Os 39 quilómetros de água que separam as duas margens das costas de Irão e Omã no Estreito de Ormuz tornaram-se a pior dor de cabeça de Donald Trump na última semana. O bloqueio imposto por Teerão à passagem de embarcações de EUA, Israel e seus aliados praticamente anulou a circulação marítima da qual depende entre 20 a 25% do petróleo mundial. O preço do barril disparou acima dos 100 dólares, o custo de vida das pessoas começa a sofrer os primeiros impactos negativos e a ausência de soluções do Presidente norte-americano coloca em causa a sua operação “Fúria Épica”.
Se é certo que Washington e Telavive conseguiram eliminar o líder supremo Ali Khamenei e uma parte significativa dos comandos de topo do regime iraniano desde 28 de fevereiro, o garrote instalado por Teerão no Estreito de Ormuz parece ter apanhado de surpresa os EUA. E, agora, não há nenhuma solução ideal para resolver o problema, que está a sair caro à economia mundial, ainda que o líder da Casa Branca anuncie num dia que a “guerra vai terminar em breve” e no outro garanta que o Irão quer um acordo, mas que “os termos não são suficientemente bons” para parar já o conflito.
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Donald Trump lançou na última semana a ideia de a Marinha norte-americana poder avançar com escoltas navais à circulação dos petroleiros. Sem grande convicção, acabaria por recuar para já nesse plano. Ato contínuo, começou a pressionar vários países para deslocarem meios navais militares para a zona que separa o Golfo Pérsico do Mar Arábico. Primeiro, visou China, Japão, Coreia do Sul, Reino Unido e França; depois, alargou a mensagem a “todos os países do mundo que recebem petróleo através do Estreito de Ormuz”; por último, ameaçou os aliados da NATO com um “futuro muito mau”, caso não venham em auxílio dos EUA.
Em diferentes idiomas, o Presidente norte-americano só tem recebido uma resposta ao envio de meios militares: não. Alguns países assumem estar a estudar opções de normalização da circulação naval, outros apontam para a diplomacia, nenhum se compromete face aos riscos. Da colocação de embarcações nacionais ao alcance de mísseis e drones do Irão à navegação por águas potencialmente minadas ao longo dos últimos dias, passando pela lentidão da tarefa de desminagem ou a aplicação de meios nunca antes testados em contexto de guerra, os EUA enfrentam agora águas desconhecidas.
Os riscos militares de prolongar o conflito
Declarar uma vitória ‘limitada’ e retirar ou continuar o conflito em nome dos objetivos que tinha traçado para o Irão? O dilema coloca-se agora perante Donald Trump com o estrangulamento do Estreito de Ormuz. EUA e Israel queriam eliminar a ameaça regional (e mundial), anular quaisquer planos de desenvolvimento de uma arma nuclear e forçar o fim do regime em Teerão. Porém, a morte de Ali Khamenei não se traduziu no fim da República Islâmica, com o filho Mojtaba Khamenei a subir ao cargo de Líder Supremo.
E sobre a capacidade de Teerão continuar a ameaçar Israel — e a própria estabilidade no Médio Oriente — ou o desenvolvimento das suas potencialidades nucleares, talvez ainda seja cedo para ter uma resposta inequívoca. Afinal, mesmo fortemente atingido e debilitado, o regime iraniano conseguiu alargar os ataques a vários países com bases ou posições aliadas dos EUA.
Reforçar os meios norte-americanos imediatamente no Estreito de Ormuz, com vista à segurança e proteção dos petroleiros e de outras embarcações, colocará esses mesmos meios ao alcance dos mísseis antinavio iranianos. Ou seja, irá acrescentar uma nova dimensão a um conflito essencialmente travado nos céus e que já fez mais de dois mil mortos na região.

Segundo a Bloomberg, e embora não seja conhecida a extensão do arsenal iraniano, Teerão terá pelo menos seis tipos destes mísseis, de acordo com dados do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos. Fora do Estreito de Ormuz, as embarcações da Marinha norte-americana deverão estar a salvo, já que a maioria destes mísseis iranianos têm um alcance máximo de cerca de 120 quilómetros (75 milhas). Contudo, tal raio de ação é mais do que suficiente para ser uma ameaça efetiva na curta passagem entre Irão e Omã.
Em paralelo, a concentração de mais recursos humanos, quando já estão cerca de 50 mil elementos no Médio Oriente, arrisca colocar em perigo mais vidas norte-americanas. Já morreram 13 membros das forças armadas dos EUA e em Teerão acredita-se que o tempo joga a seu favor. Quanto mais tempo durar o conflito, mais dispendiosa e impopular se tornará a operação de Washington, até entre a fação de apoio MAGA (fortemente leal a Trump) e os republicanos.
