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Chega em Lisboa atira Mascarenhas para a porta de saída. Tudo nas mãos de Ventura

Vereador não responde ao apelo de Rita Matias para demissão. Autarcas do Chega em Lisboa criticam Mascarenhas. Moedas, que nomeou (e exonerou) Livermore, tenta ficar à margem da polémica.

Miguel Pereira Santos
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Bruno Mascarenhas está sob fogo dentro do próprio partido na sequência das investigações que revelaram alegadas práticas criminosas da sua namorada, Mafalda Guerra Livermore. No sábado, Rita Matias pediu publicamente a demissão do autarca. Esta terça-feira, foram os deputados municipais do próprio partido a apontarem a porta de saída ao vereador.

“O grupo municipal do Chega, deputados e assessores, não se revê nas ações do vereador Bruno Mascarenhas, eleito pelo nosso partido. Nem foi consultado previamente sobre a indicação dos nomes para ocupar qualquer lugar das administrações das empresas municipais”, disse Luís Pereira Nunes, citado pelo semanário Expresso, na reunião da Assembleia Municipal desta terça-feira.

Ao Observador, Luís Pereira Nunes, que é também presidente da concelhia lisboeta do partido, atira a decisão para as mãos de André Ventura. “A confiança política não é retirada pela concelhia. Tenho a minha opinião, mas é um problema da direção.”

O líder da bancada do Chega na Assembleia Municipal de Lisboa (AML) acrescenta que “não gostava de ver o Chega sem nenhum vereador”, mas critica a postura de Mascarenhas neste primeiro mandato. Luís Pereira Nunes distancia-se dos crimes alegadamente praticados pela namorada do vereador do Chega e denuncia o comportamento que este último teve nas negociações com Carlos Moedas.

“Não me revejo minimamente na atitude do vereador de aprovar o Orçamento por lugares.” Aliás, Luís Pereira Nunes afirma que nem a concelhia nem o grupo municipal foram consultados sobre a indicação de Mafalda Guerra Livermore para vogal dos Serviços Sociais da Câmara de Lisboa (SSCML).

O dirigente local do Chega esclarece que, se o Orçamento de Moedas recebeu aprovação do Chega na AML, foi porque os deputados municipais do partido entenderam que “quem venceu as eleições devia governar e fazê-lo à direita”. Segundo este autarca, o acordo entre o presidente da Câmara de Lisboa e Bruno Mascarenhas não pode ter contemplado a aprovação do Orçamento Municipal de 2026, sendo que o documento tem de ser aprovado pela AML e os deputados municipais do Chega nunca o negociaram com Moedas. “Deveria ter havido uma maior interação entre a vereação e o grupo municipal”, lamenta.

Mascarenhas aguarda decisão de Ventura

A contestação interna a Mascarenhas não é recente, mas o verniz estalou definitivamente no sábado com a reação de uma das principais caras do partido ao caso. “A nomeação é ridícula. Sou uma das vozes que também se opôs. Bruno Mascarenhas, se quiser fazer um favor ao partido, demita-se de vereador. Saia e passe o lugar, para ficar alguém que realmente represente o Chega”, pediu Rita Matias. Questionado pelo Observador, Bruno Mascarenhas não respondeu se, após a intervenção da dirigente nacional, vai renunciar ao cargo autárquico ou desfiliar-se do partido.

Ter sido Rita Matias a dar a cara pela oposição interna ao vereador lisboeta não é surpreendente visto que, segundo apurou o Observador, a incompatibilidade entre Mascarenhas e a família Matias não é de agora. Manuel Matias, pai de Rita Matias e vereador em Odemira, foi o único outro nome sonante do partido a pedir o afastamento do autarca, numa publicação nas redes sociais. “Hoje dou um conselho ao Mascarenhas, pede a demissão e sai do Chega. No Chega não há lugar para pessoas como vocês, nem para aqueles que o defendem e protegem. Sinto vergonha alheia.”

Além de ter empurrado Mascarenhas para a saída, o comentário de Rita Matias confirma que não só os dirigentes locais, mas também os dirigentes nacionais, ficaram à margem das negociações para a nomeação de Livermore. Apesar disso, André Ventura tem sido comedido em relação a este caso.

Numa primeira reação, o líder do Chega disse que ia esperar pela “clarificação dos tribunais”, sendo que Mafalda Guerra Livermore acusou a investigação da RTP de se basear em alegações falsas. Além disso, sublinhou que a militante do Chega se demitiu “antes da Câmara de Lisboa tomar alguma decisão” — versão conflituante com a de Carlos Moedas que garante ter sido o responsável pelo afastamento.

