“Às vezes, o conhecimento é como um funil invertido”: quanto mais se aprende sobre um tema, menos óbvias as suas conclusões parecem ser. Apesar de a ter conhecido em uma aula de literatura, percebo cada vez mais que a trágica comparação não se restringe aos livros e abrange (muitas) outras áreas.
Interessado por sustentabilidade, o tópico das energias renováveis cativa-me. A possibilidade de gerar eletricidade a partir de fontes naturais — com menos emissões de gases de efeito estufa (GEEs) que os combustíveis fósseis — sempre pareceu-me uma escolha óbvia. Entretanto, a crescente contestação a alguns projetos, nomeadamente os de larga-escala em Portugal, fragilizou essa suposição.
Entre inúmeras petições públicas, manifestações e centrais a serem chumbadas, abandonei a “certeza” de que as renováveis seriam sempre “verdes” e comecei a perceber em que circunstâncias este modelo pode ser danoso — apesar da positiva redução de GEEs.
Mas, antes disso, é preciso reconhecer que estes grandes projetos, como as centrais fotovoltaicas e eólicas, são aliados estratégicos da transição energética. Diante das previsões de aumento na demanda de eletricidade e metas supranacionais para a expansão das renováveis — como alcançar pelo menos 42.5% da matriz até 2030, na UE —, eles permitem produzir grandes quantidades de eletricidade a um custo competitivo.
Então, qual é o problema?
Um dos fatores críticos é a localização escolhida para a implantação destes projetos. As centrais elétricas, a depender do caso, podem ocupar áreas expressivas. Por exemplo, a da Beira, recentemente chumbada pela Agência Portuguesa do Ambiente, previa possuir uma área de cerca de 700 campos de futebol preenchida por painéis fotovoltaicos. Com isso, diversos impactos negativos podem surgir da transformação do solo necessária para desenvolver as suas infraestruturas, principalmente em áreas sensíveis.
Para o meio-ambiente, a artificialização e fragmentação de espaços naturais pode configurar um dano para os ecossistemas locais. Algumas empresas já consideram esse efeito durante o desenvolvimento dos projetos, mas nem todas. Por exemplo, um estudo de investigadores da Universidade de Lisboa identificou 152 centrais fotovoltaicas na Península Ibérica em áreas protegidas.
Para as comunidades locais, por vezes os projetos também não passam despercebidos. Além da interferência visual, as centrais podem chocar-se com o desenvolvimento de atividades locais, como o turismo, e identidades regionais que estão diretamente ligadas às paisagens naturais. E na usual falta de contacto entre as promotoras de renováveis e as comunidades locais, esses efeitos nem sempre são endereçados.
A existência desses impactos, entretanto, não significa que devemos abandonar as energias renováveis. Continuar a gerar eletricidade a partir de combustíveis fósseis, na intensidade em que se tem feito, é incompatível com o bem-estar ambiental e social de nossa sociedade. Então, identificar os pontos fracos dessas novas tecnologias e desenvolver soluções para os seus efeitos negativos é a melhor maneira de progredirmos em direção a uma transição energética justa.
Uma possível alternativa baseia-se em incentivar um modelo descentralizado, em que áreas já artificializadas são utilizadas para a produção de eletricidade, evitando a intensificação do uso do solo. O exemplo mais conhecido é a instalação de painéis solares em telhados residenciais e não residenciais — os quais possuem um grande potencial subutilizado, com apenas 10% equipados na UE. Segundo um novo estudo publicado na Nature Energy, Portugal conseguiria atingir 65% da capacidade de geração de energia solar prevista para 2050 ao adotar esse sistema.
Já a segunda alternativa mantém a estrutura dos projetos de larga-escala, mas com um maior cuidado onde se desenvolvem. O conceito, chamado “Smart Sitting”, busca identificar áreas com potencial para as renováveis e riscos mínimos para a biodiversidade e os valores sociais. Desenvolvido pela ZERO e a The Nature Conservancy, já há um documento que guia o seu início em Portugal. E, de acordo com os resultados do estudo, as áreas classificadas como “baixo conflito” são suficientes para atingir a meta para energia solar de 2030 e alcançam 70% do necessário no caso eólico.
As propostas alternativas não são perfeitas e existem dificuldades para implementá-las, como a impossibilidade de instalar painéis em determinadas zonas de municípios, o encargo financeiro para indivíduos aderirem às iniciativas descentralizadas e a falta de organização governamental na definição de áreas prioritárias para o “Smart Sitting”.
Talvez não seja possível encontrar um modelo sem impactos ou riscos, pois tais infraestruturas requerem intervenções que alteram o espaço. Porém, a existência desses outros caminhos mostra-nos que é possível (e necessário) tornar as admiráveis energias renováveis ainda mais vantajosas. E com ganhos não só para o clima, mas também para a biodiversidade e as comunidades locais.
O Observadorassocia-se aos Global ShapersLisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.