Por outro lado, uma tentativa de Washington forçar a retoma da circulação das embarcações sem garantias de segurança é uma ideia de execução altamente improvável. Não só pelos riscos económicos associados, mas porque nenhuma companhia quer colocar em causa a segurança das tripulações, lançando as embarcações com os mísseis ou drones iranianos preparados para disparar. Mesmo que Trump tenha já declarado que os EUA dizimaram a capacidade ofensiva iraniana.
“O Irão possui um arsenal de mísseis antinavio bastante robusto. Se o tráfego marítimo fosse retomado, estes mísseis tornar-se-iam um desafio ainda maior”, garante Sid Kaushal, um investigador sénior do Royal United Services Institute, do Reino Unido, citado pela Bloomberg. E esse não é o único risco nas águas do Estreito de Ormuz.
Uma ameaça de 5.000 minas marítimas
Os ataques dos EUA e de Israel desde 28 de fevereiro terão destruído grande parte da Marinha da República Islâmica, mas a Marinha do Corpo da Guarda Revolucionária, cujo funcionamento é autónomo, terá ainda capacidades para ser uma ameaça. Há muito que esta área da Guarda Revolucionária tem desenvolvido esforços e uma preparação para um cenário de bloqueio no Estreito de Ormuz.
De acordo com a revista Foreign Affairs, a aposta iraniana passa por uma combinação de mísseis, drones, submersíveis, lanchas rápidas, embarcações de superfície não tripuladas e minas. Alegadamente, 5.000 minas marítimas, segundo dados citados na imprensa internacional. Isoladamente, os mísseis ou os drones já foram suficientes para criar um clima de medo e efetivamente travar a circulação pelo Estreito de Ormuz; a sua associação às restantes valências e, sobretudo, às minas pode arrastar no tempo o atual bloqueio.
Esses riscos estarão, aliás, na base das reticências da Casa Branca em avançar com escoltas navais norte-americanas à passagem das embarcações, após uma sinalização inicial nesse sentido. Com efeito, Washington procura agora por todos os meios envolver os meios de outros países e, assim, mitigar os riscos. Não é preciso recuar muito no tempo para se encontrar uma operação similar; entre dezembro de 2023 e meados de 2025, EUA, Reino Unido e França empenharam-se na proteção da passagem de embarcações no Mar Vermelho face à ameaça dos houthis. Todavia, os aliados iranianos do Iémen não tinham os meios que Teerão tem ao seu dispor para ser uma ameaça maior.
Desconhece-se se o Irão conseguiu colocar minas marítimas durante as últimas duas semanas na passagem entre o Golfo Pérsico e o Mar Arábico, bem como os meios de lançamento destes dispositivos na água. O Pentágono anunciou já a destruição de 16 navios iranianos de colocação de minas desde o início da guerra, embora Teerão continue a ter alguns meios para levar a cabo uma eventual missão de colocação de minas. O Telegraph revela também que o Irão terá pré-posicionado os seus arsenais de minas, a fim de serem lançadas através de lanchas rápidas ou por intermédio de mísseis.
A seu favor o Irão tem ainda a experiência do passado, já que no final dos anos 80, durante a guerra com o Iraque, colocou muitas minas nas águas do Golfo Pérsico para atacar navios iraquianos. Os EUA até já sabem os riscos e os custos de enfrentar um mar minado. Foi assim da guerra da Coreia até à Guerra no Vietname, passando pela Guerra do Golfo, em que o Iraque lançou cerca de 1.000 minas ao largo da costa do Kuwait para dissuadir uma aproximação das tropas norte-americanas.
Duas dessas minas explodiram mesmo, atingindo navios de guerra norte-americanos, mas sem provocar o seu naufrágio. Em 1987, os EUA mobilizaram embarcações militares para proteger os petroleiros, mas não estavam então envolvidos no conflito.
A solução para contrapor a este desafio traz também novos riscos: mobilizar meios para uma eventual desminagem implica a sua vulnerabilidade por um longo período de tempo. A remoção de minas marítimas (ou submarinas) é considerada uma tarefa morosa e perigosa, pois acarreta enviar embarcações de guerra e helicópteros para o Estreito de Ormuz e essa possibilidade constitui uma armadilha que Teerão estará a lançar aos EUA.
Meios não testados em tempo de guerra
No final do ano passado, a Marinha dos EUA retirou do Golfo Pérsico as embarcações Avenger, especializadas na remoção de minas, com vista à sua substituição por novos e mais modernos meios. Entre estes contam-se veículos subaquáticos não tripulados e navios de combate litoral, aliados a novos sistemas de deteção e radar e a helicópteros especializados, mas a sua mobilização significa um problema: nunca foram testados em pleno período de combate.
