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NEMPENSEM

Costuma até dizer-se que as renováveis são dos poucos legados positivos de José Sócrates – provavelmente porque ainda não se descobriu como é que o então PM lucrou pessoalmente com elas.

José Diogo Quintela
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A língua inglesa tem uma capacidade singular de criar acrónimos, siglas transformadas em palavras que entram no vocabulário corrente. Por exemplo, RADAR (radio detection and ranging) ou LASER (light amplification by stimulate emission of radiation). Uma das minhas prediletas é NIMBY (not in my back yard), uma frase dita por pessoas que se opõem à instalação, na sua vizinhança, de construções, projectos ou prospecções que impliquem algum tipo de desconforto (barulho, poluição, movimento, mamarrachos), apesar de serem a favor da sua implementação noutro local. Não tendo nós inventado o RADAR ou o LASER, não vejo necessidade de aportuguesar os termos. Já em relação à birra sobre edificações indesejadas no nosso quintal, somos uma autoridade. Daí que proponha uma alternativa para traduzir NIMBY para português: NEMPENSEM. Significa “Não Estejam Muito Perto, Eu Não Suporto Esta Merda”. Tem veemência, tem egoísmo, tem vernáculo. Sou parcial, mas parece-me que capta bem o espírito.

Portugal há muito que abraçou o desígnio da transição energética. Somos pioneiros nas energias verdes e tudo indica que é uma aposta para continuar. Costuma até dizer-se que as renováveis são dos poucos legados positivos de José Sócrates – provavelmente porque ainda não se descobriu como é que o então PM lucrou pessoalmente com elas. Cada vez que há um dia em que toda a electricidade consumida vem de fontes renováveis, exultamos. Mas depois também acontece isto:

Não queremos um parque eólico em Arcos de Valdevez por causa dos lobos, nem uma central fotovoltaica em Castelo Branco por causa das águias. Não aceitamos painéis solares em barragens. Muito menos toleramos exploração de lítio  em Covas do Barroso, em Felgueiras e em Boticas. Ou o abate de sobreiros para instalar o que quer que seja. Repugna-nos a caça de javalis. E arrelia-nos que chateiem os peixes por causa de eólicas off-shore.

Das embirrações que tenho vindo a coleccionar, destaco esta: “Destruir o horizonte da praia do Malhão”. Não só por estar fresquinha (saiu no Domingo), mas sobretudo por ser da autoria de Pedro Adão e Silva, que foi membro do Governo que mais evangelizou os portugueses para a necessidade de substituir os imundos combustíveis fósseis pelas balsâmicas energias renováveis. E que agora protesta contra “a construção de um gigantesco parque eólico com instalação de 19 aerogeradores com perto de 200 metros (o que corresponde a um condomínio composto por 19 prédios de 60 andares!), acompanhados por uma linha elétrica de alta-tensão, tudo na fronteira de um território protegido, o Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina”. Eu percebo o choque com a dimensão das ventoinhas (veja-se esta reportagem sobre o transporte destas cotonetes gigantescas pelas sinuosas estradas minhotas), por quem até agora só as vira em ponto pequeno, filmadas por drones numa montanha desabitada, em vídeos de propaganda sobre a benevolência da poética força do vento. Mas o facto é que elas têm de girar em algum sítio. Calhou ser na praia favorita de Adão e Silva, que admite: “sou um dos privilegiados que cresceu habituado àquela terra única, onde podemos ver, de um lado, o sol a nascer junto à serra que encobre o montado alentejano e, de outro, assistir ao pôr do sol no horizonte da praia do Malhão”. Realmente, uma paisagem dessas não é a mesma coisa pontuada por moinhos colossais a emitirem um zumbido que se sobrepõe ao próprio marulhar das ondas. Se bem que, como o próprio refere, tudo se passa “na fronteira de um território protegido”, que é outra forma de dizer “em território não protegido”.

O antigo ministro refere ainda que “Não está em causa a importância da transição energética — aparentemente, é esse o propósito deste investimento — mas, sim, o paradoxo de, em nome da transição energética, se destruir o património natural, numa das poucas regiões do país onde, apesar de tudo, este está preservado”. Pondo de parte a insinuação de que o propósito deste investimento em renováveis pode não ser a transição energética mas sim outros interesses menos nobres, esta declaração é o exemplo perfeito de NEMPENSEMismo: sabemos que a transição energética é fundamental para salvar o planeta, mas aqui não, pá. Não Estejam Muito Perto, Eu Não Suporto Esta Merda. Vão para outro sítio produzir a energia do meu carro eléctrico e do data center onde está albergada a cloud que me permite estar a redigir esta crónica enquanto o pôr-do-sol no Malhão.