foi atacada pelos EUA e por Israel. É apenas a segunda vez que uma base aérea do Exército convencional iraniano é atacada.
- Os líderes do Comando Central dos Estados Unidos relataram, em conferência de imprensa, que Washington continua focado de forma primária em destruir o complexo industrial de defesa do Irão.
- O Exército iraniano estará a ter dificuldades em mobilizar os militares para a guerra, segundo relatos israelitas e da imprensa iraniana anti-regime, que dão conta de deserções nas Forças Armadas e falta de resposta aos avisos de mobilização enviados anteriormente.
- Vários polícias terão sido mortos num ataque de milícias insurgentes na província de Sistão e Baluchistão. O regime respondeu com novas regras de segurança interna mais apertadas — incluindo regras que visam limitar as celebrações do ano novo persa.
- O regime iraniano apertou as restrições no acesso à internet e terá visado pessoas com acesso a satélites Starlink, que contornam os bloqueios.
- Membros do Parlamento iraniano visitaram a ilha de Kharg, atacada recentemente pelos Estados Unidos, para sublinhar a sua relevância estratégica e económica.
- Os líderes iranianos voltaram a rejeitar negociações diplomáticas com os Estados Unidos, reiterando que um fim da guerra tem de ter em conta os interesses iranianos — alguns oficiais iranianos terão avançado que isso inclui garantias de segurança não só para Teerão como para os aliados do “eixo da resistência”. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, negou ter tido qualquer contacto com o enviado especial norte-americano, Steve Witkoff, desde que a guerra começou.
- O Presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, falou ao telefone com Emmanuel Macron, que considerou “inaceitável” os interesses franceses na região terem sido visados. Depois da chamada, Pezeshkian escreveu nas suas redes sociais que “o Irão não se vai render a bullies“.
- Um responsável militar israelita estimou que os ataques combinados já tenham vitimado (entre mortos e feridos) 10 mil pessoas do aparelho de segurança iraniano.
- A Amnistia Internacional concluiu uma investigação ao ataque na escola primária de Minab, no primeiro dia da guerra, e responsabilizou os Estados Unidos pela morte das 168 pessoas, incluindo 100 crianças, exigindo consequências à luz desta violação do Direito Internacional.
- Ao todo, já foram mortos pelo menos 1.444 iranianos e 18.551 ficaram feridos nas mais de duas semanas de guerra.
Em Israel e no Líbano
- O Irão voltou a lançar mísseis com munições de fragmentação contra Israel, que atingiram o norte e várias áreas do centro de Israel. Uma sinagoga foi atingida no centro do país e fragmentos foram recolhidos nos locais sagrados da mesquita Al-Aqsa e da igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém.
- Seis pessoas ficaram feridas num ataque do Hezbollah contra a cidade de Nahariya, no norte de Israel, que atingiu um edifício.
- Ao todo, o grupo armado libanês lançou mais de duas dezenas de ataques com drones e rockets contra as posições israelitas no sul do Líbano e no norte de Israel ao longo deste dia.
- Israel lançou novos ataques aéreos e avançou nas operações terrestres no sul Líbano, tendo descoberto e destruído o que identificou como instalações de armazenamento de armas do Hezbollah.
- O Exército israelita começou uma nova operação terrestre “limitada” em zonas até agora não ocupadas, que têm como objetivo principal encontrar e matar combatentes do Hezbollah.
- Benjamin Netanyahu respondeu aos rumores que circulavam nas redes sociais de que teria sido morto num ataque iraniano, publicando um vídeo num café nos arredores de Jerusalém em que é questionado sobre o tema por um assessor. O primeiro-ministro israelita publicou ainda um outro vídeo, em que deseja ao povo iraniano “uma ótima época festiva”, por ocasião do ano novo persa e deseja “um novo início de esperança”
- O ministro da Defesa israelita, Israel Katz, afirmou que os libaneses que estão deslocados não vão poder regressar a casa até Telavive considerar que o norte de Israel está em segurança. As autoridades libanesas dão conta de mais de um milhão de pessoas deslocadas.
- Os números oficiais de vítimas da guerra no Líbano voltaram a subir. Os ataques israelitas dos últimos dias mataram 886 pessoas e feriram 2.141.
No Golfo
- Uma pessoa palestiniana residente na Arábia Saudita foi morta dentro do seu veículo num ataque com um míssil iraniano. Outros 43 drones foram intercetados pelas Forças Armadas sauditas.
