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No Terramoto de 1975

Texto lido na apresentação do livro "No Terramoto de 1975", dedicado aos, tantas vezes esquecidos, presos políticos da Revolução, em especial ao pai do autor, Ruy Moreira.

Tomás Moreira
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Durante o PREC, os militares do MFA perseguiram e prenderam, por motivos exclusivamente políticos, milhares de cidadãos inocentes, sujeitando-os a abusos e torturas.

Um dos presos políticos, a 12 de Março de 1975, foi o meu Pai, Ruy Moreira, fundador da Molaflex, o principal – mas não único – personagem do livro “No Terramoto de 1975”, acabado de publicar pela Editora Guerra e Paz.

A 27 de Junho de 1975, cerca de 1400 trabalhadores da Molaflex manifestaram-se pacificamente no Porto em frente ao Quartel-General, pedindo a sua libertação. Numa época em que se promovia a luta de classe e o ódio entre patronato e operariado, isto foi um choque que contrariava o discurso oficial e um escândalo que os militares e a extrema-esquerda não podiam deixar passar em branco. Por isso, os trabalhadores que participaram da manifestação foram insultados, agredidos e alguns deles detidos, sendo colectivamente acusados de contra-revolucionários e fascistas. O líder da comissão de trabalhadores, representante eleito de 1800 operários, foi preso durante dois meses.

Ninguém quis ouvir os pedidos dos trabalhadores que clamavam justiça para o patrão e ninguém os defendeu. Nem a polícia ou a Justiça. Nem jornalistas ou deputados. Nem sindicatos ou partidos. Nem o governo, ao qual pertenciam figuras lendárias e respeitáveis como Salgado Zenha – por sinal Ministro da Justiça -, Mário Soares, Almeida Santos, Melo Antunes, João Cravinho, mas também Magalhães Mota, do PPD.

Nessa altura, ninguém ousava defender publicamente aqueles que tinham a coragem de fazer frente ao MFA, mesmo que fossem simples operários. Quem se opusesse ao MFA era fascista e merecedor de repressão violenta. Ponto final.

Neste livro, num esforço grande por distinguir entre factos e opiniões, procurei, registei e documentei o testemunho e a história não dos vencedores, mas dos que combateram os excessos do PREC e foram perseguidos e derrotados, e a quem nunca foi feita justiça.

Apesar de centrado no “caso” Ruy Moreira, o livro não é apenas um relato familiar, mas o testemunho dum percurso coletivo, que pretende relembrar o ambiente daqueles tempos. Lembra muitos portugueses que foram vítimas de abusos. Sobretudo os que estiveram presos, mas também outros que foram injustiçados, maltratados, espoliados, empurrados para o exílio.  Quase todos ficaram traumatizados e penalizados, duma ou doutra forma. Eles e as suas famílias.

Não pretendo comparar regimes nem hierarquizar crimes históricos, mas, em termos de repressão contra os opositores, esta 3ª República, nos seus primórdios, repetiu os tempos mais negros que no século passado se viveram durante a terrível 1.ª República e também no Estado Novo, com a sua PIDE.

O caso da Molaflex, que foi intervencionada pelos militares, e cuja história conto com algum pormenor, é um bom exemplo de como as empresas e a nossa economia foram abaladas pelo Terramoto de 1975. As indústrias nacionais nunca mais tiveram condições que lhes permitissem desenvolver todo o seu potencial.

Na sequência da revolução não foi só o Estado que faliu três vezes: muitas empresas fecharam, foram desmembradas, nacionalizadas ou vendidas a estrangeiros, outras sobreviveram, mas fragilizadas.  Para a economia nacional, foram danos brutais e incalculáveis, de que ainda não recuperámos totalmente.

A somar a esses abusos contra os direitos humanos e aos danos à economia da metrópole, foi impossível omitir os resultados da descolonização, que foi o detonador da oposição de Ruy Moreira ao novo regime.

Permiti-me citar Melo Antunes — figura insuspeita e com as maiores responsabilidades directas nesse processo —  que, em Julho de 1975, escreveu: “O mundo condenar-nos-ia se deixássemos Angola entregue ao caos, à guerra civil.”

Pois foi exactamente isso que o regime fez. E foram pessoas concretas que tomaram as decisões. Quem se dispôs até hoje a assumir as responsabilidades?

Perguntar-me-ão para quê remexer o passado.

Seguramente todos achamos que, passados 50 anos, já será altura de esquecer as tropelias e as violências do PREC. Todos queremos fechar esse capítulo, perdoar e seguir em frente. A questão é que o perdão deve ser consequência dum arrependimento sincero.

Há, pois, que perguntar se houve ou há no nosso regime ou nos responsáveis da época algum sinal de arrependimento; algum reconhecimento dos crimes praticados; algum pedido de desculpa pelo mal que fizeram, aqui e no Ultramar, alguma forma de compensação às vítimas de maus-tratos?

