Nas minhas últimas crónicas procurei explorar os riscos associados à difusão acelerada da inteligência artificial generativa. Comecei pela erosão da escrita enquanto exercício de pensamento, num espaço público cada vez mais saturado por textos plausíveis, frequentemente vazios de intenção e de compromisso com a verdade. Depois, escrevi sobre a deslocação da autoria para uma nova figura – o “meta-autor” –, aquele que já não escreve necessariamente cada frase, mas que acaba por responder pela coerência, pela intenção e pelo sentido do que é produzido. Em ambos os casos, preocupa-me uma questão que considero central: como podemos preservar a responsabilidade intelectual e o valor da singularidade da escrita num mundo em que produzir linguagem se está a tornar – aparentemente – fácil?
Hoje, foco-me num terceiro problema, que, a meu ver, é o mais preocupante: a tecnologia está a evoluir muito mais depressa do que o corpo humano consegue acomodar. Nas últimas décadas, habituámo-nos a discutir o impacto das tecnologias digitais em termos de eficiência, produtividade e inovação. Mas só recentemente começámos a interrogar-nos sobre até que ponto o corpo humano – e, em particular, o cérebro – consegue absorver o ritmo dessa transformação.
Um artigo recente publicado na Harvard Business Review, denominado, “When Using AI Leads to “Brain Fry” (a que cheguei a partir do podcast HardFork, do New York Times, conduzido por Kevin Roose e Casey Newton), ajuda a iluminar este problema. Num estudo com trabalhadores de grandes empresas, os autores identificam um fenómeno que designam “AI brain fry”, uma forma de fadiga mental associada à utilização intensiva de ferramentas de inteligência artificial. O fenómeno foi sobretudo identificado em trabalhadores mais qualificados que passaram a gerir múltiplos sistemas de IA em simultâneo, alternando entre diferentes ferramentas, supervisionando os resultados e tomando decisões em cadeia. O resultado, segundo o estudo, manifesta-se sob a forma de “nevoeiro” mental, dificuldade de concentração, decisões mais lentas e aumento de erros. Curiosamente, a IA tende a reduzir o burnout ao substituir tarefas repetitivas, mas pode aumentar significativamente a fadiga cognitiva ao tornar o trabalhador num supervisor permanente de máquinas.
Pode dizer-se que este fenómeno não é novo, sendo algo a que assistimos, por exemplo, no uso excessivo de telemóveis de pequeno ecrã por adultos e crianças. Há pelo menos duas décadas que estamos a submeter o cérebro humano a um processo de aceleração tecnológica sem precedentes. O computador portátil, o smartphone, a internet permanente, as notificações constantes, o teletrabalho e a hiperconectividade digital estão a alterar profundamente a forma como muitos de nós trabalhamos e pensamos. A inteligência artificial generativa acrescenta agora uma nova camada de complexidade: não apenas produz informação em grande escala, como exige dos mais válidos e preocupados com a qualidade do que produzem, dos que fogem da “facilidade”, que a supervisionemos, validemos e integremos em ciclos de decisão cada vez mais rápidos. O problema é que estamos a redesenhar o trabalho intelectual à velocidade da inovação, mas o cérebro humano continua a evoluir à velocidade da biologia.
Não obstante as fragilidades que muitos apontam ao estudo apresentado na Harvard Business Review, parece claro que temos, mais uma vez, pela frente, o enorme desafio de aprender a acomodar a inovação, neste caso, trazida pela IA, sem destruir a nossa saúde física e mental.
Isso pressupõe, antes de mais, reconhecer, desde logo, cada um de nós, individualmente, que a atenção e a clareza mental são recursos escassos que precisam ser protegidos. Mas também, a um nível empresarial e institucional, há que assumir que o uso de IA nos processos corporativos e mais cerebrais implica repensar o desenho do trabalho intelectual, evitando transformar profissionais qualificados em meros gestores de múltiplas ferramentas digitais. A integração da IA deve, v.g., privilegiar a eliminação de tarefas repetitivas e não a multiplicação sem fim de contextos, plataformas e decisões intermédias, que levem os profissionais mais qualificados à exaustão por sobrecarga e aceleração cerebral.
O desafio é, ainda assim, cultural e mais profundo, como referi na minha última crónica. Num mundo em que produzir texto, análise ou código se torna cada vez mais fácil, o verdadeiro diferencial humano não vai residir na velocidade ou na facilidade com que produzimos “texto” ou “conteúdo”, mas na capacidade de pensar com clareza, de formular boas perguntas e de assumir responsabilidade pelo que se afirma. Ora, pensar com qualidade, relevância e valor vai continuar a exigir tempo, silêncio e fricção intelectual; todavia, são precisamente estes os elementos que as tecnologias digitais tendem a eliminar.
Muito se tem falado e escrito, com um alarmismo que carece de evidências, sobre os riscos que a humanidade corre diante da inteligência das máquinas. O que assistimos, porém, e que tanto tem sido negligenciado, é que a grande ameaça não nos será exógena, mas sim endógena, proveniente de nós mesmos. Aquilo que a transformação digital nos está a trazer, para além de inúmeras e óbvias vantagens, é uma enorme fadiga que já afeta uma larga maioria de pessoas, embora em diferentes graus, em grande medida por não estarmos a apreender que o corpo humano tem, como as máquinas, limites físicos.
Mais do que nos deslumbramos acriticamente com as ferramentas e o que elas nos oferecem, talvez valha a pena darmos um salto de maturidade e compreendermos que o verdadeiro progresso tecnológico consiste em usar estas máquinas cada vez mais poderosas sem destruir aquilo que, em última análise, continua a ser o nosso recurso mais valioso: a atenção humana. Até porque, no final, grande parte dos problemas a que assistimos hoje, na degenerescência da democracia, na degradação da qualidade no trabalho intelectual, na destruição das relações de amizade e da família, nos problemas de empatia e isolamento social das gerações mais novas, tudo se reconduz, em larga medida, à erosão crescente da atenção humana.