Bruno Mascarenhas está sob fogo dentro do próprio partido na sequência das investigações que revelaram alegadas práticas criminosas da sua namorada, Mafalda Guerra Livermore. No sábado, Rita Matias pediu publicamente a demissão do autarca. Esta terça-feira, foram os deputados municipais do próprio partido a apontarem a porta de saída ao vereador.
“O grupo municipal do Chega, deputados e assessores, não se revê nas ações do vereador Bruno Mascarenhas, eleito pelo nosso partido. Nem foi consultado previamente sobre a indicação dos nomes para ocupar qualquer lugar das administrações das empresas municipais”, disse Luís Pereira Nunes, citado pelo semanário Expresso, na reunião da Assembleia Municipal desta terça-feira.
Ao Observador, Luís Pereira Nunes, que é também presidente da concelhia lisboeta do partido, atira a decisão para as mãos de André Ventura. “A confiança política não é retirada pela concelhia. Tenho a minha opinião, mas é um problema da direção.”
O líder da bancada do Chega na Assembleia Municipal de Lisboa (AML) acrescenta que “não gostava de ver o Chega sem nenhum vereador”, mas critica a postura de Mascarenhas neste primeiro mandato. Luís Pereira Nunes distancia-se dos crimes alegadamente praticados pela namorada do vereador do Chega e denuncia o comportamento que este último teve nas negociações com Carlos Moedas.
“Não me revejo minimamente na atitude do vereador de aprovar o Orçamento por lugares.” Aliás, Luís Pereira Nunes afirma que nem a concelhia nem o grupo municipal foram consultados sobre a indicação de Mafalda Guerra Livermore para vogal dos Serviços Sociais da Câmara de Lisboa (SSCML).
O dirigente local do Chega esclarece que, se o Orçamento de Moedas recebeu aprovação do Chega na AML, foi porque os deputados municipais do partido entenderam que “quem venceu as eleições devia governar e fazê-lo à direita”. Segundo este autarca, o acordo entre o presidente da Câmara de Lisboa e Bruno Mascarenhas não pode ter contemplado a aprovação do Orçamento Municipal de 2026, sendo que o documento tem de ser aprovado pela AML e os deputados municipais do Chega nunca o negociaram com Moedas. “Deveria ter havido uma maior interação entre a vereação e o grupo municipal”, lamenta.
Mascarenhas aguarda decisão de Ventura
A contestação interna a Mascarenhas não é recente, mas o verniz estalou definitivamente no sábado com a reação de uma das principais caras do partido ao caso. “A nomeação é ridícula. Sou uma das vozes que também se opôs. Bruno Mascarenhas, se quiser fazer um favor ao partido, demita-se de vereador. Saia e passe o lugar, para ficar alguém que realmente represente o Chega”, pediu Rita Matias. Questionado pelo Observador, Bruno Mascarenhas não respondeu se, após a intervenção da dirigente nacional, vai renunciar ao cargo autárquico ou desfiliar-se do partido.
Ter sido Rita Matias a dar a cara pela oposição interna ao vereador lisboeta não é surpreendente visto que, segundo apurou o Observador, a incompatibilidade entre Mascarenhas e a família Matias não é de agora. Manuel Matias, pai de Rita Matias e vereador em Odemira, foi o único outro nome sonante do partido a pedir o afastamento do autarca, numa publicação nas redes sociais. “Hoje dou um conselho ao Mascarenhas, pede a demissão e sai do Chega. No Chega não há lugar para pessoas como vocês, nem para aqueles que o defendem e protegem. Sinto vergonha alheia.”
Além de ter empurrado Mascarenhas para a saída, o comentário de Rita Matias confirma que não só os dirigentes locais, mas também os dirigentes nacionais, ficaram à margem das negociações para a nomeação de Livermore. Apesar disso, André Ventura tem sido comedido em relação a este caso.
Numa primeira reação, o líder do Chega disse que ia esperar pela “clarificação dos tribunais”, sendo que Mafalda Guerra Livermore acusou a investigação da RTP de se basear em alegações falsas. Além disso, sublinhou que a militante do Chega se demitiu “antes da Câmara de Lisboa tomar alguma decisão” — versão conflituante com a de Carlos Moedas que garante ter sido o responsável pelo afastamento.
Passada uma semana, Ventura avançou, em nova reação, que “há procedimentos internos em marcha e que, depois, serão tornados públicos”. O presidente do Chega garantiu este domingo que, quando recebem denúncias, os “órgãos próprios” do partido fazem “imediatamente as suas investigações independentemente de quem seja [o visado]”. No entanto, Ventura não acompanhou as críticas de Rita Matias ao vereador lisboeta, apesar de garantir que não há nenhum desalinhamento entre as posições de ambos.
