Os resultados da primeira volta das eleições autárquicas em França, que se realizou este domingo, mostram um país dividido, com subidas significativas nos dois extremos do espectro político e um enfraquecimento do campo político do Presidente, Emmanuel Macron, e dos partidos tradicionais. A um ano do fim do mandato de Macron, o complexo equilíbrio de alianças para a segunda volta será uma importante chave de leitura para a campanha presidencial do próximo ano.
Na primeira volta, foi possível eleger o presidente da câmara de mais de 90% dos municípios franceses — maioritariamente povoações mais pequenas, onde o candidato vencedor conseguiu obter mais de 50% dos votos —, mas cerca de metade da população francesa ainda vai ter de votar novamente no próximo domingo, pois em praticamente todas as grandes cidades ainda será necessária uma segunda volta.
No sistema francês, passam à segunda volta todas as candidaturas que tenham obtido pelo menos 10% dos votos. Além disso, candidaturas que tenham obtido pelo menos 5% dos votos podem coligar-se com outras listas que se tenham qualificado. Os partidos têm até às 18h de terça-feira para formalizar as listas à segunda volta. E é aqui, como explica o Le Figaro, que reside a principal questão, sobretudo à esquerda: a considerável subida da França Insubmissa (LFI), que se qualificou para a segunda volta na maioria das grandes cidades, pode ser a única hipótese da esquerda para bloquear uma vitória da Frente Nacional, de Jordan Bardella, sobretudo nas cidades mediterrâneas, onde a extrema-direita conseguiu os melhores resultados.
Se, num primeiro momento, o Partido Socialista tinha, a nível nacional, dito que não entraria em coligações nacionais com a esquerda radical de Jean-Luc Melénchon — que os socialistas acusam de promover um clima de conflitualidade política —, esta segunda-feira já havia notícia de um acordo entre o PS e a LFI para a segunda volta em Toulouse.
Melénchon, que deverá voltar a candidatar-se à Presidência da República no próximo ano, quer aproveitar as eleições autárquicas para reforçar a implantação local da LFI — e para consolidar a importância do seu bloco no plano político nacional.
Tanto a LFI como a Frente Nacional, que historicamente têm tido uma franca implantação autárquica, conseguiram resultados fortes em algumas cidades. O caso de Marselha, a segunda maior cidade francesa, é um bom exemplo desta realidade: o candidato da Frente Nacional, Franck Allisio, ficou numa situação de empate com o atual autarca, Benoît Payan, de uma coligação de esquerda que inclui o PS e os Verdes, em torno dos 35%. A segunda volta vai agora ser particularmente disputada — e a chave pode estar nas mãos da LFI, que ficou com cerca de 12%. Tudo dependerá da vontade da coligação da esquerda tradicional para se juntar à LFI ou não.
O desafio por parte da esquerda ao Partido Socialista, que lidera várias das grandes cidades francesas, coloca-se em vários outros pontos do país, incluindo em cidades como Toulouse e Limoges, onde a LFI ficou até à frente dos socialistas, em Roubaix, onde o candidato da LFI ficou quase nos 50%, e em Saint-Denis, onde o partido da esquerda radical ganhou a autarquia à primeira volta. Como escreve o Le Figaro, a pressão sobre a direita tradicional é muito menor, uma vez que os Republicanos já não têm autarcas em cidades com mais de 200 mil habitantes à exceção de Toulouse, onde tudo indica que a autarquia vai passar para a esquerda.
Jean-Luc Mélenchon classificou o resultado como um “avanço magnífico” para o partido. E o coordenador nacional, Manuel Bompard, disse que os resultados do partido da esquerda radical transformam a LFI num pilar essencial da esquerda francesa, apelando à “formação de uma frente anti-fascistas” com as outras candidaturas de esquerda por todo o país. Contudo, como lembra o Le Figaro, o líder do Partido Socialista, Olivier Faure, acusou Mélenchon de seguir uma “estratégia de promoção do conflito” e afirmou que, “tanto na primeira como na segunda voltas, não haverá qualquer acordo nacional entre o Partido Socialista e a França Insubmissa”.
Faure abriu a porta a coligações pontuais estratégicas, quando disse que os socialistas se deveriam “unir” de forma transparente para “garantir o respeito” pelos “princípios e valores” do partido. Em Toulouse, um acordo entre os dois partidos já foi anunciado.
Os resultados desta primeira volta das eleições autárquicas em França também são mais uma evidência de um país a afastar-se do macronismo, ao fim de quase uma década de Emmanuel Macron como Presidente. O Renascença, partido de Macron, atualmente liderado pelo ex-primeiro-ministro Gabriel Attal, optou por coligações na maioria das cidades, com o objetivo de garantir lugares nas respetivas assembleias, não tendo expectativas de ganhar qualquer autarquia principal. Attal reagiu aos resultados desta primeira volta apelando à responsabilidade dos eleitores na recusa de ambos os extremos e garantindo que não irá participar em qualquer coligação com a extrema-esquerda nem com a extrema-direita.