O atraso de duas horas pode até ser lido como mais um elemento a contribuir para os clichês já esperados de uma noiva. Nuno Baltazar decidiu usar a ModaLisboa para apresentar a sua coleção bridal, que definiu como uma “rutura com cânones tradicionais da moda nupcial” e um “manifesto de questionamento”. Mas o criador não rompe com a forma, nem com os materiais ou as cores: a passerelle encheu-se de vestidos brancos ou off-white, com rendas, bordados, chiffon e tules.
A decisão veio porque as noivas são “parte do meu trabalho, do meu quotidiano, do atelier. Esse processo é muito íntimo, de um para um para com a mulher que me procura, mas tem um lado que não é visível. Há angústia, há dúvida. Os olhares todos em cima daquela mulher provoca outras sensações que muitas vezes não são faladas. E eu acho interessante pensar em abrir gavetas que não são exploradas. E a dúvida ou a angústia é tão importante quanto o amor. Nós somos feitos de camadas, só assim podemos deixar de ser pessoas superficiais”, explica o designer, sobre o momento em que as noivas vão aos microfones montados no meio da sala e dizem frases como “I can’t” ou “I don’t want to”.
Os modelos são clássicos e confecionados num trabalho artesanal cuidadoso. Mas a ousadia está na apresentação. A primeira noiva a desfilar vinha com uma espécie de vestido capa, em que a parte da frente acabava mesmo na barriga, deixando os collants rendados à mostra. Outros vestidos exageram nos decotes, ou trazem a abertura para as pernas até a altura das ancas. Nuno Baltazar também extravasa na ideia do véu que cobre o rosto, trazendo verdadeiras máscaras em renda ou tule. Ao Observador, o criador explica que optou por apresentar alguns vestidos desmembrados e usou o contraste de cores como vermelho e os brilhos das lantejoulas, nas luvas que já apareceram em desfiles de coleções passadas. “São vestidos pensados para mostrar o meu trabalho para os meus clientes, há mulheres que têm muito tempo e que gostam de um trabalho mais personalizado, há outras que não têm tempo e preferem uma coisa que já esteja desenhada, portanto no fundo foi aqui ampliar um bocadinho as possibilidades de trabalho comigo nesta área.”


As noivas já desfilaram na ModaLisboa em outras ocasiões, apesar de ser mais comum ver propostas bridal dentro de coleções — como já o fez Gonçalo Peixoto. Nesta edição, o criador que costuma atrair um grupo considerável de figuras públicas, entre atrizes, cantoras e (muitas) influencers, decidiu explorar a dualidade entre o avanço da inteligência artificial e o artesanato na moda. “Quero trazer esta discussão do que é a inteligência artificial, no presente e no futuro, e o que é o nosso passado, ou que é o meu passado. Tem muito trabalho manual, pedras, penas que foram colocadas uma a uma nos vestidos. Ou seja, fazer esta linha ténue entre o que é o presente e o passado, entre o que é a inteligente artificial, que é parte do nosso mundo, mas sem perder este cunho pessoal e de personalidade”.
O desfile tinha uma espécie de decor, com arquivos e a simulação de repartições de um escritório num estilo anos 1990, elementos que desvendam o desejo do criador em apresentar coleções de forma cada vez mais elaborada — e possivelmente off location numa próxima edição. Alguns “clássicos” Gonçalo Peixoto permanecem, como os vestidos de seda curtos e justos, os padrões divertidos, as peças de alfaiataria oversized, as transparências e as lantejoulas. Contudo, um vestido em especial trouxe alguns problemas para uma das manequins, que teve bastante dificuldade em caminhar, exatamente pelo facto da peça ser tão justa. Chegou mesmo a cair na passerelle nos momentos finais, quando não foi capaz de acompanhar o ritmo das outras em cima de saltos altíssimos, e teve que ser acompanhada aos bastidores com a ajuda de Inês Mendes da Silva, a CEO da Notable, agência que cuida da comunicação do designer. Gonçalo Peixoto desvaloriza o incidente, mas reconhece que possa ter que alterar a peça por uma questão de conforto. “É a vida a acontecer, eu sou zero quadrado na minha profissão. Quero que as coisas corram bem mas tenho um trabalho muito moldável. Isto vai para a parte da produção, onde é tudo revisto e percebemos o que é que podemos melhorar, o que é que podemos alterar para que as coisas corram melhor.”
Padrões e cor nas propostas urbanas de Ricardo Andrez e DuarteHajime
No sábado, Ricardo Andrez foi o responsável pelo desfile off-location, e apresentou no MUDE. Neste regresso à ModaLisboa depois de uma edição sem integrar o calendário oficial, o criador trouxe uma coleção inspirada pela nostalgia numa paleta entre os cinzas, tons de azul escuro, e peças em rosa e azul pastel, uma proposta que extravasa a ideia de outono/inverno. “Não temos que ter a pressão de apresentar de seis em seis meses. Por isso a minha ideia de hoje fazer looks de quase verão no final“, diz ao Observador o criador, que afirma que esta poderá ser uma “coleção anual”, mas não necessariamente. Entre veludo com efeito molhado, padrão leopardo e jacquards, destaque para as aplicações com plumas coloridas e o tule bordado com contas. “Nunca tinha trabalhado lantejoulas, que é uma coisa de festa, e esta tem um fundo creme, com um ar empoeirado da avó. Tenho que falar das plumas, foram todas pregadas à mão. E os botões dos casacos são de vidro que arranjei em retrosarias antigas. Tem uma pegada mais vintage nos materiais e nas cores. E também muita atenção aos detalhes, mesmo que a peça pareça simples o acabamento é muito rigoroso.”
