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(A) :: Arrumar a cabeça

Arrumar a cabeça

Saúde mental não é não ter conflitos nem vivermos próximos do zen. Saúde mental não é não ter ansiedade ou nunca estar triste. Saúde mental não é ler um tutorial sobre gratidão, empatia ou auto-estima

Eduardo Sá
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E, depois, há o trabalho, com tudo o que ele exige. Mais a família, uma relação e as crianças. E a correria de todos os dias, desde que uma pessoa se levanta até que se deita. Mais os sobressaltos e os pequenos conflitos, ou os mal-estares maiores, que magoam muitas vezes. E a ideia de que, finamente, depois das crianças deitadas, não há quem se não  sente no sofá e partilhe uma série qualquer ou fale, namore ou se aconchegue. Mas, a seguir, adormece-se num minuto e os dias, quando não se fala dos sobressaltos das crianças, não dão espaço para pôr a conversa em dia e para pôr likes nas nossas relações, semelhantes àqueles que deixamos nas redes sociais. Depois, há as redes, claro, que nos agarram e nos empanturram de quase nada, o tempo todo. E uma relação assim-assim com um irmão, por exemplo, por causa duma namorada cheia de tolices que, entretanto, parece que o estragou. E a nossa família, que tão depressa é a reserva natural da bondade como aviva as páginas em branco ou as arestas e as omissões ou as tensões e as feridas por resolver que, todavia, também nos unem. Mais os sonhos que adiámos. E as viagens que não fizemos ou os brinquedos mais caros que talvez nunca tenhamos. E as chatices com um professor qualquer de uma das crianças que interferem e incomodam. E a conta do seguro e mais um risco no automóvel. E “as trombas” dos vizinhos que não teriam de ser um sol radioso mas que nos levam a comentar o quanto nos incomoda que não digam nem “Bom dia” nem sorriam. E o faz de conta das avaliações de desempenho que, por mais que sejamos óptimos, a curva normal nunca deixa que tenhamos “excelente”. E a conta-ordenado que nos dá a ideia que vivemos sempre no mês a seguir. Mais um número no tamanho dos jeans que nos abala. E o comboio de coisas que a nossa cabeça regista e liga e, incansável, tenta perceber.

Como se pode ser atarefado sem se estar agitado? Como se pode estar agitado e sereno e atento, ao mesmo tempo? Como se pode lidar bem com quase tudo sem mexermos em quase nada de nós? Como se pode arrumar a cabeça sem que tudo isto nos vire do avesso e desarrume? Até que ponto a saúde mental não é uma miragem?

Atendendo a tudo o que nos consome — e, claro, a tudo o que gerimos em “piloto automático” — somos muitíssimo saudáveis. Mas saúde mental não é não ter conflitos nem vivermos próximos do zen. Saúde mental não é não ter ansiedade ou nunca estar triste. Saúde mental não é ler um tutorial sobre gratidão ou empatia ou empoderamento ou auto-estima e aplicar tudo sem ir às entranhas e ficar-se bem resolvido sem pensar sobre as coisas, com o equilíbrio que elas merecem.

É claro não somos todos doentes mentais. Mas não é verdade que sejamos todos tão saudáveis como podíamos ser. As doenças mentais não são nem tudo ou nada e nem preto ou branco. Com o tempo, elas enviesam e “atrofiam” os nossos recursos saudáveis. E misturam, em várias camadas, aquilo com que se foi adoecendo, devagarinho, ao longo dos anos. Umas coisas, são mais profundas e doentias. Outras, semelhantes a “arranhadelas”, mais superficiais. Todas a conviver umas com as outras como se fossem partes diferentes de nós. De tal forma assim é, que as coisas desarrumadas empurram para que os nossos lados doentios nunca sejam exuberantes e claros mas, antes, tendencialmente, ou isto ou aquilo. Ou sejam do espectro disto ou daquilo, se preferirem. E, até que se manifestem de forma aberta e mais desorganizada, ora se traduzem em distúrbios, ora em perturbações mais instaladas, ora pareçam confundir-se com aquilo que somos e se traduzam em perturbações de personalidade. Querendo tudo isso dizer que sermos pessoas educadas e escolarizadas nos permite fazer com que as dificuldades não se tornem logo logo um obstáculo ou uma doença, mas que elas vão mobilizando os nossos recursos saudáveis para lhes fazermos frente até “ao limite” do que conseguimos. Mantendo-nos equilibrados, de forma a protegermos as nossas dores do conhecimento daqueles com quem trabalhamos, e resguardando-as, unicamente, para quem nos for mais íntimo.

O que se passa é que, se vamos conseguindo guardar as nossas desarrumações mais secretas, há alturas de tempestades perfeitas que, como um dominó, tudo se desarruma. E dá-se um burnout ou desequilibramo-nos, simplesmente. E aquilo que parecia mais ou menos disfarçado se aviva e marca presença. Ou parece, até aí, que tudo continua mais ou menos “arrumadinho” e, se for assim, o corpo fala por nós. A palavra é a linguagem do saúde mental. Já o corpo, quando nos grita, recorda que nos estamos a estragar, ao longo de muito tempo, aos bocadinhos. Por outras palavras, grande parte de inúmeros quadros da clínica médica fazem-se daquilo que atenta contra a saúde mental, mesmo que fale baixinho. Não, não é tudo psicológico. Mas, sim, a vida mental distorce o corpo da mesma forma que, em circunstâncias favoráveis, o equilibra e lhe dá saúde.

No entretanto, as pessoas procuram respostas em tutoriais ou na inteligência artificial em relação às suas dores. Ou em muitos apoios que, vezes demais, não lhes trazem as legendas e as passwords indispensáveis para que se tornem mais saudáveis. Às vezes, medicam a febre daquilo que não as deixa ser tão saudáveis por dentro, e tentam abolir ansiedade ou depressão, como se sem esses sinais vitais fossem mais suáveis. Não, não é por consumirmos mais fármacos que nos tornamos mais saudáveis. Por mais que, muitas vezes, eles pareçam segurar aquilo que nos desarruma e não nos deixem logo cair. A saúde mental não se conquista de um dia para o outro. Mas se as ajudas não promovem transformações e não nos tornam mais simples, mais esclarecidos, mais exequíveis e mais proativos então é porque um apoio psicoterapêutico ficou muito aquém daquilo que nos devida dar.

É fácil, considerando tudo aquilo que a nossa cabeça traz até ao nosso conhecimento e o corrupio da nossa vida, não transformarmos vida mental em saúde mental. E mais fácil é à medida que nos tornamos mais velhos e vamos acumulando coisas desarrumadas dentro de nós. Em boa verdade, saúde mental significa arrumar a cabeça. Não tanto raciocionalizar tudo e mais alguma coisa. Não tanto ficarmos presos no passado. Mas nunca olharmos o presente como se o passado tivesse ficado lá atrás (o que não é verdade). Saúde mental significa trazer até nós claridade e tranquilidade e sabedoria e paz, quando se junta passado e futuro e se juntam as pessoas que nos parecem dividir. Juntando o que se sente com tudo aquilo com que se discorre. Há um caminho grande até se arrumar a cabeça; é verdade que sim. Talvez ela nunca se arrume sozinha. Nem nunca se arrume antes de percebermos que pensar é sempre o melhor remédio. Mas há um mundo interminavelmente fabuloso que se passa a conquistar depois de lá se chegar. E essa será, duma outra maneira, uma forma de redenção, de regeneração ou de nos afastarmos daquilo que nos mata e, com humildade e perseverança, dar um salto até à “vida eterna”. Vista desta maneira, talvez a saúde mental valha mesmo a pena.