O Observador tentou esclarecer junto do Chega se a investigação a este caso motivou abertura de um processo disciplinar, mas não obteve resposta em tempo útil. Além disso, o Chega também não respondeu se a investigação apenas visa Mafalda Guerra Livermore ou se a ação de Bruno Mascarenhas também é objeto da mesma, por ter indicado o nome da namorada para o cargo municipal.
Sem um prazo para o resultado deste inquérito interno, a expectativa é que Mascarenhas se mantenha no cargo até Ventura decidir tomar posição. “Nestas coisas é o André que toma a decisão. O Conselho de Jurisdição faz os seus relatórios, mandam-lhe e ele decide. Se o Mascarenhas puder, não se vai afastar”, assegura um autarca lisboeta do Chega ao Observador.
Além disso, caso seja retirada a confiança política a Mascarenhas, este pode decidir desfiliar-se do partido e continuar no executivo municipal como independente. Esse cenário seria particularmente negativo para o partido, depois de a segunda vereadora eleita pelo Chega em Lisboa ter rompido com Mascarenhas e ter assumido pelouros, dando a Moedas a maioria absoluta.
Moedas tenta descartar responsabilidades com exoneração
Apesar de o nome de Mafalda Guerra Livermore ter sido sugerido por Bruno Mascarenhas, a nomeação da administração da SSCML é competência exclusiva do presidente da Câmara de Lisboa. Ainda assim, Carlos Moedas tem-se conseguido manter à margem da polémica suscitada pela investigação da RTP que revelou que a militante do Chega é proprietária de vários imóveis que servem de habitação clandestina para imigrantes, inclusivamente em situação ilegal no País. Em reação à reportagem, o líder da autarquia disse que “os lisboetas sabem que neste tipo de situações sempre [atuou] de imediato”. A exoneração foi justificada por “uma quebra de confiança institucional” em Mafalda Guerra Livermore.
No entanto, a nomeação da militante do Chega gerou críticas logo no momento da seu anúncio. Isto porque Carlos Moedas rejeitou que a escolha fosse resultado de uma negociação com Mascarenhas, assegurando que “eventuais questões partidárias ou políticas não tem qualquer relevância” e que “o único critério utilizado nas escolhas realizadas é o da competência”. Ora, além das suspeitas de burla nos casos de arrendamentos de imóveis, o Ministério Público tem duas investigações a decorrer em que Livermore é suspeita de usurpação de funções, por ter alegadamente prestado serviços jurídicos sem ser habilitada.
Ao contrário de Moedas, Mascarenhas trouxe para a discussão a cor política de Mafalda Guerra Livermore, na altura da nomeação, dizendo que “já não há linhas vermelhas às pessoas do Chega, desde que as mesmas tenham qualidades”. Desde que a polémica rebentou, o vereador tem defendido sempre a namorada, considerando inclusivamente que a notícia da RTP é uma “encomenda vergonhosa” resultante de “invejas internas”.
Numa mensagem num grupo de Whatsapp do Chega, a que a Sábado teve acesso, sugere que houve uma motivação política na investigação jornalística: “Nos 3 meses que trabalhou nos serviços sociais os trabalhadores aproximaram-se dela, desabafaram e confiaram-lhe muitos segredos. Corrupção e compadrio. Tornou-se um perigo para os elementos do PS e PSD que por lá gravitam há décadas.” E acrescentou: “Eu próprio irei, em breve e no local próprio, apresentar as provas do que estou a dizer. Para já devemos defender os nossos e confiar na integridade das pessoas. (…) Não há ninguém do Chega que possa aceder a cargos públicos. Houve uma e foi trucidada.”
Por sua vez, o presidente da Câmara não admitiu, até hoje, que a indicação da namorada do vereador do Chega tenha sido resultado de negociação com este último. Desde então, o panorama político em Lisboa alterou-se, com Moedas a conquistar a maioria absoluta no executivo municipal.
O Chega perdeu relevância no xadrez político em Lisboa, mas o antigo comissário europeu poderá precisar de negociar com os deputados municipais desse partido na AML, onde continua sem uma maioria absoluta. Apesar disso, tal como avançou o Diário de Notícias e confirmou o Observador, após o episódio com Livermore, Moedas não irá nomear novamente militantes do Chega para cargos municipais.