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Pequenos gestos, grande impacto

Ao preencher a sua declaração de IRS, vale a pena lembrar que pequenos gestos podem fazer muita diferença na vida de muitas pessoas.

Salvador Mendes de Almeida
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A consignação do IRS é uma medida fiscal que permite aos contribuintes destinarem uma parte do imposto que pagam ao Estado a favor de entidades de interesse social. De acordo com um estudo da Netsonda, de 2024, apenas 50% dos contribuintes consignam o seu IRS de forma regular, ainda que mais de metade (93%) conheça esta possibilidade. Por outro lado, são ainda muitos os que desconhecem que esta prática não implica qualquer custo adicional para o contribuinte (27%, segundo o mesmo estudo).

Quando consignamos 1% do nosso IRS a uma instituição social, não estamos a dar dinheiro do nosso bolso. Estamos apenas a decidir o destino de uma parte do imposto que já iríamos pagar ao Estado. Este é um gesto simples e gratuito para o contribuinte, mas que tem um impacto profundo e concreto para as Associações, para os seus beneficiários e para as causas que apoiam.

Por exemplo, em Portugal, milhares de pessoas com deficiência enfrentam vários obstáculos. Diariamente, somos confrontados com escadas onde deveriam existir rampas, passeios intransitáveis, portas que não abrem, oportunidades de emprego que não chegam, preconceitos que teimam em persistir. Por isso, entristece-me ver oportunidades de financiamento desperdiçadas e intervenções urbanas que continuam a excluir. Melhorar a acessibilidade não é um favor, nem um custo extra.

Além disso, Portugal é o terceiro país mais envelhecido da Europa. As projeções indicam que, dentro de 10 anos, cerca de um terço da população terá mais de 65 anos, um grupo etário onde a probabilidade de mobilidade condicionada aumenta de forma significativa. Nesse sentido, é, mais importante do que nunca, repensar as cidades e projetá-las para todos.

Conheço bem esta realidade: onde, infelizmente, ainda existem muitos lugares inacessíveis, marcados por obstáculos que impedem a circulação. Digo isto não apenas como cidadão atento, mas como alguém que vive com deficiência motora desde os 16 anos. Conheço também a outra face desta história: a da mudança possível e concreta. A da transformação que acontece quando existem oportunidades e uma sociedade mais consciente.

Ao longo destas duas décadas, através da Associação Salvador, acompanhámos milhares de pessoas e vimos nascer projetos de vida onde antes havia isolamento. Vimos a confiança substituir o medo, a independência ganhar espaço e o talento emergir onde antes existiam barreiras. Mas aprendemos também uma verdade essencial: este trabalho só é possível com o envolvimento de todos.

É aqui que a consignação do IRS pode fazer a diferença. Na Associação Salvador, a consignação do IRS ganha forma em projetos de desporto adaptado, apoio à empregabilidade, formação e oportunidades reais para pessoas com deficiência motora. Mas transforma-se, acima de tudo, em mais autonomia para cidadãos que ambicionam ter aquilo que todos desejamos: viver com dignidade.

Desde 2003, já integrámos mais de 550 pessoas no mercado de trabalho, e só não fomos mais longe por falta de acessibilidades. Acompanhámos regularmente cerca de 200 atletas com deficiência, que conquistaram perto de 50 pódios anuais, embora muitas pessoas continuem afastadas do desporto pelas mesmas barreiras. Ao nível da sensibilização, estivemos presentes na maioria das autarquias do país e nas escolas desses municípios, envolvendo mais de 180 mil alunos em mais de mil iniciativas.

Por isso, este ano, ao preencher a sua declaração de IRS, vale a pena lembrar que pequenos gestos podem, de facto, fazer a diferença na vida das pessoas. Estes contributos podem ajudar a construir um país onde a deficiência não seja sinónimo de exclusão, mas apenas mais uma expressão da diversidade humana.