“You will not have a war with me” foi uma das mensagens preferidas de Donald Trump durante a campanha de 2024, repetida até à exaustão, dirigida a um eleitorado cansado das intervenções sem fim no Médio Oriente. A escolha de JD Vance como vice-presidente reforçou esta narrativa — Vance que dissera explicitamente que uma guerra com o Irão seria contra os interesses americanos. O GOP parecia finalmente ter-se remodelado, passando de neoconservador para genuinamente isolacionista, ou pelo menos para mais cínico e seletivo nas suas aventuras militares.
Contudo, passado pouco mais de um ano de mandato, essa promessa foi quebrada de forma espetacular. A administração Trump interveio na Venezuela, Nigéria, Somália, Iémen, Iraque e Síria, bombardeou embarcações no mar das Caraíbas e lançou uma guerra de larga escala contra o Irão. Ainda assim, apesar desta inversão completa das promessas de campanha, o universo MAGA mantém o seu apoio inabalável. Trump goza de uma taxa de aprovação à volta dos 80% entre republicanos na sua guerra no Irão, enquanto a vasta maioria de democratas e independentes a desaprova. O eleitorado que o elegeu precisamente para evitar estas guerras é agora apoiante entusiástico. Este paradoxo (prometer paz, fazer guerra, ser recompensado por isso) diz muito sobre a natureza do movimento que Trump construiu. E é precisamente esta característica, que até agora o tem protegido de contradições, que pode revelar-se simultaneamente a sua maior vulnerabilidade e o início de uma transformação profunda na relação entre os Estados Unidos e Israel.
Compreender porque é que o eleitorado MAGA apoia estas guerras, apesar de contradizerem frontalmente as promessas que o elegeram, exige olhar para três dinâmicas distintas.
A primeira razão para este aparente paradoxo reside na natureza das intervenções que Trump escolhe fazer. Ao contrário das guerras prolongadas do Iraque e Afeganistão que saturaram o eleitorado americano, Trump especializou-se em operações rápidas, cinemáticas, de alto impacto visual e benefícios imediatos facilmente comunicáveis. O foco não é transformação estrutural de longo prazo ou nation-building. O foco é o espetáculo, é a projeção seletiva de poder americano, imagens que parecem saídas de videojogos e que fazem o público sentir que está a assistir a um filme onde os americanos inevitavelmente saem por cima. A Venezuela foi o exemplo paradigmático desta abordagem. Antes da captura de Maduro, pouco mais de metade dos republicanos apoiava uma operação militar. Após as imagens espetaculares da operação, esse número disparou para próximo dos 80%. Trump conseguiu compreender algo fundamental: a sua base, mais do que genuinamente isolacionista, é avessa a envolvimentos prolongados e inconclusivos. Vitórias rápidas e visualmente impressionantes, pelo contrário, são entusiasticamente celebradas.
O assassinato de Khamenei no primeiro dia da guerra seguiu exatamente a mesma lógica. Um knockout espetacular no “primeiro round”, imagens de precisão cirúrgica, uma demonstração inequívoca de superioridade militar americana. A brevidade é aqui essencial porque marca o contraste com as guerras anteriores. O que o eleitorado americano rejeitou não foram as intervenções em si, mas a sua duração interminável, a sensação de atolamento sem vitória clara. Trump soube identificar esta distinção e explorá-la. As suas guerras são especificamente desenhadas para o consumo mediático dos dias de hoje, para produzirem momentos virais de triunfo americano que reforçam a narrativa de força sem gerarem a fadiga de conflitos prolongados. É intervencionismo como entretenimento, como afirmação de dominância. Não há, nem deve haver, um projeto de transformação geopolítica a longo prazo.
Um segundo elemento importante aqui é a forma como é materializado o credo America First de Trump. Este não representa um apelo isolacionista per se. A mensagem sempre foi que os Estados Unidos estão acima de quaisquer regras, que o único padrão relevante são os interesses americanos de curto prazo e que qualquer noção de ordem internacional baseada em regras é uma limitação ilegítima ao poder americano. Pete Hegseth tornou esta lógica explícita ao declarar que na guerra com o Irão os Estados Unidos não seguiriam as estúpidas “rules of engagement” desenhadas para proteger civis. America First, por isso, significa uma liberdade total de ação, desprezo pelas instituições internacionais e pelas normas que procuram limitar o uso da força. É um credo de poder sem responsabilidade, de força sem constrangimentos, onde o que é rejeitado, portanto, são as guerras que parecem servir interesses alheios ou que se submetem a constrangimentos impostos por outros.
Mas a razão mais fundamental para compreender porque é que o eleitorado MAGA aceita estas contradições sem hesitação reside na própria natureza do movimento. Trata-se de um movimento personalista, inteiramente ancorado na pessoa de Donald Trump. O próprio tem sido explícito sobre isto ao afirmar repetidamente que “MAGA is me”, que tudo o que faça será apoiado pelo movimento porque ele é o movimento. Ao colapsar completamente a distinção entre líder e movimento, Trump eliminou qualquer espaço para contradição entre o que promete e o que faz. Se Trump muda de posição, o movimento muda com ele. Se Trump inverte promessas, essas promessas são reinterpretadas ou simplesmente esquecidas.
