Nos últimos anos, o consumo recreativo de óxido nitroso tem vindo a ganhar visibilidade em vários países europeus, sobretudo entre jovens e adolescentes. Embora esta substância seja utilizada há séculos, a sua crescente disponibilidade e a perceção de baixo risco parecem estar a contribuir para a normalização do seu uso em contextos recreativos.
Em Portugal, os dados do Centro de Informação Antivenenos (CIAV) do INEM registaram 28 casos de intoxicação nos últimos quatro anos. O número pode parecer reduzido, mas revela um fenómeno que merece atenção, sobretudo porque tende a crescer de forma silenciosa e muitas vezes invisível.
Hoje, o chamado “gás do riso” é presença comum em festas e festivais. O baixo custo e rapidez dos efeitos alimentam a sua popularidade, especialmente entre os mais jovens.
O baixo custo, a facilidade de acesso e a rápida duração dos efeitos contribuem para a sua popularidade, especialmente entre os mais jovens. Pequenos cartuchos, originalmente utilizados para preparar natas batidas, são vendidos legalmente em lojas físicas ou online e acabam por ser usados para encher balões, a partir dos quais o gás é inalado.
A ideia de que se trata de uma substância “segura” ou “inofensiva” merece, no entanto, ser questionada. O óxido nitroso provoca efeitos psicoativos rápidos, como uma euforia momentânea, uma sensação de relaxamento ou uma desconexão da realidade. Apesar de geralmente transitórios, podem surgir tonturas, desorientação, náuseas, dores de cabeça e perda de coordenação, aumentando o risco de quedas e acidentes.
Mais alarmante é o impacto de o consumo repetido ou prolongado poder provocar danos no sistema nervoso. Sintomas como formigueiro nas mãos e nos pés, fraqueza muscular ou dificuldades na marcha podem surgir, e em alguns casos as sequelas neurológicas podem ser duradouras. Existem ainda riscos menos conhecidos, como queimaduras provocadas pelo gás extremamente frio ou lesões pulmonares associadas à elevada pressão quando utilizado de forma inadequada.
Atualmente sua utilização tem sido impulsionada pela “moda” entre alguns grupos e pela circulação de informação e conteúdos virais nas redes sociais, que ajudam a aumentar a curiosidade e a experimentação. Mas, perante esta realidade, ignorar o fenómeno ou tratá-lo apenas como uma “moda passageira” não parece ser a resposta mais sensata.
É aqui que os profissionais de saúde, e em particular a enfermagem, têm um contributo fundamental. Pela proximidade com a comunidade e pela experiência no desenvolvimento da literacia em saúde, encontra-se numa posição privilegiada para ajudar a esclarecer dúvidas, identificar sinais de risco e promover escolhas mais informadas, sobretudo junto dos jovens, dos pais e dos professores.
Mais do que alarmismo, precisamos de informação rigorosa, reflexão e uma resposta conjunta entre profissionais de saúde, decisores políticos e comunidade, para compreender melhor este fenómeno e agir de forma eficaz. A comunicação eficaz é uma estratégia importante para evitar, que aquilo que parece apenas um momento de diversão pode, amanhã, deixar marcas duradouras na saúde.