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Cibersegurança: o parente pobre no mundo da tecnologia?  

Apesar da sua inegável importância, continuará a Cibersegurança a ser  subvalorizada porque é cara e difícil ou trata-se apenas de uma questão de cultura  organizacional?  

Inês Gomes
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O conceito de cibersegurança ganhou relevância no início dos anos 2000, como  consequência do crescimento da Internet, adoção em massa de computadores e  digitalização de dados em ambientes organizativos, empresariais e pessoais. Os  últimos 25 anos marcam a expansão massiva da utilização da Internet – que passou de  uma estrutura limitada a um serviço essencial obrigatório -, o aparecimento e  utilização de redes sociais e chats de mensagens instantâneas e a popularização dos  smartphones, cloud, análises de dados avançadas e automação de processos através  da utilização da IA. Se por um lado, esta evolução tecnológica trouxe ao nosso dia-a dia mais flexibilidade, maior acesso à informação e aumento de produtividade,  acarreta também uma exposição inédita a ciberataques, tentativas de fraude e  exploração da nossa privacidade.

Em 2024, último ano com dados consolidados pelo Centro Nacional de  Cibersegurança (CNCS), foi registado o maior número de incidentes em Portugal, um  aumento de 36% face ao ano anterior (2023). Este crescimento é alarmante.

Mas foquemo-nos no seguinte dado: segundo o Relatório de Ciberpreparação da  Hiscox 2025, “54% das Pequenas e Médias Empresas (PME) em Portugal sofreram pelo  menos um ataque no último ano”. Destas, mais de metade “registou entre 1 a 10  incidentes”. A verdade é uma: muitas PMEs não investem em cibersegurança de forma  proativa por acreditarem que não são um alvo suficientemente aliciante e apetecível  para a exploração de atividade maliciosa. No entanto, esta falsa sensação de  segurança leva a que muitas destas organizações sejam usadas como porta de entrada  para grandes ataques – e este princípio aplica-se a qualquer escala. Exemplo disto foi  o caso da cadeia de abastecimento da empresa americana de IT SolarWinds que, não  sendo o alvo final, foi a empresa utilizada por hackers russos (grupo Nobelium) para  aceder a outras empresas e agências governamentais (como Departamento de Estado  dos EUA e Departamento de Segurança Interna) ou grandes tecnológicas como a Cisco  Systems e a Intel. Se esta gigante empresa de software americana serviu para  comprometer outros tantos gigantes, o que aconteceria com uma empresa menos  resiliente?

Além da ideia generalizada de que uma PME pode não ser o alvo mais procurado,  também enfrentamos grandes desafios de sensibilização e cultura: em muitas  organizações, especialmente de menor dimensão, os profissionais de IT ainda lutam  pela justificação de valor de investimento a aplicar em cibersegurança e segurança da  informação. O foco dos decisores prende-se essencialmente aos resultados financeiros a curto prazo, e menospreza os riscos estruturais a que podem estar  sujeitos. Esta barreira entre perfis técnicos e não técnicos, aliada a um certo  desequilíbrio de poder entre departamentos técnicos e não técnicos, é um cenário que  está longe de ser ultrapassado em Portugal. Novas legislações, como o Decreto-Lei n.º  125/2025, responsável por garantir um elevado nível comum de cibersegurança em  toda a União Europeia, são responsáveis por alterar este paradigma, e 2025 trouxe um  grande pico no número de adjudicações para serviços de cibersegurança em Portugal .  No entanto, porque é que este comportamento só se altera quando existe  obrigatoriedade e responsabilização legal ou quando já é tarde demais e estamos  perante um cenário de crise? Trata-se de um comportamento de resistência interna  ou “apenas” despreocupação involuntária?

Fatores como falta de profissionais especializados, escassez de recursos, pouca  compreensão do risco, programas de formação limitados, foco em resultados  imediatos, orçamento limitado ou atribuição da responsabilização para a área de IT  representam exemplos práticos de subvalorização da Cibersegurança, tornando-a o  parente pobre nas estratégias digitais das organizações. Não cuidar da informação e  sistemas, seja por motivos de resistência, seja numa vertente cultural, provoca igual  impacto: direta ou indiretamente, estamos a comprometer o nosso ciberespaço e,
com ele, a sustentabilidade do nosso negócio.

O Observador associa-se à comunidade PortugueseWomeninTech para dar voz às mulheres que compõe o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.