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40 anos depois, a vez de Amy Madigan

Nomeada para o primeiro prémio em 1985, só recebeu o Óscar de Melhor Atriz Secundária agora, por "Hora do Desaparecimento". Além de ganhar o prémio, a atriz de 75 anos bateu um recorde da Academia.

Mariana Carvalho
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Com 40 anos de separação entre a primeira nomeação aos Óscar por Duas Vezes numa Vida (1985) e aquela que a sagrou vencedora do prémio de Melhor Atriz Secundária na noite domingo, Amy Madigan venceu Elle Fanning, Inga Ibsdotter Lilleaas (Sentimental Value), Wunmi Mosaku (Pecadores) e Teyana Taylor (Batalha Atrás de Batalha) na luta pela estatueta dourada. A vitória consagrou o recorde de maior intervalo de tempo passado entre a primeira e última nomeação para uma atriz na cerimónia. Um nome relativamente desconhecido, a proeza de Amy Madigan é atestado de uma longa carreira à frente das câmaras.

https://www.youtube.com/watch?v=fq3oAaVnum4&pp=ygUhdHJhaWxlciBhIGhvcmEgZG8gZGVzYXBhcmVjaW1lbnRv0gcJCcUKAYcqIYzv

Aluna do Lee Strasberg Theatre and Film Institute de Los Angeles, formou-se na escola do Método no início da década de 1980, apesar de licenciada em Filosofia pela Marquette University de Milwaukee, no Wisconsin. Natural de Chicago, Madigan já antes percorrera os EUA em tournée como vocalista de várias bandas de rock em que participou nos anos 70.

Estreou-se na televisão em 1981, e no cinema no ano seguinte — no papel da protagonista de Love Child, que lhe mereceu a primeira nomeação a Globo de Ouro. Passou pouco tempo até chamar a atenção da Academia: no drama biográfico Duas Vezes numa Vida, fez de Terry Jean Moore, uma jovem que engravidou na cadeia, do guarda prisional interpretado por Gene Hackman. Contudo, foi o marido, Ed Harris, que representou a maioria dos parceiros amorosos da atriz no grande ecrã.

Contemplar Harris pela primeira vez “foi algo tirado de um filme ou de uma canção”, segundo admitiu à revista Life em 1985, três anos depois do casamento que selou uma relação duradoura — a nível pessoal e profissional. Quatro vezes nomeado aos Óscar, Harris contracenou com a mulher em diversas produções ao longo dos anos, uma das quais o filme Pollock (2001), sobre a vida do pintor com o mesmo nome: “Gostamos muito do que fazemos e é muito divertido trabalhar juntos”, revelou o ator em entrevista recente à People. O casal teve a primeira e única filha, Lily Dolores Harris, em 1993 — atriz como os os pais.

Para lá da longa carreira televisiva e cinematográfica, Madigan regressou aos palcos e estreou-se na Broadway em 1992. Interpretou a personagem de Um Elétrico Chamado Desejo, Stella Kowalski, esposa de Stanley — imortalizado por Marlon Brando no filme de Elia Kazan — e aqui interpretado por Alec Baldwin. Madigan e Harris protagonizaram um momento memorável quando, na 71ª edição dos Óscares, recusaram aplaudir a conquista do também realizador de Fúria de Viver (Rebel Without a Cause), vencedor de um prémio honorário da Academia nesse ano.

Numa ação de protesto, criticaram o testemunho que Elia Kazan fez no Comité de Atividades Antiamericanas da Câmara dos Representantes, durante a perseguição comunista liderada pelo senador McCarthy nos EUA. Um período negro na história de Hollywood, o depoimento do realizador conduziu à exclusão de atores, guionistas e cineastas que trabalhavam na indústria. “O meu pai trabalhava no Capitólio e o período McCarthy afetou-o profundamente. Lembrei-me disso na altura”, admitiu ao jornalista Kyle Buchanan.

https://twitter.com/shannonlada/status/2033325021381238915

E o Óscar vai para…

A vitória nos Óscares premiou o desempenho de Madigan como tia Gladys, vilã de Hora do Desaparecimento. “A Gladys surpreendeu-me. Está a receber muito amor”, admitiu a atriz ao Los Angeles Times sobre a personagem que lhe rendeu o prémio, e que deve regressar às telas dos cinemas para uma prequela do filme de terror, ainda sem data anunciada.

Sobre um grupo de crianças desaparecidas de uma só vez e sem qualquer justificação — todas alunas da mesma professora primária Justine Gandy (Julia Garner) — A Hora do Desaparecimento, de Zach Cregger, explora o medo e paranoia de uma comunidade que não consegue obter respostas. À medida que as suspeitas recaem sobre Justine, a cidade dá as boas-vindas a uma pessoa excêntrica, inquietante e com uma ligação ao sobrenatural — a repulsiva tia Gladys.

https://twitter.com/ABCNewsLive/status/2033325641848766768

Bem mais elegante do que velhota de peruca ruiva e maquilhagem exagerada, Madigan subiu ao palco do Dolby Theatre em Los Angeles com um casaco de penas da Dior e óculos de lentes laranja e entregou o discurso a que não teve direito em 1984 (a vencedora foi Anjelica Huston, coadjuvante em A Honra dos Padrinhos). “Passaram 40 anos, o que é que mudou? A diferença é que agora tenho este pequenote”, disse entre risos, apontando para a estátua na sua mão.