Passada uma semana, Ventura avançou, em nova reação, que “há procedimentos internos em marcha e que, depois, serão tornados públicos”. O presidente do Chega garantiu este domingo que, quando recebem denúncias, os “órgãos próprios” do partido fazem “imediatamente as suas investigações independentemente de quem seja [o visado]”. No entanto, Ventura não acompanhou as críticas de Rita Matias ao vereador lisboeta, apesar de garantir que não há nenhum desalinhamento entre as posições de ambos.

O Observador tentou esclarecer junto do Chega se a investigação a este caso motivou abertura de um processo disciplinar, mas não obteve resposta em tempo útil. Além disso, o Chega também não respondeu se a investigação apenas visa Mafalda Guerra Livermore ou se a ação de Bruno Mascarenhas também é objeto da mesma, por ter indicado o nome da namorada para o cargo municipal.

Sem um prazo para o resultado deste inquérito interno, a expectativa é que Mascarenhas se mantenha no cargo até Ventura decidir tomar posição. “Nestas coisas é o André que toma a decisão. O Conselho de Jurisdição faz os seus relatórios, mandam-lhe e ele decide. Se o Mascarenhas puder, não se vai afastar”, assegura um autarca lisboeta do Chega ao Observador.

Além disso, caso seja retirada a confiança política a Mascarenhas, este pode decidir desfiliar-se do partido e continuar no executivo municipal como independente. Esse cenário seria particularmente negativo para o partido, depois de a segunda vereadora eleita pelo Chega em Lisboa ter rompido com Mascarenhas e ter assumido pelouros, dando a Moedas a maioria absoluta.

Moedas tenta descartar responsabilidades com exoneração

Apesar de o nome de Mafalda Guerra Livermore ter sido sugerido por Bruno Mascarenhas, a nomeação da administração da SSCML é competência exclusiva do presidente da Câmara de Lisboa. Ainda assim, Carlos Moedas tem-se conseguido manter à margem da polémica suscitada pela investigação da RTP que revelou que a militante do Chega é proprietária de vários imóveis que servem de habitação clandestina para imigrantes, inclusivamente em situação ilegal no País. Em reação à reportagem, o líder da autarquia disse que “os lisboetas sabem que neste tipo de situações sempre [atuou] de imediato”. A exoneração foi justificada por “uma quebra de confiança institucional” em Mafalda Guerra Livermore.

No entanto, a nomeação da militante do Chega gerou críticas logo no momento da seu anúncio. Isto porque Carlos Moedas rejeitou que a escolha fosse resultado de uma negociação com Mascarenhas, assegurando que “eventuais questões partidárias ou políticas não tem qualquer relevância” e que “o único critério utilizado nas escolhas realizadas é o da competência”. Ora, além das suspeitas de burla nos casos de arrendamentos de imóveis, o Ministério Público tem duas investigações a decorrer em que Livermore é suspeita de usurpação de funções, por ter alegadamente prestado serviços jurídicos sem ser habilitada.

Ao contrário de Moedas, Mascarenhas trouxe para a discussão a cor política de Mafalda Guerra Livermore, na altura da nomeação, dizendo que “já não há linhas vermelhas às pessoas do Chega, desde que as mesmas tenham qualidades”. Desde que a polémica rebentou, o vereador tem defendido sempre a namorada, considerando inclusivamente que a notícia da RTP é uma “encomenda vergonhosa” resultante de “invejas internas”.

Numa mensagem num grupo de Whatsapp do Chega, a que a Sábado teve acesso, sugere que houve uma motivação política na investigação jornalística: “Nos 3 meses que trabalhou nos serviços sociais os trabalhadores aproximaram-se dela, desabafaram e confiaram-lhe muitos segredos. Corrupção e compadrio. Tornou-se um perigo para os elementos do PS e PSD que por lá gravitam há décadas.” E acrescentou: “Eu próprio irei, em breve e no local próprio, apresentar as provas do que estou a dizer. Para já devemos defender os nossos e confiar na integridade das pessoas. (…) Não há ninguém do Chega que possa aceder a cargos públicos. Houve uma e foi trucidada.”

Por sua vez, o presidente da Câmara não admitiu, até hoje, que a indicação da namorada do vereador do Chega tenha sido resultado de negociação com este último. Desde então, o panorama político em Lisboa alterou-se, com Moedas a conquistar a maioria absoluta no executivo municipal.

O Chega perdeu relevância no xadrez político em Lisboa, mas o antigo comissário europeu poderá precisar de negociar com os deputados municipais desse partido na AML, onde continua sem uma maioria absoluta. Apesar disso, tal como avançou o Diário de Notícias e confirmou o Observador, após o episódio com Livermore, Moedas não irá nomear novamente militantes do Chega para cargos municipais.