«Vire-se para a esquerda, e agora para a direita. E repita o que eu vou dizer».
Foi isso o que me foi dito para fazer, logo ao princípio, pelo médico de fartas sobrancelhas de quem dependeria o meu imediato futuro de condutor de veículos ligeiros.
Restava-me cumprir o ordenado: era o salário possível.
À esquerda, uma parede branca; à direita, uma branca parede. E papagueei corretamente as curtas frases que ele, cochichando, me transmitiu.
Depois, fechei os olhos e toquei o nariz, o meu nariz, com o indicador da mão direita, e o mesmo com o indicador da mão esquerda. Sem jeux de mots, tudo aconteceu, e sem surpresas, num fechar de olhos.
No fim, ainda me mandou levantar em simultâneo os dois braços, como fazem nas arenas os homens das bandarilhas. Assim se concluiu a segunda e penúltima fase daquela inspeção médica: nada de novo a Oeste, tudo como d`antes. Mais cinco minutos, e estaria de saída. Julgava eu.
«O que me diz desta sopa de letras?», interrogou-me apontando para o habitual quadro com filas de letras de diferentes dimensões, pendurado na terceira parede. Era esta a derradeira etapa a percorrer antes do veredito final do júri unipessoal. Após os bons resultados nas precedentes provas de aptidão, sentia-me confiante em relação a esta última dirigida às minhas qualidades visuais, até porque, colando-me à porta do gabinete enquanto esperava, tinha já ouvido soletrar por dois outros colegas nas mesmas circunstâncias de penosa expetativa, as consoantes N, S e P.
.«Qual é esta?»
« N!», retorqui enfaticamente.
.«Diga três palavras começadas por N!»
«????»
.«Agradeceria uma resposta…»
«Claro, Professor! NUTS!»
.«Uma palavra em português!»
«NAVEGADOR!»
.«Muito bem, português e peras! Mais?»
«NABUCODONOSOR!
.«E você a dar-lhe nas estrangeirices… »
«Tem razão, doutor! NARRATIVA!»
.«Aceito, mas excecionalmente! Essa palavra está sempre a meter o bedelho nas conversas das gentes, até já a ouvi pronunciada entre futeboleiros!
E a terceira palavra?»
«NOVIDADES!»
.«Porque..»
«Com tantas notícias, fazem-me falta as NOVIDADES..!»
.« Hum.. passemos então à…terceira letra!»
«P!»
.«As três palavras?»
«POLITIQUICE!»
.«E porquê essa escolha?»
«Porque é aquilo que mais ouço e vejo! Saiu-me!»
.« A segunda?»
«PIROMANÍACOS!»
.«Por causa dos incêndios?»
«Não , por causa do ´trio Odemira`do Putin, Trump e Natanyahu…»
.«Já me chega!»
E escrevinhou algo no laptop. Riu-se para dentro, mas eu dei por isso. E gostei, porque não era irónico, nem muito menos desesperado… Passaram-se dias – passe o exagero – até que me olhasse e dissesse:
.«Então, o que achou?»
«De quê?»
.«Relax Max, sabe muito bem do que falo!»
«Das perguntas sobre as palavras?»
.«Sim! Surpreendeu-se um bocadinho, ou muito?»
«Já que me pergunta, pareceu-me uma charada a puxar para a fantasia…»
.«Percebo, percebo… eu explico-lhe: este tipo de questionário – só aparentemente descontraído e lúdico – deverá ser doravante, no meu entender, o guião a seguir para atribuir ao candidato à renovação da sua carta de condução as buscadas credenciais: estamos nas vésperas da introdução do automóvel autónomo, pelo que defendo que o exame do aspirante se venha a centrar na sua história e sensibilidade psico- somáticas e, em especial, da sua vivência cultural…»
«…»
.«Será- entende-me?-, no somatório desses elementos informativos, que se encontrará a adequada resposta sobre a hipotética capacidade quando confrontada com uma situação de urgência…como a de transmitir ao computador central as instruções adequadas diante de uma possível avaria no software do automóvel…
Estará essa pessoa preparada para dar conta do recado?
Pergunto: um melómano ou um engenheiro, qual deles será mais confiável, quando lhes for exigido que abandonem rapidamente as suas digitalizadas pautas ou folhas de cálculo para acudir atempadamente a uma situação que, em caso último, possa envolver a morte de outras pessoas?
Um perito das Sagradas Escrituras terá os mesmos reflexos que um nerd informático em face de uma situação a requerer uma resposta quase instantânea?»
O médico despediu-me com um largo sorriso, sem esperar sequer que eu lhe respondesse: tinham sido umas perguntas meramente retóricas. Mas ainda me confirmou que eu, em qualquer dos registos, estaria autorizado a guiar na via pública o meu adulto veículo pessoal de quatro rodas. E eu exultei.
Foi então que entraram na sala sem baterem à porta , dois agentes da autoridade, para levarem o falso profissional para a instituição que há tempos o acolhia: não fazia mal a ninguém, era conhecido como o «Sobrancelhas Louco» , mas tinha havido dois acidentes graves de viação cometidos na véspera por anteriores e incompetentes candidatos à renovação da sua carta que tinham passado há dias com distinção o teste do visionário-aldrabão. Coitado, a sua mente não tinha resistido à ausência de um trabalho decente, não obstante o seu MBA e posterior Doutoramento. E a sua imaginação não parecia ter limites.
Nota final: embora o possa sugerir à primeira vista, a prosa que atrás ficou não foi produzida com a ajuda da IA.