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(A) :: A culpa é dos banqueiros?

A culpa é dos banqueiros?

É uma tradição os governantes atirarem-se aos banqueiros. Assim o fez recentemente o ministro da Economia, com pouca memória sobre o que nos levou à crise de 2011. 

Helena Garrido
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O ministro da Economia e Coesão Territorial resolveu criticar os bancos porque as empresas se têm queixado de excesso de “retração” e porque não estão a conceder mais crédito, mas a transferir o que já concederam para as linhas com garantia pública. E fez essas críticas na abertura do Fórum da Banca do Jornal Económico, com os banqueiros a assistir. Manuel Castro Almeida deu como exemplo o facto de os depósitos das empresas serem agora superiores aos créditos que recebem.

Os banqueiros reagiram, uns de forma mais assertiva do que outros. O presidente do Millennium BCP, Miguel Maya, foi um dos que fez as críticas mais directas e com pistas sobre as razões para a falta de crédito. Começando por dizer que os créditos representam agora 70% dos depósitos e que gostaria de estar nos 90 ou 95%, acrescentou que não encontrava razões para os bancos terem excesso de prudência. Depois desafiou a que se perguntasse porque não investem as empresas ou porque se leva seis meses a conseguir um licenciamento ou mesmo autorização para abrir um novo turno na fábrica.

Simplificando, o ministro disse que os bancos estão a ter excesso de prudência, os banqueiros disseram que não há procura de financiamento para investir e uma das razões pode estar na burocracia que o Governo prometeu combater, mas que tarda em fazê-lo. De facto, e só para dar um exemplo, esperar pelo menos seis meses apenas para obter a autorização de abrir um novo turno numa fábrica é o caminho para tornar esse investimento inviável, especialmente nos tempos agitados que vivemos.

Embora os ministros da Economia sejam tradicionalmente os críticos dos bancos, neste caso concreto, dados os problemas financeiros no nosso passado recente e até o papel que o PSD teve em resolvê-los, com custos políticos, Manuel Castro Almeida poderia ter tido aquilo que acusa os bancos de terem: prudência.

A crítica que o ministro fez aos bancos, de emprestarem menos do que aquilo que têm em depósitos das empresas, além de serem observações de três meses – outubro, novembro e dezembro -, corresponde a uma tendência de desendividamento que se iniciou com a crise de 2011. Em finais de 2010 o stock de empréstimos às empresas correspondia a mais de quatro vezes os depósitos que tinham o que, somado ao que se passava também com os particulares, explica o elevado endividamento que nos levou para os braços da troïka.

Se o comportamento dos bancos fosse no sentido do que implicitamente o ministro está a sugerir teríamos de novo as instituições financeiras com um rácio de transformação superior a cem por cento, admitindo-se obviamente que fariam o mesmo para os particulares. Claro que podemos dizer que nem oito nem oitenta, nem o que fizeram no passado, marcado pela grande festa do crédito, nem o excesso de prudência.

O problema é que o ministro colocou mal a questão. O que tem de se perguntar é porque é que os bancos não concedem crédito. E é aí que vai parar ao facto de o investimento ter tido dificuldade em arrancar, apesar dos milhões que chegam de Bruxelas. Nos últimos anos, as previsões, nomeadamente do Banco de Portugal, acabam sempre por ser optimistas quanto à evolução do investimento – isto é, o investimento cresce sempre menos do que se previa.

A regra básica para se resolver qualquer problema é identificá-lo bem. E foi isso que o ministro não fez. Seguramente que não quer que os bancos sejam imprudentes ou sejam levados por ordens do Governo, como aconteceu na primeira década do século XXI e que nos conduziu ao resgate financeiro. Um Governo que não queira problemas financeiros tem de elogiar a prudência dos banqueiros. E perceber porque é que os bancos não concedem mais crédito.

Um bom começo para identificar o problema passa por falar com os empresários e conhecer a via sacra de autorizações que têm de percorrer para realizarem qualquer investimento. Por isso, em vez de criticar os banqueiros, Manuel Castro Almeida devia, em Conselho de Ministros, apresentar propostas para reduzir os designados custos de contexto ou desafiar o seu colega ministro Gonçalo Matias a ser mais rápido a reduzir a burocracia. É disso que precisamos, até com muita urgência para os empresários que foram vítimas das tempestades, já que a tentação para desistir e fechar a empresa pode ser grande, e não por falta de dinheiro.

Não são santos, mas também não se pode dizer que são pecadores, especialmente porque a crise financeira ainda é de memória recente.