Seguindo o estilo streetwear, Duartehajime quis contar o ciclo de vida caótico de uma banda de rock e trouxe uma de verdade à passerelle. Com o som ao vivo embalado pela bateria e as guitarras da The Red Bass, Ana Duarte trouxe também peças de alfaiataria adaptadas para o seu ADN, que abusa dos padrões, fechos, recortes e aplicações de tachas. “Já fizemos blazers e fatos antes, mas nem sempre tem tanta saída porque acaba por ser uma peça mais cara, já que fazemos toda a alfaiataria por dentro, com os acabamentos. Mas pensava que neste caso tinha que complementar, e acabei por dar o twist e pôr fecho nos blazers”, diz a designer, que também destaca os padrões animais, referências a bandas como os Guns n’Roses ou o Aaerosmith.
As peças escultóricas de Valentim Quaresma voltaram nesta coleção outono/inverno, em peças que resultam da investigação da manipulação têxtil. Numa paleta que vai do preto ao cinzento, passando pelas superfícies metalizadas, o criador apresenta drapeados, torções e sobreposições, combinadas com fitas cruzadas e tecidos fluidos, que dão o movimento. Em propostas para homem e mulher, leva à passerelle principalmente vestidos e túnicas, ou tops combinados com saias mais volumosas. Na cabeça, os manequins traziam os já habituais acessórios metálicos — peças presas aos cabelos ou máscaras feitas com argolas, correntes e espinhos de latão.
Dino Alves, Carlos Gil e Luís Carvalho terminam em festa
Com uma coleção em parceria com a Humana, Dino Alves aposta mais uma vez no upcycling. A primeira parte do desfile trouxe artigos da loja de roupa em segunda mão como matéria prima (até a logomarca da Lacoste surge num dos looks) para criar novas formas de usar as peças. Blazers são usados como saias, ombros de camisas transformam-se em pregas para saias rodadas, casacos de inverno viram vestidos, calças de ganga voltam a ser calças mas com recortes e desfiados. A segunda parte segue a narrativa da primeira, mas com peças originais, em que Dino Alves dá o seu toque de streetwear a peças de alfaiataria, com cordões e franzidos. A transparência e o glamour vem à passerelle com saias volumosas de tule verde, enquanto as calças brincam com silhueta e apresentam-se com os cós largos, como se fossem aros. A coleção termina com variações do mesmo vestido preto com gola — um com buracos, outro com plumas, outro franzido.
Depois da estreia na edição passada, Roselyn Silva salta para o calendário principal e abre os trabalhos do último dia de ModaLisboa no MUDE. A coleção mantém o ADN da criadora de origem africana, com padrões, alfaiataria e saias rodadas, mas deixa de lado a cor, apostando apenas no preto e branco. A plateia foi tomada por amigos e clientes da designer, que ao receber o aplauso do público, fez questão de dedicar abraços a convidados para si ilustres — a antiga ministra da Justiça, Francisca van Dunem, ou a presidente da associação ModaLisboa, Eduarda Abbondanza — além da presença de algumas figuras públicas, como o humorista Gilmário Vemba e os músicos dos Calema. No Pátio da Galé, Carlos Gil também é um dos designers que atrai figuras da política e da televisão. À passerelle trouxe uma coleção inspirada em culturas internacionais, com as suas tradicionais sedas, alfaiataria clássica e peças que valorizam a silhueta.


Ao som de Rosalía com Carminho, Luís Carvalho fechou os trabalhos no Pátio da Galé com casa cheia. Celebridades, outros designers do calendário principal, figuras da organização — todos estavam a postos para ver a coleção outono/inverno do criador, com o tema After Image. “Tem a ver com memórias passadas, memórias que temos dos sonhos. Como referências visuais para estas memórias trago os pregueados que faço em todas as peças, para assentar os casacos, as calças. Os tecidos, que têm efeito enrugado. O próprio tecido parece ter memória. A paleta cromática muito cinzenta. Bolsos e palas como detalhes, quase como uma metáfora sobre onde nós guardamos as nossas memórias e os nossos sonhos”, explica Luís Carvalho, que levou à passerelle a tradicional alfaiataria com silhueta larga, mas menos oversized, e com foco nas cinturas franzidas e cortes arredondados ou curtos.
Entre os looks, peças de acessórios em prata, uma colaboração com a Topazio. “Criei cinco ou seis peças, acessórios de moda, feitos em prata manualmente. Uma gravata, um colarinho, uns plumes”, conta o designer. Entre as propostas de vestido de festa estão modelos em cetim vermelho e preto com silhueta alongada e caudas, além de peças com transparência e brilho, que transmitem sensualidade mesmo em modelos mais soltos. Tal qual a tatuagem que tem no peito, terminou o desfile ao som de Forever Young, com o aplauso forte da plateia lotada, alguns abraços de amigos, ar de liberdade e espírito de festa — até arriscou uns passos de dança já quase a pisar para o backstage. Pelas 23h de domingo o Pátio da Galé já estava a esvaziar. Agora só volta a abrir portas para a moda nacional em outubro.