Apenas 55% dos adultos portugueses costumam poupar e, desses, mais de metade (60%) não tira qualquer rentabilidade dessa poupança – já que o dinheiro fica “parado” em contas à ordem ou, então, existe na forma de numerário que as pessoas conservam, por exemplo, em casa. Esta é uma das conclusões de um estudo sobre literacia financeira que foi divulgado nesta segunda-feira pelo Banco de Portugal, numa altura em que existe na Europa um movimento – cujo rosto é a comissária europeia Maria Luís Albuquerque – para aumentar o nível de investimento entre os europeus, a pensar no financiamento da economia europeia e nas pensões de reforma de cada um.
O estudo faz parte do Boletim Económico de Março, que o Banco de Portugal vai divulgar na próxima semana, mas foi apresentado antecipadamente nesta segunda-feira. A base de trabalho, usada pelo Departamento de Estudos Económicos, foi um estudo de opinião internacional realizado em 2023, que procurou analisar os níveis de literacia financeira dos cidadãos europeus.
Esse estudo revelou que, em Portugal, cerca 45% dos portugueses não fez qualquer poupança no ano anterior àquele em que o estudo foi realizado. Entre os restantes 55%, aproximadamente, praticamente 60% não aplicou aquilo que poupou, ou seja, manteve o dinheiro na conta à ordem ou em numerário).
Ou seja, menos de uma em cada três pessoas fez algum tipo de aplicação, sendo que 33% dos que pouparam aplicaram esse dinheiro em instrumentos de baixo risco como depósitos ou certificados de aforro, que frequentemente têm um rendimento real (após inflação) negativo. Apenas 7,3% dos inquiridos fizeram algum tipo de investimento com maior risco mas, potencialmente, com retorno maior, como ações ou fundos de investimento.
Este padrão de comportamento reflete prudência, mas pode traduzir limitações no conhecimento financeiro e na compreensão das caraterísticas dos diferentes instrumentos de poupança e investimento”, afirma o estudo.

“A literacia financeira não se limita ao domínio de conceitos financeiros básicos“, afirma o Banco de Portugal no estudo, acrescentando que ela “abrange igualmente a capacidade de interpretar informação económica, realizar escolhas informadas no que respeita à contratação de crédito e seguros e ao planeamento financeiro, bem como a adoção de hábitos de prudência e de uma perspetiva de longo prazo na gestão do dinheiro”.
Além de fazer o retrato da realidade portuguesa, este estudo procurou estabelecer comparações entre os diferentes países – onde se revelou que os portugueses têm uma avaliação global da literacia financeira que é próxima da média da área do euro, mas é pior no domínio de conceitos financeiros básicos. “A Alemanha destaca-se com a pontuação média mais elevada (76%), situando-se 13 pontos percentuais acima da média da área do euro”, ao passo que, “no extremo oposto situa-se a Itália, com uma pontuação de 53,3%, 10 pontos percentuais abaixo da média”.
“Portugal regista uma pontuação de 63,4%, em linha com a média da área do euro”, refere o Banco de Portugal, notando, no entanto, que uma conclusão concreta é que apenas 13% dos entrevistados responderam corretamente a sete questões de conhecimento financeiro simples. Essa foi a conclusão do inquérito de 2023, o International Survey of Adult Financial Literacy, que abrangeu 1.510 indivíduos.
A média na zona euro foi de 17,9% que responderam acertadamente às questões que envolviam cálculo simples de juros e perguntas sobre o que é a inflação, entre outras.

Portugal “apresenta um desempenho acima da média nos comportamentos, que incluem hábitos de poupança, orçamento e controlo das despesas, e nas atitudes, medidas pela valorização da poupança e orientação para o longo prazo”, salienta o supervisor financeiro. Porém, “pelo contrário, Portugal apresenta um desempenho abaixo da média na componente do conhecimento financeiro”.
Mais de metade dos inquiridos não compreende que geralmente é possível reduzir o risco de investimento no mercado de capitais se for adquirido um conjunto diversificado de ações. Embora quase todos os entrevistados em Portugal (92%) reconheçam que, se emprestarem dinheiro e lhes for devolvida a mesma quantia, isso implica que os juros pagos são nulos, apenas 40% acertaram no saldo, ao final de um ano, de um depósito a prazo de 100 euros com taxa de juro anual de 2% (na ausência de cobrança de comissões e impostos). A percentagem de indivíduos que acertam esta questão e também reconhecem que, se mantiverem o dinheiro e os juros recebidos neste depósito por cinco anos ele terá mais de 110 euros, desce para 25%”, pode ler-se no relatório.
O Banco de Portugal acrescenta que, “no que respeita ao género, os homens apresentam, em média, um nível de conhecimento financeiro superior ao das mulheres (64,9% face a 56,8%)”. Porém, “a análise por grupo etário revela que os níveis mais elevados de conhecimento financeiro se observam nos indivíduos entre os 30 e os 59 anos, período em que se concentram tipicamente as decisões financeiras mais determinantes”.
“Os níveis mais baixos são registados entre os mais jovens e, sobretudo, entre os indivíduos com 60 ou mais anos”, diz o relatório, acrescentando que, “no caso dos mais velhos, parte do diferencial está associado a um menor nível de escolaridade”.
76% dos mais jovens (com 15 anos) já fizeram compras online
O Banco de Portugal acrescenta, no mesmo relatório, que os mais jovens já têm um acesso a instrumentos financeiros modernos. Essa conclusão foi tirada com base nos dados do PISA 2022, um relatório da OCDE que tenta avaliar e comparar o desempenho escolar das crianças nos diferentes países.
Essa parte do estudo do Banco de Portugal é uma avaliação da literacia financeira dos jovens que “assume particular relevância num contexto em que uma proporção significativa dos estudantes já tem acesso e utiliza instrumentos financeiros no seu quotidiano”.

“De acordo com o módulo de literacia financeira do PISA 2022, 38,1% dos jovens de 15 anos em Portugal detêm uma conta bancária, 27,3% possuem um cartão de pagamento e 18,7% utilizam uma aplicação financeira no telemóvel”, pode ler-se no estudo.
Além do acesso, “a utilização efetiva destes instrumentos é também expressiva”, diz o Banco de Portugal. “No ano anterior ao do inquérito, 59,6% dos estudantes efetuaram pagamentos com cartão, 33% enviaram dinheiro através do telemóvel, 76% realizaram compras online e 55,1% efetuaram pagamentos recorrendo a aplicações móveis”.
“Estes resultados indicam que uma parte substancial dos jovens já interage com meios de pagamento digitais e toma decisões financeiras de forma autónoma, ficando também exposta a situações de fraude”, refere-se no estudo do Banco de Portugal.