De Bristol, no Reino Unido, a Horenka, na Ucrânia. Da Hudson Street, em Nova Iorque, ao registo civil britânico, em Londres. A investigação da Reuters folheou muitos papéis, entrevistou testemunhas, falou com pessoas próximas de Banksy e revisitou muitos dos murais do mais célebre artista urbano do mundo. E chegou à conclusão de que um dos rumores que circulam há vários anos corresponde mesmo à verdade.
Depois de décadas de anonimato, especulações e mistério, a teoria de que Banksy é Robin Gunningham passou agora a ser uma certeza à luz do trabalho da agência de notícias britânica, que garante, sem “margem para dúvidas”, a sua identidade. Na verdade, o seu rasto confunde-se, em boa parte, com o de Gunningham, um homem de 54 anos que cresceu em Bristol, que se acredita ser a terra natal de Banksy e o local onde surgiram as suas primeiras obras.
Mas Robin Gunningham já não tem esse nome, concluiu a agência britânica. Em 2008 mudou-o para David Jones, um dos nomes mais vulgares no Reino Unido. Não se sabe se em 2026 ainda o usa. A ideia teria sido não chamar a atenção e manter-se afastado dos “boatos” que o ligavam a Banksy, quando viajava, por exemplo.
E foi precisamente o que aconteceu numa dessas viagens que chamou a atenção da Reuters. Banksy pintou diversos murais na vila de Horenka, nos arredores de Kiev, em zonas destruídas por bombardeamentos russos. Como tinha conseguido entrar e movimentar-se num território em guerra? O mural de uma banheira numa aldeia a poucos quilómetros de Bucha, o mais conhecido massacre em território ucraniano depois da invasão russa, atraiu o interesse da agência de notícias. Como conseguira entrar? Quando? Por onde? Com quem?
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A agência de notícias britânica revela que na mesma altura, em outubro de 2022, uma pessoa com o nome David Jones e com a mesma data de nascimento de Gunningham também entrou em território ucraniano, citando uma fonte próxima dos serviços de imigração. A 2 de novembro de 2022, o mesmo dia em que David Jones abandonou a Ucrânia, também Robert Del Naja — antes apontado como Banksy, mas mais tarde reconhecido como amigo e colaborador do artista — saiu de território ucraniano.
Uma moradora de Horenka, Tetiana Reznychenko, confirmou à agência que serviu um café a dois homens que estavam a pintar o mural de uma banheira na aldeia ucraniana e os viu sem máscaras. Quando o jornalista da Reuters mostrou uma fotografia de Del Naja a Reznychenko, os seus olhos “arregalaram-se”, apesar de negar ter visto o homem que estava no retrato. A reação por si só, sublinha a agência, não vale de muito, mas relacionada com outras informações, ajuda a confirmar a presença do amigo de Banksy em Horenka.

Para ali chegar, os dois homens utilizaram uma ambulância cedida por um fotógrafo documental com um braço e duas próteses nas pernas (perdidas no Afeganistão em 2011), que também os acompanhou. Giles Duley doa habitualmente estas viaturas a ONG ucranianas. Mais tarde, Banksy, já fora da Ucrânia, agradeceu publicamente ao fotógrafo a ambulância. A ligação entre Del Naja e Duley não era, porém, inédita. As suas fotografias compunham os cenários de palco da banda de Robert Del Naja: os Massive Attack, em que o também artista de graffities era vocalista.
“Nunca vão adivinhar quem eu encontrei! Robert Del Naja, dos Massive Attack!” — disse aos jornalistas da Reuters uma fonte não identificada que esteve no hotel Hilton em Kiev no período em que Banksy e o amigo estiveram na Ucrânia. Foi depois dessa informação que a agência conseguiu confirmar a data de entrada de Del Naja e Duley na Ucrânia, pela fronteira com a Polónia, no dia 28 de outubro de 2022. Os murais começaram a surgir depois disso, sendo que já fora do país, Banksy publicou um vídeo nas redes sociais a assumir a sua autoria.
Mas a identidade de Banksy continuava a ser uma incógnita. A Reuters foi tentar perceber quem seria o terceiro homem que acompanhava Duley e, para isso, alinhou registos fotográficos da presença daqueles três homens em Horenka. Além de Gunningham — o principal “suspeito” de ser Banksy —, a agência não descartou a hipótese de ser Thierry Guetta, um artista urbano que apareceu num documentário sobre Banksy em 2010. Na altura, chegou a dizer-se que era ele o verdadeiro artista, embora seja francês, mas essa teoria nunca se confirmou.

