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(A) :: Uma pintura que nunca foi exposta e uma carta perdida nos arquivos: a surpreendente ligação entre Paula Rego e Edvard Munch

Uma pintura que nunca foi exposta e uma carta perdida nos arquivos: a surpreendente ligação entre Paula Rego e Edvard Munch

Aos 16 anos, Paula Rego viu uma exposição de Munch e ficou impressionada. O pintor norueguês viria a influenciar o seu pensamento artístico e o seu estilo. Mas a ligação só foi descoberta agora.

João Francisco Gomes
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Uma pintura inédita e uma carta recentemente descoberta no espólio de Paula Rego revelam que a aclamada pintora portuguesa, que morreu em 2022, em Londres, aos 87 anos, foi profundamente influenciada pelo artista norueguês Edvard Munch, autor do célebre quadro “O Grito”.

A história, contada este domingo pelo jornal britânico The Guardian, remonta a 1951, quando a jovem Paula Rego, então com 16 anos e estudante numa escola secundária em Kent, no Reino Unido, visitou uma exposição na Tate Gallery, em Londres.

Na altura, Paula Rego escreveu uma carta à sua mãe, em Portugal, contando-lhe o que viu na exposição. “O que mais me impressionou foi uma exposição sobre um pintor moderno norueguês, Edvard Munch”, escreveu a jovem Paula Rego na carta, numa altura em que tinham passado apenas sete anos desde a morte de Munch, em 1944, em Oslo.

“Não sei se estás a par daquele quadro bastante conhecido, ‘O Grito’ — que é dele —, e ele pinta quase tudo nesse estilo”, escreveu ainda Paula Rego. “Ele também tem muitas gravuras e desenhos. Mas é tão impressionante, tão impressionante que nem dá para imaginar. Acima de tudo, um quadro chamado ‘Herança’, que mostra uma mulher sentada a chorar com uma criança esquelética, toda pintada de verde, ao colo.”

Quando, no ano seguinte, uma forte seca assolou Portugal, Paula Rego pintou um quadro intitulado “Seca” em que são visíveis as influências de Munch: a paleta de cores e o estilo de pinturas como “O Grito” e “Ansiedade” e até o bebé de “Herança” parecem surgir naquela pintura de Paula Rego, que mostra uma mulher em desespero perante o sol escaldante, com um bebé esquelético ao colo.

Essa pintura, porém, ficou fora do olhar público durante décadas. Só em 2015 é que Paula Rego voltou a encontrar a obra, de 65 por 22 centímetros, durante arrumações na casa da família em Portugal, em conjunto com o filho, Nick Willing. Dali, a pintura seguiu para Londres, onde ficou guardada no estúdio de Paula Rego. Só em outubro de 2025 é que Nick Willing, atual responsável pelo espólio da pintora, voltou a descobri-la.

De acordo com o The Guardian, o filho de Paula Rego mostrou a pintura à historiadora da arte Kari J. Brandtzæg, curadora do Museu de Munch, em Oslo. Brandtzæg não hesitou em identificar naquela obra a influência do pintor norueguês. “Era tão óbvio no uso do vermelho e do amarelo, bem como no modo como foi pintado, de forma muito grosseira, como Munch fazia nas suas pinturas da década de 1890”, disse Brandtzæg.

Contudo, e apesar de Nick Willing ter confirmado que Paula Rego sempre admirou Munch, nem o filho da pintora nem a historiadora conseguiram encontrar uma ligação entre os dois, já que não havia registos de qualquer viagem de Rego a Oslo ou a outros locais onde possa ter admirado as obras de Munch nesse período inicial da sua carreira artística.

Brandtzæg insistiu, ainda assim, na investigação de uma possível ligação entre os dois artistas, com o objetivo de incluir a obra na exposição Dance Among Thorns, dedicada a Paula Rego no Museu de Munch, que inaugura a 24 de abril com curadoria de Brandtzæg.

Foi nessa investigação que Brandtzæg, Nick Willing e Eloisa Rodriguez, arquivista de Paula Rego, passaram a pente fino os arquivos documentais do período da adolescência da artista, muitos deles escritos em português — e encontraram a carta de 1951, que desbloqueou tudo.

“Foi eletrizante”, lembra Brandtzæg, referindo-se ao momento em que encontraram a carta que completou o puzzle. Além disso, a historiadora da arte conta que também encontrou outros indícios da ligação entre Paula Rego e Edvard Munch, incluindo um registo de uma ida da portuguesa com os pais a uma exposição em Paris, em 1952, com obras de Munch — na prática, a mesma exposição itinerante que tinha visto no ano anterior na Tate Gallery.

Para Brandtzæg, estes indícios dão conta do quão “ligada ela se sentia a Munch”. A artista portuguesa, um ícone da arte feminista, acabaria por ver em Munch um “ídolo” que “espoletou os sentimentos dela e lhe deu coragem e inspiração”, acredita a historiadora. “Algo de profundo dentro dela ressoa com o trabalho de Munch, algo que ela quer expressar.”