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O Ocidente não nasceu tolerante

Os valores que hoje consideramos centrais, liberdade religiosa, pluralismo, dignidade humana, não são heranças automáticas da história, mas conquistas morais duramente aprendidas.

Nuno Nabais Freire
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Existe uma ideia muito repetida no debate contemporâneo: a de que a tolerância religiosa é um valor intrínseco da civilização ocidental. Como se a Europa tivesse nascido pluralista e iluminada, naturalmente aberta à diversidade de crenças.

A história diz-nos outra coisa.

Aquilo a que hoje chamamos “civilização ocidental” nasceu num mundo profundamente religioso e profundamente violento. Durante grande parte da Antiguidade, o Mediterrâneo era dominado por universos pagãos, sistemas politeístas complexos como os do Egipto, da Grécia e de Roma, onde múltiplos deuses coexistiam sem exigir exclusividade absoluta.

O monoteísmo introduziu algo radicalmente novo na história religiosa: a ideia de verdade única.

O judaísmo foi o primeiro grande sistema religioso a afirmar essa exclusividade. Contudo, vários estudos históricos sugerem que o judaísmo primitivo passou por uma fase henoteísta, reconhecendo um deus supremo sem necessariamente negar a existência de outros. Foi a partir desta tradição que nasceriam duas outras grandes religiões abraâmicas: o cristianismo e o islão.

Todas partilharam a mesma raiz geográfica no Médio Oriente.

Mas foi o cristianismo que acabou por moldar a identidade política e cultural da Europa.

A partir do momento em que o cristianismo se tornou religião dominante do Império Romano, no século IV, deixou de ser apenas uma fé. Tornou-se também um elemento de definição civilizacional. Ser europeu passou gradualmente a significar pertencer a uma comunidade religiosa específica.

Tudo o que escapava a essa definição tornava-se suspeito.

Durante séculos, a Europa viveu sob a tensão da exclusão. A história do continente está marcada por expulsões e episódios de violência coletiva contra comunidades judaicas, os chamados pogroms, que atravessaram diferentes épocas e geografias.

Mais tarde, a própria cristandade partiu-se ao meio. No século XVII, as Guerras de Religião transformaram a Europa num campo de extermínio entre católicos e protestantes. A tolerância não nasceu aí por bondade ou iluminação súbita; nasceu por exaustão. Foi uma “trégua armada”. A Europa teve de escolher entre tolerar a diferença ou o suicídio coletivo.

O Iluminismo, no século XVIII, começou a desenhar no papel os valores que o mundo ainda não sabia praticar. Filósofos como Locke e Voltaire ergueram o andaime intelectual da liberdade de consciência, mas a estrutura ainda era frágil.

A rutura profunda só ocorreu no século XX.

Depois do horror absoluto do Holocausto, a industrialização final do ódio que já vinha a ser cozinhado há milénios, a Europa foi obrigada a confrontar-se com o seu próprio espelho. O Holocausto foi o verdadeiro “pogrom dos pogroms”, o ponto onde o progresso técnico se encontrou com o vazio ético.

A tolerância religiosa, tal como hoje a entendemos, não é uma herança natural. Foi uma construção ética e política que emergiu das cinzas de uma das maiores tragédias da história humana.

Isso não diminui o valor desses princípios.

Pelo contrário.

Mostra que os valores que hoje consideramos centrais, liberdade religiosa, pluralismo, dignidade humana, não são heranças automáticas da história, mas conquistas morais duramente aprendidas na escola da violência.

Talvez por isso valha a pena lembrar uma verdade incómoda: a civilização ocidental não nasceu tolerante.

Tornou-se tolerante.

E como qualquer conquista humana, essa transformação nunca está completamente garantida. A tolerância não é um estado de repouso, é um esforço de vigília.
No fundo, o que esta trajetória nos ensina é que os nossos “valores universais” raramente são descobertas metafísicas de uma verdade superior. São, antes, adaptações psicológicas à nossa própria capacidade de destruição.

Pensar a tolerância de forma metafilosófica obriga-nos a admitir um paradoxo desconfortável: a ideia de “Verdade Única” (que outrora justificou a fogueira) continua presente na nossa estrutura mental. A tolerância não apagou essa pretensão de verdade, apenas a domesticou através da lei e da memória do horror.

Se deixarmos de questionar o porquê de sermos tolerantes, se passarmos a ver a tolerância como algo “natural” e não como uma construção contra-intuitiva, corremos o risco de esquecer que ela é o único espaço vazio onde a convivência é possível. A filosofia não serve aqui para encontrar uma resposta final, mas para nos manter conscientes de que a civilização é, essencialmente, o exercício constante de não agirmos de acordo com os nossos instintos mais absolutos.

P.S. Para os que preferem a exatidão das formas:

Poderíamos resumir a evolução da nossa civilização através da seguinte função de Tolerância (T):

T=t∮Mh(t)∑|Va|dt

Onde:

Mh  (Memória Histórica): O peso acumulado do trauma e do reconhecimento do horror.
∑∣Va ∣ (Soma das Verdades Absolutas): A força dos vetores de dogmatismo que tentam reduzir a diversidade a zero.
t (Tempo): O fator de amadurecimento necessário para que a “trégua” se torne cultura.

A equação sugere que a tolerância não é um valor estático, mas um limite que tentamos alcançar à medida que a memória do que fomos (o horror) consegue finalmente dividir e conter o peso das nossas certezas absolutas. Se a memória falha, o denominador cresce e a civilização colapsa.