Esta dinâmica permite o que Orwell chamou de doublethink, a capacidade de manter simultaneamente crenças contraditórias e aceitar ambas. Os seguidores de Trump desenvolveram uma arte quase religiosa de reinterpretar, racionalizar ou ignorar inconsistências. Tal como crentes que partem do pressuposto da perfeição do texto sagrado e reinterpretam passagens contraditórias para preservar essa perfeição, os apoiantes de Trump reinterpretam as suas ações para manter a coerência do líder. A promessa de não haver guerras foi, por isso, redefinida. Estas não são as guerras erradas dos neocons, são as guerras certas de Trump. A distinção é exclusivamente baseada na identidade de quem as faz.
Esta lealdade tem protegido Trump de contradições, mas a guerra no Irão pode testar os seus limites de formas que a Venezuela nunca testou. Até agora, os eleitores americanos não sentiram custos pelas intervenções do seu presidente. As referidas operações rápidas, as vitórias cinemáticas, nenhum impacto tangível tiveram ainda na vida quotidiana do americano comum. A guerra no Irão ameaça quebrar este padrão. O encerramento do estreito de Ormuz e os ataques iranianos a infraestruturas energéticas no Golfo já estão a criar pressão inflacionária através da subida dos preços do petróleo. Se essa pressão se traduzir em gasolina mais cara e inflação generalizada, os eleitores começarão a sentir custos diretos. E ao contrário da infraestrutura política venezuelana que colapsou rapidamente, a estrutura institucional iraniana foi desenhada precisamente para resistir à decapitação das lideranças. Uma intervenção prolongada, potencialmente exigindo presença militar americana no terreno e gerando baixas, começaria a parecer-se perigosamente com as velhas guerras dos neocons que Trump passou anos a criticar.
Os sinais de tensão interna já começam a aparecer. Vozes influentes da direita mediática como Tucker Carlson, Matt Walsh e Megyn Kelly têm vocalizado oposição crescente à guerra. O silêncio de JD Vance tem sido igualmente revelador. O vice-presidente, considerado um isolacionista mais coerente que Trump, parece estar a procurar distanciamento tácito, talvez já com as suas futuras aspirações presidenciais em mente e procurando não alienar a ala mais genuinamente isolacionista do partido. Se a guerra se prolongar e os custos aumentarem, estas vozes podem formar uma frente que ameaça o monopólio de Trump sobre a direita americana.
Mas mesmo que a guerra se prolongue e os custos aumentem, a probabilidade de o movimento se virar contra Trump permanece reduzida. O monopólio que Trump ainda tem sobre o GOP torna mais provável que, perante dificuldades, as culpas sejam desviadas para outro alvo. E o alvo mais óbvio é Israel. Quando Marco Rubio sugeriu que os Estados Unidos decidiram atacar o Irão porque Israel já tinha decidido fazê-lo, expôs um ponto de tensão profundo. Embora Trump tenha rapidamente desmentido, a narrativa de que a guerra serve interesses israelitas mais do que americanos ganhou força tanto à esquerda como em sectores da direita.
É que se os republicanos mantêm lealdade inabalável a Trump, o mesmo não se aplica a Israel. Pela primeira vez na história, algumas sondagens mostram que mais americanos simpatizam com a causa palestiniana do que com a israelita, tendência esta que é particularmente pronunciada entre os mais jovens. Netanyahu, ao colocar todas as suas fichas em Trump e ao ajudar a criar a perceção de que a política externa americana serve os interesses do Estado de Israel acima dos interesses dos EUA, pode ter determinado inadvertidamente o fim de décadas de apoio bipartidário americano a Israel. Se a guerra no Irão for cada vez mais lida como servindo Tel Aviv em vez de Washington, essa narrativa pode tornar-se impossível de conter, especialmente entre republicanos mais ligados a Trump, já mais predispostos a algum ceticismo em relação a Israel, que procurarão um bode expiatório a quem atribuir potenciais custos.
Independentemente de como esta guerra específica termine, revela algo importante sobre a coligação que Trump construiu. O apoio MAGA a estas guerras não é irracional nem cego. Há razões compreensíveis que justificam este apoio aparentemente paradoxal. Para muitos apoiantes, não há aqui qualquer contradição com as promessas de campanha. Estas são simplesmente as guerras certas, feitas da forma certa, pelo líder certo.
Mas é precisamente neste último aspeto que reside a fragilidade estrutural desta coligação. A distinção entre as guerras erradas dos neocons e as guerras certas de Trump é delineada precisamente com base na identidade de quem as faz. E essa dinâmica, por mais que tenha funcionado até agora, é inseparável da figura de Trump. Impedido constitucionalmente de um terceiro mandato, Trump terá eventualmente de passar o testemunho. E quem quer que seja o seu sucessor não beneficiará dessa mesma lealdade que permite transformar contradições aparentes em coerência.
As tensões entre excepcionalismo e isolacionismo, entre espetáculo e substância, entre lealdade a Israel e America First, são reais e profundas. Trump conseguiu navegá-las porque o movimento aceita definir-se por referência ao líder. Sem Trump, essas tensões terão de ser resolvidas através da consagração de princípios ou de debate interno, tudo sem a cola que tem sido o seu líder. E não é claro que o movimento tenha os mecanismos ou a cultura política para o fazer. Trump transformou o GOP numa coligação que funciona pela sua presença. O preço dessa transformação será pago quando essa presença já não existir.