Estão já no Médio Oriente três destas novas embarcações militares: o USS Canberra, o USS Tulsa e o USS Santa Barbara. Contudo, a sua colocação no Estreito de Ormuz para executar uma missão de desminagem poderia levar a perdas maiores entre os EUA.
Consequentemente, Washington e Telavive poderiam responder com um intensificar dos bombardeamentos e ataques aéreos, com vista a garantir a segurança. No entanto, ao fim de duas semanas e já com a mudança na liderança do regime e um ataque pesado à Ilha de Kharg — coração da indústria petrolífera iraniana —, poderão começar a escassear os alvos sobre os quais os EUA possam colocar Teerão sob pressão. Pelo menos ao ponto de “rendição incondicional”, como chegou a pedir Donald Trump.

O envio destes meios pode, paradoxalmente, ser mais arriscado do que para os próprios petroleiros, já que estes estão compartimentados e podem resistir mais eficazmente ao impacto de uma mina marítima do que os navios militares.
“A remoção de minas é sempre um processo lento e difícil; fazê-lo durante uma guerra em pleno andamento, enquanto se enfrenta ameaças de mísseis de cruzeiro antinavio lançados a partir de terra, drones e outros meios navais iranianos, seria extremamente perigoso”, refere Caitlin Talmadge, professora de ciências políticas e especialista em segurança no MIT, citada pelo Telegraph.
Visão similar tem Charles Kupchan, investigador sénior do Conselho de Relações Externas, em declarações à estação Al Jazeera: “Uma das tarefas navais mais difíceis é a remoção de minas. Os iranianos poderão disparar contra navios a partir da sua costa. Podem utilizar submersíveis, podem utilizar drones navais, do tipo que vimos na Ucrânia, que se revelaram bastante eficazes contra os russos… Esta é uma guerra bastante impopular entre os aliados europeus. Ninguém quer envolver-se.”
Como poderia uma escolta naval ocorrer e qual a razão para o ‘não’ dos aliados a Trump?
A mobilização de navios de guerra para proteger uma embarcação (ou várias) ao longo do Estreito de Ormuz face aos possíveis ataques iranianos poderia, sustenta a ABC News, ser realizada através de contratorpedeiros da classe Arleigh Burke, simultaneamente preparados com meios de defesa aérea e de resposta a mísseis antinavio disparados desde a costa.
Na região do Mar Arábico, ao largo da costa oriental de Omã, encontram-se já oito contratorpedeiros, que acompanham o USS Abraham Lincoln. São o USS Michael Murphy, o USS Mitscher, o USS Pinckney, o USS Delbert D. Black, o USS McFaul, o USS Spruance, o USS Frank E. Petersen e o USS John Finn, que poderiam avançar para assegurar uma passagem tranquila dos petroleiros e outros navios comerciais pelo Estreito de Ormuz.
Desde o início do conflito, no dia 28 de fevereiro, já foram relatados quase duas dezenas de ataques a embarcações junto da costa iraniana. Apesar disso, Teerão garante que o Estreito de Ormuz “não foi bloqueado”, mas, nas palavras de Alireza Tangsiri, comandante naval da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), colocado “apenas sob controlo” iraniano.
Por sua vez, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, destacou que a passagem está aberta à navegação internacional, menos para quaisquer embarcações norte-americanas, israelitas ou dos seus aliados. “O Estreito de Ormuz está aberto. Está fechado apenas aos petroleiros e navios pertencentes aos nossos inimigos, àqueles que nos atacam e aos seus aliados. Os demais são livres de passar”, vincou.
O efeito, todavia, estendeu-se a quase todas as embarcações, que não se mostraram disponíveis para fazer a travessia sem dispor de um acordo com Teerão. Foi isso que alguns Estados procuraram acertar-se diretamente com o regime iraniano, como foi o caso da Índia, dependente do abastecimento de gás que passa pelo Estreito de Ormuz, que estabeleceu um acordo para a passagem de duas embarcações na última semana.
Diante do atual impasse e condicionado pelo forte impacto negativo na economia, Donald Trump tentou angariar a participação de outros estados: quer aliados, quer até países que não se enquadrariam nesta definição, como a China. Contudo, todos os Estados europeus — incluindo Portugal — que já se pronunciaram fizeram-no apenas para rejeitar o envolvimento. O Reino Unido, por exemplo, já lembrou que “esta não é uma missão da NATO” e que, mesmo sendo um tradicional parceiro dos EUA em missões internacionais, não será arrastado para um conflito alargado no Irão.
A perceção é clara: não só os EUA se desviaram da aliança histórica com a Europa neste segundo mandato de Trump, como um conflito no Irão é associado a mais danos do que benefícios, além de retirar o foco da guerra entre a Ucrânia e a Rússia. E nenhum dos líderes europeus quer ver Vladimir Putin sair a ganhar com uma nova distração no Irão.
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