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Oliva exibe "horror ao vazio" com voz de Gonçalo M. Tavares entre 86 obras de Arte Bruta

Centro de Arte Oliva apresenta peças assinadas por cerca de 40 artistas que revelam animais, máquinas, espíritos, figuras humanas, monstros e anjos cobertos por superfícies densamente preenchidas.

Agência Lusa
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O Centro de Arte Oliva inaugura sábado uma exposição com 86 esculturas de Arte Bruta que, acompanhadas por uma instalação com texto e voz do escritor Gonçalo M. Tavares, exploram o “horror ao vazio” enquanto compulsão e liberdade.

Até janeiro de 2027, este equipamento cultural de São João da Madeira, no distrito de Aveiro e Área Metropolitana do Porto, apresenta assim um conjunto de peças que, assinadas por cerca de 40 artistas, revelam animais, máquinas, espíritos, figuras humanas, monstros e anjos cobertos por superfícies densamente preenchidas.

A curadoria é da romena Marta Jecu, docente e investigadora em Portugal, que reúne assim, sob o título “Horror Vacui”, dezenas de figuras antropomórficas que, selecionadas entre as mais de 2 mil obras da Coleção Treger Saint Silvestre, revelam diferentes modos culturais de negociar o espaço vazio.

“A anarquia e o excesso atuam como mecanismos de proteção contra a incerteza ontológica e preencher o vazio torna-se uma estratégia de estabilização existencial”, diz Marta Jecu.

“Por um lado, isso pode ser visto não como um medo, mas como uma liberdade de habitar o espaço infinito ao redor e à disposição de cada um, preenchendo-o com imaginação transbordante, num desenvolvimento livre não censurado pela convenção. Por outro lado, a ansiedade do vazio e a necessidade de preencher o universo com as próprias projeções, de forma compulsiva e sem discernimento, sufoca o sujeito numa amalgamação descontrolada e não-estruturada onde os elementos se tornam indistintos”, explica a curadora.

No contraste entre essas perspetivas, “a superfície preenchida funciona como proteção: repetição, ornamento e saturação estabilizam a perceção e protegem contra a desintegração”.

Marta Jecu garante que há nisso a devida graça, porque a exposição capta “não apenas como as convenções podem ser desafiadas, mas também o humor de habitar o espaço e a si próprio com excesso, liberdade e inquietação”. Sem vazio, a obra final “emerge contra as valorizações modernas da abstração, do silêncio, da espacialidade, da síntese e da contenção”, impondo “confusão, acumulação irracional, oscilação e veemência”

“Reforçam e demolem os princípios da arte contemporânea, transgredindo a convenção e alargando limites”, realça a curadora.

O texto que Gonçalo M. Tavares escreveu e gravou para ambientar as 86 obras da mostra constitui, nesse contexto, o que Marta Jecu considera uma “contribuição filosófica” para a interpretação do generalizado horror ao vazio nelas expresso, proporcionando ao espectador uma reflexão complementar que o acompanha, enquanto instalação sonora, em todo o percurso expositivo.

O escritor admite logo de início: “Tenho horror ao certinho, ao direito e ao reto, pois a morte é a coisa mais reta que te espera”.

Apreciando especificamente o “ar alucinado” da escultura de Alfredo Garcia Revuelta e o que parecem “senhores saídos de um manicómio feliz” na peça de Al-Mahjoub Jaber, assim como as “infinitas pernas” do trabalho de La Mère François, Gonçalo M. Tavares identifica em diferentes obras uma certa convulsão.

“A arte é bruta quando atropela o alvo com a ingenuidade da pressa ou da lentidão”, defende o escritor. “A velocidade manual do artesão é coisa que vai em linha reta até ao fim — a ritmo de passada pousada ou então a larga passada — mas o artista não é apenas artesão: é artesão que sonha, artesão que aceita o desvio no processo”, acrescenta.

Um desses ‘artistas-artesãos-seonhadores’ é o norte-americano Terry Turrell (1946), que, tendo crescido em contacto com o negócio de sucata dos pais, cedo começou a criar os seus próprios brinquedos a partir de materiais aí recolhidos. Na idade adulta, quando decidiu dedicar-se à pintura e escultura, retomou então esse processo de ‘assemblage’, montando peças que lembram relicários, tanto pelo carácter minucioso e detalhado dessas composições como pelo que revelam de cenas interiores enigmáticas.

Outro exemplo é o do italiano Giovanni Battista Podestà (1895 – 1976), cujo trabalho reflete as incertezas, inseguranças e mudanças que marcaram os primeiros 50 anos do século XX no seu país. Nas suas esculturas em baixo e alto-relevo reutilizou fragmentos de espelhos, papel e metal, do que resultou o que muitos classificam como um manifesto contra a perda de espiritualidade decorrente dos valores materialistas associados ao crescimento da sociedade de consumo.

“Fé feita pedra, madeira ou caco abençoado”, analisa Gonçalo M. Tavares. “A fé como uma energia do fazer; importa pouco a geometria quando esta é colocada ao lado da crença. A crença é da ordem do milagre. A geometria é da ordem da régua”.