A cantora espanhola Rosalía veio esta semana a público pedir desculpa pelas declarações que fez recentemente acerca dos abusos e maus tratos do artista Pablo Picasso, mestre do cubismo do século XX que morreu em 1973 e cujo legado de genialidade artística tem sido ensombrado pelas acusações de maus-tratos, misoginia e abusos contra as mulheres.
A polémica surgiu no início de março, depois da publicação de uma conversa promovida pelo Spotify entre Rosalía e a escritora argentina Mariana Enriquez. A certa altura dessa conversa, como conta o jornal espanhol El País, Rosalía aborda o tema do complexo legado de Picasso, afirmando que separa o homem da obra. “Não me incomodou distinguir o artista da obra”, diz a cantora. “Talvez esse senhor, se o tivesse conhecido, não me tivesse caído tão bem, pelo que me contaram. Mas, quem sabe, talvez sim. Não me importo, desfruto da sua obra.”
As declarações de Rosalía, cantora cujo posicionamento público acerca da defesa dos direitos das mulheres ficou particularmente patente no seu mais recente disco, o sucesso global Lux, criaram polémica nas redes sociais e levaram esta semana a artista a pronunciar-se sobre o tema.
“Não estou em paz com o que disse”, afirmou Rosalía num vídeo publicado nas redes sociais. “É verdade que me enganei, têm razão. Obrigado por mo dizerem. É importante não se falar de certos assuntos quando não se tem todo o conhecimento.”
Num vídeo em que reconhece que foi aconselhada a não reagir publicamente à controvérsia, Rosalía disse que se sentiu pessoalmente impelida a gravar a mensagem. “Pensava que Picasso era um homem terrível, tal como se costuma dizer dele. Não tinha consciência de que havia casos reais de abuso. Quero pedir desculpa se houve falta de sensibilidade da minha parte nessa conversa. E por essa total falta de empatia para com essas mulheres.”
“Não tenho nada mais do que amor, respeito e agradecimento pelo feminismo”, acrescenta ainda Rosalía, perseguida por várias polémicas ao longo da sua carreira acerca desta questão.
“Talvez por vezes seja demasiado cautelosa devido a esse amor e respeito. Sinto que tenho medo de me definir de determinada forma, por não ser uma representação suficientemente boa disso”, disse ainda. “Acho que é claro: a forma como vivo, escrevo, atuo, canto, faço música e amo é muito feminista. Para mim, a minha posição feminista é óbvia. Talvez para os outros não tenha sido assim tão óbvia.”
No passado, Rosalía já se viu envolvida noutras polémicas, por exemplo quando não se posicionou acerca da guerra na Faixa de Gaza e foi criticada pelo silêncio.
“Hoje em dia, se não te posicionas de maneira muito clara, o mundo é muito polarizado, parece que, se não dizes claramente o lado em que estás, estás do outro”, disse ainda Rosalía no vídeo, que diz não ter feito para quem a critica, mas para os seus fãs.
Rosalía começa esta semana, com um concerto em Lyon, França, a digressão mundial para apresentar o disco Lux. A digressão passará por Portugal, com dois concertos agendados para a Meo Arena, em Lisboa, para os dias 8 e 9 de abril.