Detenção e confissão: o gesto que abriu uma brecha no anonimato
O primeiro episódio que liga Gunningham a Banksy remonta a 2000, quando o britânico pintou o topo de um edifício na Hudson Street, em Nova Iorque e acabou detido. A ocorrência é descrita numa confissão manuscrita encontrada pela Reuters em documentos da polícia norte-americana. “Na noite de 17 de setembro, estava a beber numa discoteca com amigos quando decidi fazer um ajuste bem-disposto num painel publicitário no topo do edifício da Hudson Street. Usando uma chave, entrei no edifício onde tenho mantido algumas tintas e, com uma escada, pintei uma sombra de olhos, uma nova boca e um balão de fala no topo do anúncio”, lê-se na nota. A assinatura: Robin Gunningham. Além desta confissão, a agência refere que o nome consta em diversos documentos policiais. Essa terá sido a primeira brecha no seu muro de anonimato. Mas foi preciso esperar mais oito anos para o nome Robert Gunningham surgir pela primeira vez.
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Em 2008 o The Mail on Sunday, a quem a Reuters dá razão, associou uma imagem já existente de Banksy, de 2004, a Gunningham. O autor da fotografia foi Peter Dean Rickards, fotógrafo que teve uma desavença com Banksy quando trabalharam junto na capa de um álbum para a produtora Wall of Sound. O conflito derrapou para o site de Rickards, onde este acusou Banksy de ser “um aspirante a punk ‘stencilista'”, numa publicação já apagada, de acordo com a agência.
Apesar de não revelar o verdadeiro nome do artista urbano, Rickards (que já morreu) publicou 14 fotos que mostravam a cara de Banksy, enquanto trabalhava na Jamaica. Em 2004, foi o Evening Standart a publicar uma dessas fotografias mas sem o nome verdadeiro do artista e sem a certeza de que se tratava mesmo de Banksy. Steve Lazarides, o seu manager na altura, negou que fosse Banksy. Era “outra pessoa”, disse, citado pela agência . Em 2008, o The Mail on Sunday deu finalmente um nome à cara revelada quatro anos antes: Robin Gunningham. E, nesse mesmo ano, Gunningham mudou de nome, o que leva o Daily Mail a acreditar que não foi uma coincidência.

Questionado agora pela Reuters, Lazarides diz que “não existe nenhum Robin Gunningham”. “O nome que vocês mencionam eu já apaguei há anos”, revela o empresário à agência, acrescentando que tentar encontrá-lo seria “um beco sem saída” e que “nunca o encontrarão”, em vida.
O anonimato que se “tornou uma doença” e o pedido do advogado
O antigo representante de Banksy admitiu ter mudado o seu nome verdadeiro para um outro, sem o revelar, em 2008. Disse apenas que não havia qualquer trocadilho, ou significado, era apenas um nome. Na conversa com os jornalistas da Reuters, revelou que o objetivo inicial do anonimato era escapar à polícia, e reconheceu que manter um disfarce constante tornou-se num fardo. Durante o período em que Lazarides trabalhou com Banksy, passou pelo menos metade do tempo a manter escondida a verdadeira identidade do artista de Bristol, lamentou o empresário. “Acho que começou como uma piada entre nós, mas depois, para ser sincero, acho que se tornou numa doença”, frisou Lazarides à agência.
Outro dos nomes associados à verdadeira identidade de Banksy foi o seu colaborador Robert Del Naja. O elemento dos Massive Attack começou a grafitar também nas ruas de Bristol sob o pseudónimo de 3D, e, segundo a agência, foi o pioneiro da técnica com stencil — a utilizada por Banksy — no Reino Unido. Além disso, Del Naja alertou para injustiças políticas e sociais — tema presente nas obras de Banksy.

Em 2012, o artista de Bristol foi questionado no seu site sobre se tinha copiado o artista urbano francês Xavier Prou, conhecido por Blek le Rat, que usou stencil na década de 80 para desenhar ratos em Paris. A resposta adensou os rumores de que Del Naja era Banksy: “Não. Copiei o 3D dos Massive Attack. Ele sabe mesmo desenhar”. Também o facto de Goldie, produtor musical e amigo de Del Naja, se ter referido em 2017 a Banksy usando o nome “Rob” (de Robert), teve o mesmo efeito. Muito antes disso, em 2003, antes de a cara de Banksy aparecer no Evening Standard, Del Naja foi visto numa manifestação contra a guerra no Iraque a segurar um cartaz com uma reprodução de Banksy.
Lazarides ironizou sobre essa possibilidade, numa entrevista à CBS divulgada pela primeira vez em 2023. “Estava no meu computador, pesquisei e pensei: Rob, Robin… Esse nome está por aí, e quem garante se é verdade? Robin, Robert, Robbie…”, questionou. “Del Naja é um artista de grafitti, e eu diria que, sem dúvida, muito melhor que o Banksy”, afirmou para logo a seguir lançar a confusão. “É Robert Del Naja. E eu, e mais algumas pessoas. Talvez esteja a falar a sério, talvez não”, provocou, deixando a dúvida no ar.
Contactado pela Reuters, Mark Stephens, o advogado de Banksy, respondeu dizendo que Banksy “não admite que muitos dos pormenores presentes nas perguntas enviadas estejam corretos”. Não confirmou nem desmentiu a identidade de Banksy, mas pediu que a agência de notícias não publicasse a investigação. Alegou que isso colocaria em perigo o artista, para além de violar a sua privacidade e interferir com a sua arte.