- Um ataque com um drone iraniano atingiu o aeroporto do Dubai, começando um incêndio num tanque de abastecimento.
- Em Abu Dhabi, um incêndio deflagrou no campo petrolífero de Shah, depois de este ter sido atingido por outro drone.
- Ainda nos Emirados Árabes Unidos (EAU), também foi atingida com um drone uma instalação de armazenamento e um oleoduto na zona industrial petrolífera de Fujairah. O Ministério da Defesa relatou, ao todo, a interceção de 21 drones e seis mísseis.
- Os EAU fecharam temporariamente o seu espaço aéreo como “medida preventiva excecional” enquanto respondiam aos ataques do Irão.
- Registaram-se ainda ataques contra o Bahrain, cujo Exército diz ter intercetado três drones e quatro mísseis.
- Já o Exército do Kuwait relatou a interceção de um drone. Outros três caíram em zonas abertas, sem causar danos.
- As autoridades do Kuwait prenderam 16 pessoas — 14 cidadãos do Kuwait e dois do Líbano —, acusadas de terem ligações ao Hezbollah e estarem a planear ataques dentro do país.
- No Qatar, foram intercetados 13 mísseis balísticos iranianos, tendo um outro caído numa zona aberta. Também foram intercetados drones.
- O príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, e o Presidente dos Emirados Árabes Unidos, Mohamed bin Zayed Al-Nahyan, falaram ao telefone e acordaram em mobilizar todos os recursos necessários para manter a estabilidade regional.
No resto do mundo
- O comandante militar do Hezbollah iraquiano, Abu Ali al Askari, foi morto, anunciou o grupo, sem adiantar detalhes sobre como morreu.
- Pelo menos 20 combatentes das Forças de Mobilização Popular (PMF), uma milícia pró-Irão no Iraque, foram mortos ou ficaram feridos em ataques israelo-americanos.
- Quatro destes combatentes foram mortos perto da fronteira com a Síria, o que levou os analistas a especular sobre uma possível entrada de Damasco a guerra contra as forças iranianas — o Presidente sírio não recusou, até agora, essa possibilidade.
- As PMF, o Hezbollah iraquiano, a Resistência Islâmica e outras milícias lançaram novos ataques contra posições norte-americanas dentro do Iraque, mas a Resistência Islâmica detalhou que também visaram “bases inimigas noutras partes da região“.
- Um hotel no bairro diplomático de Bagdade, perto da embaixada dos Estados Unidos, foi atingindo por um drone, que começou um incêndio. O Governo iraquiano condenou o ataque, que considerou um “ataque terrorista”.
- Donad Trump lamentou a falta de “entusiasmo” dos aliados dos Estados Unidos em contribuir para desbloquear o estreito de Ormuz. “Nós protegemo-los de fontes externas horríveis e eles não estão entusiasmados. E o nível de entusiasmo é importante para mim”, declarou o Presidente norte-americano num evento na Casa Branca.
- O chefe de Estado norte-americano pronunciou-se ainda em particular sobre a falta de “entusiasmo” dos aliados da NATO, numa entrevista ao Financial Times. “Se não houver resposta ou for uma resposta negativa, acho que vai ser muito mau para o futuro da NATO”, declarou.
- Apesar da pressão de Trump, a maior dos país aliados dos EUA, incluindo a Alemanha, Itália, Espanha, França, Canadá, Austrália e Japão recusaram dar esse passo.
- Os ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia decidiram contra a expansão da missão militar europeia no Mar Vermelho, tendo a alta-representante Kaja Kallas declarado que “havia pouco apetite para mudar o mandato”.
- Apesar da recusa, o Reino Unido avançou estar a trabalhar “num plano viável” para reabrir o trânsito no Estreito de Ormuz, o que o primeiro-ministro Keir Starmer, admitiu “não ser uma tarefa simples”.
- O Japão anunciou a libertação da primeira tranche de combustível nas suas reservas estratégicas, em linha com a indicação da Agência Internacional de Energia para que a libertação começasse na Ásia e na Oceânia.
- Trump anunciou ter pedido adiamento da sua visita de Estado à China, que estava planeada para o final deste mês, por causa da guerra. O pedido foi feito a Pequim para que a viagem seja adiada por “mais ou menos um mês”.