“Há aqui qualquer coisa que me está a escapar.” “Não sei porquê, mas acho que posso confiar nele.” “Tenho um mau pressentimento em relação a isto.” “Sinto que isso não é boa ideia.” Frases como estas fazem parte do nosso vocabulário quotidiano. Usamo-las quando temos uma sensação — às vezes mesmo uma certeza — que não conseguimos justificar racionalmente. A isso chamamos intuição, sexto sentido, gut feeling ou instinto.
Apesar de ainda não estar totalmente explicada, a intuição é geralmente descrita como um julgamento que surge através de processos mentais rápidos, não conscientes e holísticos, frequentemente acompanhado por uma forte carga emocional. Distingue-se, por isso, do raciocínio analítico, que é um processo mental lento, deliberado e consciente, que exige esforço.
“Confiamos mais na intuição quando a decisão é, acima de tudo, humana. Isto é, envolve pessoas, relações, valores, identidade, estética”, diz Filipe Loureiro, professor no ISPA — Instituto Universitário e investigador no William James Center for Research, onde estuda a intuição e os processos de tomada de decisão. “Em decisões experienciais e hedónicas — uma viagem, um concerto, uma oportunidade que ‘se sente’ —, as pessoas tendem a seguir a sua intuição; em decisões mais materiais e utilitárias — comprar um computador, uma televisão, um frigorífico —, tendemos a ser menos intuitivos e mais analíticos.”
Além disso, acrescenta o investigador, também recorremos mais à intuição quando temos pouco tempo para decidir, quando dispomos de pouca informação ou quando pensar demasiado exige muito esforço mental e pode levar à indecisão.
Nem toda a intuição, no entanto, funciona da mesma maneira. Os investigadores da psicologia cognitiva distinguem um tipo de intuição particular: a intuição baseada na experiência — que resulta de anos de contacto com situações semelhantes. Há vários estudos que mostram que médicos, enfermeiros, bombeiros e jogadores profissionais de xadrez, entre outros, tomam com frequência decisões intuitivas que se revelam muito acertadas.
Nestes casos, este julgamento rápido tende a ser mais fiável porque se apoia em padrões aprendidos ao longo do tempo. “Quando alguém viveu muitas decisões semelhantes, acumulou experiência, exposição e feedback num determinado contexto, a intuição deixa de ser um palpite e torna-se um reconhecimento de padrões, isto é, uma forma rápida — muitas vezes automática — de inferir ‘o que está a acontecer’, mesmo antes de o conseguir explicar por palavras”, explica Filipe Loureiro.
A investigação mostra que, por isso, esta intuição relacionada com a experiência funciona melhor em ambientes onde existem padrões relativamente estáveis e feedback claro. Já em situações imprevisíveis, com informação ambígua ou sem feedback imediato — como decisões financeiras complexas ou julgamentos sobre pessoas que mal conhecemos —, a intuição pode tornar-se menos fiável.
A forma como validamos a intuição depende muito do contexto, mas também do estilo pessoal, havendo grandes diferenças individuais e culturais. “Algumas pessoas têm um estilo cognitivo intuitivo, confiam em inferências experienciais, rápidas e holísticas; e outras têm um estilo cognitivo analítico e sentem-se seguras com validação deliberada, decomposição do problema e justificação da decisão passo a passo”, diz o investigador. Mas, sendo capacidades independentes e compatíveis, há uma terceira possibilidade: combinar ambas e ajustá-las à situação. “A literatura científica recente reforça a importância deste equilíbrio adaptativo, salientando que a eficácia não está em escolher um estilo específico, mas em articular intuição e análise de forma flexível e contextual”.
Apesar de a intuição ser muitas vezes descrita como algo mais “natural” ou “autêntico”, pelas suas características de rapidez e espontaneidade, isso “não garante a qualidade da decisão”. Sobretudo porque existe um outro processo mental bem conhecido — igualmente rápido, automático e inconsciente — que se pode confundir com a intuição, mas que gera padrões sistemáticos de erro e distorção: os vieses cognitivos. Por isso, é importante temperar as intuições com algum pensamento crítico.
Por outro lado, sobretudo perante problemas complexos e ambíguos, nem sempre os dados e as análises são suficientes e a intuição pode ajudar na tomada de decisão. “Numa altura em que a Inteligência Artificial e a disponibilidade de dados reforçam a capacidade analítica, isto torna-se ainda mais relevante. A tecnologia pode ajudar-nos a ver mais, mas não a compreender melhor. E se os dados raramente contam a história toda, a intuição também não é infalível. O equilíbrio certo surge quando ambas se obrigam a conversar.”