Durante o PREC, opor-se à deriva comunista e à descolonização precipitada dava direito a ser preso, insultado, espoliado ou empurrado para o exílio. E hoje? Já se pode criticar o que se passou nos primeiros tempos do nosso regime? Ou isso continua a dar direito ao insulto e a algum ostracismo?

Passados 50 anos é finalmente altura para sem medo, de cabeça erguida afirmar:

– Que muitos outros países europeus fizeram na mesma época as suas transições para a democracia duma forma muito mais bem-sucedida, sem prisões, sem a destruição das suas economias.

– Que para construir a democracia que todos prezamos, havia, pois, outros caminhos possíveis; melhores;

– Que eu, e muitos que pensam da mesma forma teríamos preferido uma evolução diferente, que nos tivesse poupado as agruras do terramoto de 1975;

– Que, por isso, não me peçam aplausos aos cravos vermelhos de Abril nem aos homens que conduziram os nossos destinos durante os primeiros anos da democracia.

É que, considerando o grau de destruição de património nacional e o número de mortos no Ultramar, as consequências do PREC serão equiparáveis às maiores tragédias da nossa história: e estou a lembrar-me de eventos como Alcácer-Quibir, do Terramoto de 1755, das Invasões Francesas, da Guerra Civil do início do século XIX.

E qual foi, a cereja no topo do bolo? Seis meses após o 25 de Abril, Portugal era uma ditadura militar a caminho de se tornar uma ditadura comunista! Quem nos salvou desse destino?

A história é escrita pelos vencedores, que não resistem à tentação de a reescrever e manipular. Os regimes são hábeis a substituir factos por mentiras organizadas. A consequência é que a posterior avaliação e julgamento são deturpados, criando falsas percepções.

Segundo a historiografia oficial, que é partilhada pela maioria dos portugueses, os principais protagonistas contra a tentativa de instauração de um regime comunista, terão sido Mário Soares, os militares moderados autores do Documento do Nove e o general Ramalho Eanes.

No entanto, o famoso comício do Partido Socialista na Fonte Luminosa foi a 19 de julho de 1975. Só então o líder do PS percebeu que o povo tinha virado e decidiu afastar-se do Governo, do MFA e do PCP. Até lá, nunca se lhe ouviu uma palavra contra as prisões políticas. E isto é para não falar em todo o processo da descolonização, na qual emparceirou alegremente com os comunistas.

Apesar de ter acordado tarde, Mário Soares acabou por ganhar o estatuto e a fama de ter sido o principal resistente à instalação do comunismo em Portugal. Não discuto o seu mérito, mas os factos indicam que não foi ele o primeiro. De todo!

Os trabalhadores da Molaflex manifestaram-se corajosamente no Porto um mês antes daquele comício do PS, numa altura em que ainda ninguém ousava enfrentar os militares nas ruas.

Mas, muito antes disso, logo no Verão de 1974, poucos meses depois do 25 de Abril, muitos portugueses já se tinham apercebido dos riscos e tinham começado a reagir, duma forma ou de outra, contra uma nova ditadura. E a ser perseguidos por isso.

Portanto, quando Mário Soares acordou em Julho de 1975, os verdadeiros heróis já há muito tempo estavam na prisão, no exílio, na clandestinidade ou nas ruas do Norte, a fazerem-se ouvir e a lutar contra a maré, corajosamente.

E falo de quem?

Dos que logo em 1974 questionaram a descolonização, combateram a anarquia nas empresas, criticaram as ocupações selvagens e as nacionalizações, lutaram por uma comunicação social independente.

Dos que se inscreveram em partidos de direita legais que no 28 de Setembro foram proibidos, dos que ficaram sem o seu emprego ou sem as suas empresas, dos que se manifestaram frente às sedes dos partidos comunistas ou optaram por fazer política a partir da clandestinidade.

Falo também, naturalmente de Ruy Moreira e dos 1400 trabalhadores da Molaflex cuja história fica registada no livro, como um exemplo de que era possível reagir de forma pacífica, mas determinada. Ao reagirem a tempo, todos foram acusados de reaccionários, de fascistas, de quererem regressar ao passado. E ainda hoje são olhados de lado. Na dita historiografia oficial, em vez de serem homenageados como combatentes pela liberdade, ficaram injustamente recordados como sendo opositores à democracia, merecedores das punições que alguns sofreram.

Não devem ficar presos a essa mentira. Não têm nada a esconder, apenas tiveram razão cedo demais!

Espero com este livro ter contribuído para limpar a sua memória e corrigir as injustiças que sofreram.  Podem andar de cabeça erguida porque foram heróis da resistência: Da resistência contra uma ditadura comunista.

Podem e devem rejeitar o rótulo de extremistas, que desde há meio século foi injustamente colado ao meu Pai e a tantos outros. A história nos julgará a todos – mas que nos julgue com verdade.